A depressão de um ex-Benfica: «Estou há sete meses sem dormir bem»

18 dez 2021, 12:24
Juan San Martín (instagram)
Juan San Martín (instagram)

Juan San Martín chegou em 2012 para as águias e tem feito toda a carreira no Algarve. Em novembro, a (falta de) saúde mental obrigou-o a parar. Através do Maisfutebol, o uruguaio mostra a coragem dos maiores campeões: «Não tenham medo de pedir ajuda.»

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Noites demasiado longas, assombradas. Pensamentos escuros, agitados.

A mente de Juan San Martín faz um pacto com o medo. Atraiçoa o avançado. O uruguaio, jogador do Benfica entre 2012 e 2016, passa a conhecer o significado da palavra «tristeza».

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Na primeira pessoa, como se estivesse no divã do psicólogo que o acompanha há algumas semanas, o testemunho de San Martin ao Maisfutebol é, em primeira análise, uma lição de coragem.

Ultrapassados os preconceitos, suspirados os temores, o atacante de 27 anos – só 27 anos – abre o jogo. Entrega o coração à conversa e as palavras saem. As perguntas são inúteis, desnecessárias.
 

A 10 de novembro, Juan San Martín faz o último jogo pelo Esperança de Lagos. Faz 27 minutos, marca um golo e decide parar. Já não há forma de o esconder, de procurar desculpas e esconderijos.

«Comecei a sentir-me mal há alguns meses. Já não me sentia feliz a fazer o que sempre amei, jogar futebol. Estava a ter dificuldades para encontrar a motivação. Decidi dar um passo ao lado para me reencontrar. Tenho o objetivo de voltar a jogar, mas agora ainda não.»

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Ironicamente, Juan estava a fazer uma das melhores épocas da carreira. Levava sete golos em oito jogos oficiais, mas já nem isso o animava. O que está por trás daqueles 90 minutos? No caso de Juan San Martín, estava «uma enorme instabilidade» e brutais «mudanças de humor».

«Ia treinar sem vontade, sempre com a cabeça noutro sítio, mas chegava o dia do jogo e eu conseguia focar-me», continua o uruguaio, chegado à Luz em 2012, do Peñarol. O discurso é pungente, sentido, toca a alma de qualquer um.

Num dos meus últimos jogos no Esperança, contra o Pinhalnovense [31 de outubro], fui para o jogo sem dormir. A depressão tem-me afetado muito o sono, o descanso. Joguei os 90 minutos, marquei um golo e fiz uma assistência, tudo sem dormir.»

Surge uma pausa e intromete-se uma rara pergunta. E agora, Juan, as noites de sono tranquilo já voltaram?

«Não, há sete meses que não consigo dormir bem. A minha mulher acha muito estranho porque eu não durmo à noite e também não tenho sono durante o dia, ando com energia. Venho trabalhar e sinto-me com força, sempre sem sono.»

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«O primeiro sintoma foi a mudança repentina de humor»

Liliana Ribeiro é a mulher de Juan San Martin. Melhor amiga, companheira, e a primeira a perceber que algo de muito errado se passava com o atleta do Esperança de Lagos.

«Tive de desabafar com a Liliana, primeiro, e depois com um psicólogo. Foi ela que me sugeriu ter esse acompanhamento, porque não era normal o que me estava a acontecer. Foi-me diagnosticada uma depressão. Estou a ser acompanhado, medicado e sei que voltarei a jogar», prossegue o ponta-de-lança formado no Peñarol.

Senti necessidade de procurar ajuda médica. Sou muito reservado, não gosto de partilhar as minhas fraquezas e nem com a minha mulher queria demonstrar o que andava a sentir. Ela tem sido fantástica comigo. A Liliana começou a suspeitar que alguma coisa se passava comigo, porque me via acordado toda a noite.»

O primeiro sinal de alarme surge com as alterações constantes na disposição. «Sempre fui uma pessoa ativa e alegre. Nunca tinha passado por qualquer problema emocional e mental. Mas percebi que algo em mim tinha mudado», aceita Juan San Martín.

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«O primeiro sintoma foi esse, a mudança repentina de humor. A instabilidade constante. Sou brincalhão, ativo e passei a ter dias em que não me apetecia sair de casa e não queria falar com ninguém», conta o avançado com carreira feita, sobretudo, no Algarve – 83 jogos e 23 golos no Louletano de 2016 a 2019; 25 jogos/7 golos no Olhanense (2020/21); 13/0 no Farense (2013/14) e, finalmente, o Esperança de Lagos.

Os «altos e baixos», a «alegria e a tristeza» entrelaçados, dia após dia, muitas vezes no mesmo dia, às vezes na mesma hora.

«Não é fácil explicar. Nunca pensei que alguma vez fosse passar por isto, aliás nós pensamos que só acontece aos outros. Conheço outros casos parecidos de futebolistas e ainda há poucos meses um amigo meu, o Santiago Garcia, tomou a péssima decisão de acabar com a vida.»

Juan San Martín atreve-se a «dar um conselho». «Falem, abram-se, digam o que sentem e não tenham medo de pedir ajuda. Isto pode atingir qualquer um. Acertou em mim, em cheio.»

A raiz do problema: salários em atraso e uma desilusão desportiva

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A depressão de Juan San Martín terá sido originada por algum motivo exógeno? Ou terá nascido sem razão aparente, germinada pelo misterioso âmago que cada um de nós tem?

O jogador afasta a hipótese da pandemia, do confinamento, do afastamento social. E indica uma hipótese, pelo menos, plausível.

«Creio que tudo começou na fase final da minha época no Olhanense», reflete o futebolista. «Começámos a ter salários em atraso, uma situação que ainda não foi regularizada, e depois tivemos uma grande desilusão desportiva. Um empate no último jogo dava-nos a subida à Liga 3 e perdemos contra o Real Massamá. Foi um golpe tremendo para mim, duríssimo.»

O Olhanense não subiu, não pagou os salários que tinha a obrigação de pagar e Juan San Martín saiu. Recebeu convites de outras paragens, mais aliciantes, mas preferiu permanecer na região algarvia.

«Estava a tirar um curso e optei por ficar no Esperança. Disseram-me bem do clube, que tinha um presidente cumpridor e confirmei tudo isso. Nunca falharam comigo, foram impecáveis e quero enviar um grande abraço ao António José Alves, o nosso líder. Percebeu tudo o que eu estava a passar e deixou-me a porta aberta.»

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Juan suspendeu o futebol, mas deixou a vida sempre ligada. Não se fechou em casa. Com o tempo disponível, uma das terapias escolhidas passou por cumprir um sonho antigo. O uruguaio trabalha agora na cozinha de um restaurante de Loulé.

Tenho o objetivo de abrir um restaurante depois de deixar de jogar. Surgiu-me esta possibilidade e aceitei-a. Estou no Retiro do Camponês, sou o responsável pelo corte e pelo grelhar das carnes. Como bom uruguaio que sou, tenho aqui umas receitas secretas (risos).»

O Mundial de sub17, o Benfica e a «desilusão» com Edgar Davids

Há precisamente uma década, Juan San Martín sagrou-se vice-campeão mundial de sub17, pelo Uruguai. Pérola do Peñarol, o atleta veio para o Benfica envolvido no processo de renovação de Maxi Pereira.

O empresário Paco Casal representava Maxi e, com a renovação, permitiu ao Benfica assegurar o direito de preferência sobre três jovens uruguaios: San Martín, Jim Varela (atualmente no Rentistas, do Uruguai) e Elbio Alvárez, que está sem jogar desde 2019.

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«Tinha expetativas enormes, milhares de sonhos, mas encontrei uma realidade completamente diferente do que esperava. Não pelas condições de trabalho, porque o Benfica dava-nos tudo – eu vinha do grande Peñarol, mas no Benfica era tudo melhor -, mas encontrei alguns contratempos. Percebi que não dependia só de mim para vingar no Benfica. Ficam as boas lembranças e os bons amigos», diz Juan San Martín, «sem mágoas».

«Fui treinado pelo Norton de Matos e pelo Hélder Cristóvão na equipa B, e fiz vários treinos com o Jorge Jesus na equipa principal. Apesar disso, nunca tive oportunidades e fui saindo para empréstimos.»

Na época anterior, Juan San Martín teve ainda «o privilégio» de ser treinado por «uma lenda do futebol mundial». Uma relação que se tornou «uma mistura de sensações».

Quando o Edgar Davids chegou ao Olhanense fiquei entusiasmado, porque ia ser treinado por um monstro do futebol, mas não conhecia o trabalho dele como treinador. Ensinou-me muito dentro do campo, é verdade. Movimentos, pormenores que me podiam dar alguma vantagem, em relação a isso foi ótimo.»

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Apesar desse conhecimento evidente, Davids falhava noutros aspetos, igualmente determinantes. «Sim, falhou muito naquilo que é a comunicação com o grupo e mesmo na gestão do plantel. Não o fez da forma que eu esperava e por isso fiquei desiludido.»

Águas passadas. Juan está concentrado «no aqui e no agora», empenhado em «limpar a cabeça» e «equilibrar as emoções».

O futebol, promete, não é um ponto sinal parágrafo. «Não sei quando, mas quero voltar, sim. Tenho de reconhecer que foi a minha mulher que me devolveu a motivação para me encontrar a mim próprio e depois matar as saudades do futebol. Se não fosse a minha mulher, tudo ia ser mais complicado.»

Atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Juan e Liliana, um casal de campeões.

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