«De uma mansão a sem-abrigo»: pérola de Guardiola já só joga com amigos

25 nov, 09:26
Gai Assulin (AP)
Gai Assulin (AP)

Gai Assulin passou do topo ao fundo do poço em 12 anos. A história do «maior talento alguma vez saído de La Masia», como afirma Thiago Alcântara

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Bramhall-Manchester, 14 quilómetros de distância.

Na pequena vila de 17 mil habitantes, campos verdes a perder de vista e ovelhas bem nutridas, vive Gai Assulin. O anti-herói desta história.

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Ligeiramente a norte, rodeado de fausto e petrodólares em forma de balneário, está o mentor e ídolo de Gai, o senhor Pep Guardiola.

Unidos geograficamente em Inglaterra, a verdade é que o avançado israelita e o treinador catalão nunca estiveram tão afastados. Nada os une, nem o futebol que um dia os juntou em Barcelona.

Enquanto Guardiola é uma das figuras mais respeitadas no mundo do desporto-rei, Assulin divide os dias entre os cuidados com a pequena filha de oito anos, a mulher, as corridas no bosque e os jogos de futsal com os amigos.

Gai Assulin em ação no Barcelona-Cultural Leonesa em 2009 (AP)

É importante acrescentar que Gai Assulin tem 30 anos e estaria, em condições normais, a jogar profissionalmente num clube britânico.

O que falhou na história daquele a quem muitos tiveram a tentação de apelidar de «Messi israelita»?

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Não é fácil dar uma resposta concreta. Nem Assulin, em processo de desapego com a fama e a fortuna, encontra as palavras certas.

«Quando saí do Barcelona e do Manchester City [sim, Gai ainda esteve no gigante inglês] passei por clubes que tinham vestiários complicados. Aí é que percebi o que era o Futebol real. Caí nesse buraco e não voltei a encontrar a luz», afirmou numa entrevista ao site Goal.

Em Bramhall, Stockport, o mais jovem internacional israelita de sempre recusa perder o rumo. Agarra-se à esperança do reencontro com Pep e de uma nova oportunidade num clube de boa dimensão.

«Não desisto.»

«O melhor talento alguma vez saído de La Masia», diz Thiago Alcântara

O ultimo clube oficial no currículo de Gai Assulin é o AC Crema, modesto emblema da Serie D italiana, o quarto escalão transalpino.

O extremo sai do calcio no verão de 2021 e não recebe convites para continuar a jogar. Um cenário completamente antagónico ao vivido em 2009, no Barcelona. Gai era, por esses dias, uma das pérolas mais entusiasmantes ao serviço de Pep Guardiola.

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A 29 de setembro desse ano, o treinador chama-o para um jogo da Liga dos Campeões [Barcelona-Dínamo Kiev, 2-0]. Um mês mais tarde dá-lhe a titularidade na Taça do Rei, com Assulin a formar um trio de ataque ao lado de Bojan Krcic e Pedro Rodriguez [Barcelona-Cultural Leonesa, 2-0].

No final dessa temporada, Assulin torna-se um futebolista livre e o Manchester City oferece-lhe um contrato profissional válido por três anos, mas as oportunidades com Roberto Mancini nunca aparecem.

Claro que gostava de ter ficado no Barcelona, o problema é que o Luis Enrique [treinador da equipa B] não me desejava e não fazia sentido renovar contrato para trabalhar com um treinador que não nos quer.»

Em Manchester, resta a Gai um empréstimo pouco estimulante ao Brighton e voltar, em 2012, a Espanha e a mais empréstimos de sentido discutível: Racing Santander, Hércules, Maiorca e Sabadell, além de uma experiência no Hapoel Telavive sem muito para recordar.

«As pessoas adoram fazer comparações, principalmente no futebol. Para mim é um orgulho ter o meu nome ao lado do de Messi, mas ele é o melhor de sempre. As expetativas acabaram sempre por ser excessivas. Para onde quer que fosse, os responsáveis esperavam que marcasse 50 golos», reflete Gai Assulin, no Guardian.

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Assulin ao lado de Carlos Tévez num treino do Manchester City (AP)

As expetativas assumem a forma de moinhos de vento. Gai de lança em punho, a montar um Rocinante de patas cada vez mais raquíticas, e a lutar contra os próprios fantasmas.

Até Thiago Alcântara ajuda a elevar a fasquia que lhe pende sobre a cabeça, qual espada de Dâmocles. O atual futebolista do Liverpool, outra cria do Barcelona, considera-o o «melhor talento alguma vez saído de La Masia». Gai Assulin encolhe os ombros.

«Tudo o que fiz na minha carreira está ligado ao que aprendi em Barcelona, especialmente com o Pep Guardiola. Ele mostrou-me os movimentos que devia fazer e como me deveria portar taticamente. Aprendi com o melhor treinador de sempre, mas não me sinto o melhor de sempre a sair de La Masia.»

«Vi corrupção, amadorismo e balneários em guerra»

A partir de dada altura, as opções de Gai Assulin revelam-se ser mais uma consequência do que uma escolha. É com surpresa que ruma ao Cazaquistão (Kairat, 2018) e à Roménia (Politechnica Iasi, 2019/20), antes de cair no poço do futebol italiano.

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«Cheguei a um certo momento e não conseguia encontrar clubes. Isso aconteceu a muitos futebolistas, não só a mim. Claro que surgem pensamentos negativos, tenho medo do que pode ou não chegar, do que posso ou não dar à minha família.»

Gai Assulin viu «corrupção, amadorismo e balneários em Guerra» ao longo de uma carreira que já não é assim tão curta. Recusa dar conselhos, mas assume que as experiências na Europa de Leste foram «as piores de todas».

Não é fácil estar assim. Olho para trás e sinto… é como viver numa mansão durante 20 anos e depois passar a ser um sem-abrigo. A minha carreira é um pouco assim e eu não soube como reagir ao estatuto de sem-abrigo no futebol.»

Por agora, Gai Assulin recusa abandoner o sonho do profissionalismo e espera resolver a situação «já em janeiro».

«Jogar futebol é o que mais amo na vida e tudo farei para voltar a ter bons momentos nos relvados. Sei que não tenho equipa agora, mas tento treinar o melhor que posso. Talvez um dia possa também ser treinador, sinto que tenho jeito para a função.»

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Nado e criado em Israel, descoberto pelo Barcelona nos dias em que é um wonderkid, contratado pelo Manchester City e atirado para o esquecimento por culpa própria.

Gai assume que a sua carreira é capaz de dar «um bom filme».

«O meu pai puxou por mim, cresci depressa. Nunca pensei ser possível jogar um dia no Barcelona. Isso ficará para sempre comigo, mesmo que mais ninguém se volte a lembrar de mim.»

Bramhall-Manchester, 14 quilómetros de distância, 20 minutos a andar devagar. Bem falado, é provável que um café com Pep Guardiola possa resolver a vida a Gai Assulin.

VÍDEO: imagens de Gai Assulin no Barcelona

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