De Dani a Cantona: quando o amor ao futebol morre cedo de mais

6 jan, 09:41

Histórias de dez jogadores que decidiram terminar a carreira numa fase prematura

O futebol é uma história de amor.

É o amor a um clube que liga os adeptos ao jogo.

É o amor que liga as crianças ao futebol. O amor que as faz sonhar e esforçarem-se por vir a ser como os jogadores que idolatram.

Continua a ser o amor que, após tantas desilusões – dos sonhos que não se cumprem, das derrotas, dos ídolos que se vão –, mantém os laços. Inquebráveis durante toda uma vida.

Se é o amor que liga os jogadores aos clubes, a história já é outra. Isso era noutros tempos.

Mas tem de ser ele também ele, o amor, que os faz sacrificarem partes muito importantes da vida pelo rigor e dedicação que o futebol existe.

Porque quando esse amor morre, mesmo que o corpo ainda permita fazer sacrifícios, as coisas já não funcionam da mesma forma.

«Perdi o gosto pelo futebol. Mesmo assim, adpatei-me a ele por um longo período. Mas não quero mais isso».

A forma como Davy Propper, internacional holandês do PSV, anunciou esta semana o adeus ao futebol fez-nos ir atrás de outras histórias de amor que chegaram ao fim precocemente.

Mas Propper foi apenas o mais recente futebolista de sucesso a despedir-se do futebol quando o corpo ainda lhe permitiria prolongar a carreira num nível elevado. Mas há muitos casos na história do jogo. Ao de Propper, juntamos mais nove.

Uma viagem de corações partidos à volta de uma bola de futebol.

Dani

«Talento desperdiçado». Não haverá jogador português cujo nome surja mais vezes associada ao desperdício de talento que Dani. A culpa é de uma qualidade técnica difícil de igualar, que ainda foi exibida ao serviço de Sporting, West Ham, Ajax, Benfica e At. Madrid, além, claro, da seleção portuguesa.

Mas a verdade é que os cerca de 200 jogos que Dani fez como profissional antes de se retirar, em 2003, com apenas 27 anos, sabem a muito pouco. Por muitos vídeos de highlights que ainda se possam encontrar.

Uma época atribulada do At. Madrid, associada ao facto de estar «farto do futebol» e a uma doença grave da mãe precipitaram o fim precoce da carreira de Dani.

Miguel

Formado no Estrela Amadora, Miguel só conheceu mais dois clubes enquanto sénior: Benfica (161 jogos) e Valência (233).

Extremo de origem, foi adaptado por Jesualdo Ferreira a lateral-direito e tornou-se num dos melhores na posição na primeira década dos anos 2000. Foi como lateral que fez quase 60 jogos ao serviço da seleção portuguesa.

Tinha 32 anos quando terminou o contrato com o Valência, em 2012, e não se esperava que a carreira de futebolista tivesse ficado por aí. O que é certo é que não voltou a jogar de forma profissional, apesar de ter demonstrado vontade de regressar aos relvados em 2014, quando integrou os treinos do Sindicato dos Jogadores, afirmando na altura ter propostas de Hong Kong e Tailândia.

Daniel Osvaldo

Formado no Huracán, o avançado argentino levou para a carreira esse furacão que lhe esteve na origem. Jogou nas melhores equipas italianas – Atalanta, Fiorentina, Roma, Juventus, Inter – e ainda mostrou raça em Espanha e Inglaterra, antes de chegar já sem grande força ao FC Porto, em 2015.

Nos dragões deixou um golo em 12 jogos para amostra, regressando após meia época à Argentina e ao Boca Juniors. Mas também foi sol de pouca dura. Seis jogos apenas e o adeus ao futebol, aos 30 anos.

Com quatro golos em 14 internacionalizações pela Argentina, largou a bola para se agarrar à guitarra e à bateria da sua banda de música, na qual era também vocalista.

«Sou um lunático. Tanto me sinto forte, poderoso, come me sinto obrigado a reagir. Tudo em excesso. Fui forçado a crescer, mas há uma parte de mim que rejeita a ideia. Por vezes faço coisas estúpidas, mas quando as faço parecem-me justas», já dizia Osvaldo em 2012.

Ainda tentou um regresso ao futebol, fez dois jogos pelo Banfield em 2020, mas não passou disso. Deu pelo menos para voltar a saborear aquilo que dizia amar.

«Adoro jogar futebol. Já o ambiente que rodeia esse mundo tem muitas coisas que para mim são horríveis. Estar fora deu para recordar quão bom era estar num clube, treinar, levantar cedo, comer bem… Obviamente que nesses aspetos, o futebol e o rock são incompatíveis. Mas estava tão enojado de todo o ambiente que rodeia o futebol que até me tinha esquecido de quão bom é jogar».

André Schurrle

Campeão Mundial. Vencedor da Premier League. Figura de destaque no Bayer Leverkusen, Chelsea, Wolfsburgo, Borussia Dortmund e de repente… o fim. Aos 29 anos, com 22 golos em 57 jogos pela seleção alemã e sem se notar uma fase de redução drástica da sua performance futebolística.

«Não preciso de mais aplausos», resumiu ao justificar a decisão, entrevista ao Der Spiegel.

«A decisão amadureceu com o tempo. Os pontos baixos tornaram-se ainda mais baixos e os pontos altos cada vez menos frequentes. Tens sempre de representar um determinado papel de forma a sobreviver nesta indústria, caso contrário perdes o teu trabalho e nunca arranjarás outro», acrescentou.

Adriano ‘Imperador’

Entre 2003 e 2006 poucos avançados no mundo entusiasmavam mais os adeptos que Adriano, ‘o Imperador’. Os 64 golos marcados em duas épocas e meia ao serviço do Inter Milão ajudavam a explicar, mas era a poderio que parecia impossível de travar que mais impressionava.

Contudo, algures a meio desse período, a forma de ver a vida tinha mudado para Adriano, como o próprio admitiu mais tarde. Em 2004, o pai do ‘Imperador’ morreu devido a um ataque cardíaco. A ‘ficha’ demorou a cair ao jovem, então com 23 anos. Mas caiu com estrondo.

A depressão e o álcool assumiram uma importância demasiado grandes na vida de Adriano. E nem o regresso ao Flamengo do coração conseguiram atenuar a dor que o foi fazendo arrastar a carreira para o final prematuro.

Adriano ainda jogou até aos 32 anos – e aos 34 ainda fez um jogo pelo Miami United -, mas as últimas quatro épocas já não era nem a sombra do Imperador que entrava em campo, nas poucas vezes que isso aconteceu – menos de vinte, em quatro anos.

«O meu amor pelo futebol morre no dia em que o meu pai morreu. Ele amava futebol, por isso, eu amava futebol. Simples assim. Era meu destino. Quando joguei futebol, joguei pela minha família. Quando marquei, marquei para a minha família. Então, quando meu pai morreu, o futebol nunca mais foi o mesmo», assumiu num tocante testemunho à ‘The Players Tribune’.

Hidetoshi Nakata

Onze golos em 77 jogos ao serviço da seleção do Japão bastaram para Nakata se tornar num dos melhores jogadores da história dos nipónicos, tendo sido nomeado três vezes para a Bola de Ouro e quatro para melhor jogador do Mundo da FIFA.

Construiu uma carreira de respeito em Itália, onde foi campeão ao serviço da Roma, depois de se ter destacado no Perugia e antes de brilhar no Parma.

Ainda fez uma época na Premier League, ao serviço do Bolton Wanderers, antes de se despedir com a camisola da seleção, no Mundial de 2006, aos 29 anos.

A razão justificou-a mais tarde: a falta de paixão que sentia nos companheiros.

«Dia após dia, percebia que o futebol se tinha tornado apenas num grande negócio. Dava para sentir que a equipa jogava apenas por dinheiro, não pelo gosto de se divertir. Eu sempre senti que a equipa era como uma grande família, mas já não era assim, o que me deixava triste. Se pensei em voltar atrás? Todos os dias! Aliás, ainda penso nisso, mas era uma decisão definitiva», justificaria em 2014, com 37 anos.

Francesco Coco

Milan, Barcelona, Inter Milão, seleção italiana… e o fim aos 30 anos. O lateral italiano decidiu largar o futebol em 2007, numa fase precoce da carreira para abraçar o seu outro grande amor: o cinema.

«Recebi várias propostas do cinema norte-americano e desejo construir o meu segundo sonho, depois de ter concretizado o primeiro, que foi o futebol», justificou depois de rescindir contrato com o Inter, após duas épocas de empréstimo ao Torino e ao Livorno.

Teve como pontos altos da carreira o título europeu de sub-21 e duas Séries A, ambas ao serviço do Milan.

David Bentley

Formado no Arsenal, foi ao serviço do Blackburn Rovers e do Tottenham que mais se destacou enquanto sénior. O jogador que muitas vezes foi apelidado do ‘novo Beckham’ chegou à seleção principal de Inglaterra, pela qual fez sete jogos, mas nada o impediu de abandonar o futebol aos 29 anos, depois de se ter ‘arrastado’ nos últimos quatro anos da carreira por Tottenham, Birmingham, West Ham, Rostov e Blackburn Rovers, período durante o qual não fez nem 40 jogos.

«Às vezes ia passear o meu cão e só pensava: o futebol não é para mim. Estava desiludido comigo mesmo porque eu devia amar o que fazia. Mas cansei-me de todas as tretas à volta do futebol e da necessidade de te ‘venderes’ como algo que não és», desabafou posteriormente ao Mirror.

Pouco depois de ter deixado o futebol, em 2013, mudou completamente de vida e abriu um restaurante no sul de Espanha.

Eric Cantona

Tão talentoso como controverso, até no momento de se despedir dos relvados, o avançado francês conseguiu deixar o mundo boquiaberto.

Fê-lo com apenas 30 anos, quando continuava no auge da sua forma, dias depois de ter ajudado o Manchester United a conquistar a quarta Premier League em cinco anos, numa época em que marcou 15 golos em 50 jogos.

Ao justificar a decisão, Cantona falou de paixão. E da necessidade de manter a chama acesa para o foco não desligar.

«Para jogar ao mais alto nível, temos de ter cuidado com o que comemos, bebemos, quanto tempo dormimos ou o que pensamos. Para o fazer, precisas de paixão. Se perdes um pouco da paixão, vais perder outras coisas também, o que significa que já não podes jogar ao mais alto nível. A paixão ajuda-te a evoluir, mas quando a perdes, deixas de evoluir», justificaria anos mais tarde.

Deixou os relvados depois de ser cinco vezes campeão em Inglaterra duas em França e com 21 golos ao serviço da seleção francesa pela qual fez 46 jogos.

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