Superou paralisia, denunciou suborno e chegou à Serie A aos 30 anos

21 set 2016, 10:31
Fabio Pisacane (Foto Twitter Cagliari Calcio)

A história de Fabio Pisacane, maior que o futebol

Fabio Pisacane chegou à Serie A aos 30 anos, nesta quarta-feira é a vez de visitar com Bruno Alves e a equipa do Cagliari a casa da Juventus, mas é a entrevista que não conseguiu terminar no final da vitória frente ao Atalanta que dá a dimensão da sua história. Por trás daquele momento está a vida de alguém que teve de superar uma doença rara para se tornar jogador de futebol e que, no meio desse caminho, teve um dia a coragem de denunciar uma tentativa de suborno para combinar um jogo.

«Nunca desisti», diz Fabio, já em lágrimas, no final dessa entrevista.

Fabio nasceu a 14 de janeiro de 1986 nos «quartieri spagnoli», de Nápoles, zona histórica e degradada da cidade. Era um miúdo a chegar à formação do Génova, a atingir o primeiro patamar do seu sonho de se tornar jogador de futebol, quando, aos 14 anos, se viu paralisado e confinado a uma cama. Sofria da síndrome de Guillain-Barré, uma doença que ataca o sistema nervoso e se manifesta, entre outros sintomas, por paralisia progressiva.

«Uma manhã levantei-me paralisado da cabeça aos pés. Só percebi a gravidade da situação quando acordei numa cama de hospital», contou agora Pisacane ao site do jornalista italiano Gianluca di Marzio.

O pai, Andrea, conta como a família viveu o drama de Fabio. «Consultámos cinco ou seis especialistas, nenhum sabia dizer o que tinha o miúdo, porque naquela altura o Fabio era ainda um miúdo», diz Andrea, dizendo que quando chegou o diagnóstico chegou também a dúvida sobre o futuro de Fabio: «O médico disse-me que talvez ele não pudesse voltar a jogar, mas naquele momento era a última coisa que me interessava.»

Fabio chegou a entrar em coma, passou três meses hospitalizado. Mas superou a doença, passou por um período de recuperação e conseguiu voltar a jogar futebol. Quatro anos mais tarde chegava à equipa principal do Génova e no fim da época 2004/05 estreou-se na Serie B, um jovem defesa a dar os primeiros passos.

Seguiram-se empréstimos ao Ravenna, Cremonese e Lanciano, depois o Lumezzane, que comprou o seu passe a meias com o Chievo, sempre no terceiro escalão do futebol italiano.

Voltou à Serie B em 2009/2010, jogando por empréstimo no Ancona, que acabaria por abrir falência nessa época. Regressou ao Lumezzane e foi lá que em 2011 a vida o coloca perante novo teste. Pisacane recebe um telefonema de Giorgio Buffone, seu antigo diretor no Ravenna, a propor-lhe 50 mil euros a troco de entregar o jogo entre as duas equipas.

«Foi meu diretor no Ravenna. Quatro ou cinco anos depois reencontrei-o como adversário, jogava no Lumezzane. Telefonou-me a 14 de abril, a três dias do jogo com o Ravenna. Ligou-me, eu nunca tinha falado com ele ao telefone, e propôs-me 50 mil euros para combinar o jogo», contou Fabio em 2014 numa reportagem da RAI feita precisamente no bairro onde nasceu.

Nessa reportagem, Fabio olha em volta e observa: «A qualquer um de nós aqui dariam jeito os 50 mil euros.» Depois continua: «As pessoas pensam que se és dos bairros vais de certeza cair em tentação, deixares-te corromper. Mas aqui pouca gente se vende.».

Os tempos que se seguiram à denúncia não foram fáceis, contou Fabio numa entrevista à FIFA, em 2012. «O Ravenna e em particular Buffone tentaram defender-se negando tudo e desacreditando-me. Naquela altura não havia provas, era a palavra de um jovem jogador contra a de um diretor com 20 anos de experiência», recorda, contando como temeu que a «verdade nunca se soubesse» e como respirou de alívio quando, em junho, se soube que as autoridades italianas tinham avançado com a investigação e detido várias pessoas por combinação de resultados.

Buffone seria condenado e suspenso na sequência desse caso, uma das ramificações da mega-investigação de 2011 ao futebol italiano que ficou conhecida como «Calcioscommesse». Fabio e Simone Farina, jogador do Gubbio que denunciou igualmente uma tentativa de suborno, foi condecorado por Joseph Blatter e nomeado embaixador da FIFA para o jogo limpo. Em 2012 mereceu ainda o reconhecimento da Federação italiana com uma chamada à concentração da seleção em Coverciano, era Cesare Prandelli o selecionador.

Fabio continuava a perseguir o sonho de chegar à Serie A, que tinha assumido na entrevista à FIFA em 2012: «O meu sonho é o mesmo de criança: jogar na Serie A. Sei que não é fácil, mas ainda sou jovem. Vou continuar a trabalhar para isso até pendurar as botas. Ter um sonho ajuda-nos a melhorar.»

E continuou a tentar. Em 2011/12 rumou ao Ternana, que ajudou a subir à Serie B. Seguiram-se duas temporadas no Avellino, na Serie B, onde trabalhou com o treinador Massimo Rastelli.

Quando o técnico saiu para o Cagliari, levou Fabio consigo. E ao fim de uma época conseguiram subir à Serie A. Fabio estava finalmente no último patamar da escada.

Se bem que essa temporada 2015/16 não tenha terminado de forma tranquila. Em maio de 2016, novo escândalo de resultados combinados com origem num ramo da mafia napolitana conhecido como «Vannella Grassi» leva a dez detenções, sendo um dos envolvidos Armando Izzo, do Genova, que estava pré-convocado para o Euro 2016. O nome de Pisacane foi arrastado para o caso por um dos corruptores, Antonio Accurso, que se tornou colaborador da investigação e diz que chegou a reunir-se com Fabio em 2013/14, quando ele jogava no Avellino. Pisacane foi ouvido pelas autoridades e negou qualquer envolvimento no caso.

Seguiu-se o defeso, a preparação da época na Serie A e, à quarta jornada, a estreia na equipa onde está esta época o português Bruno Alves. Fabio entrou em campo aos 79 minutos, quando o Cagliari já vencia por 3-0. No fim, não resistiu à emoção.

A sua história correu mundo. Felicitações de todos os lados, mensagens mais ou menos anónimas. Como a do lateral Criscito, do Zenit.

Entre os que o conhecem bem está o treinador Massimo Rastelli. Que nesta terça-feira, na antevisão do jogo com a Juventus, definiu assim Fabio Pisacane: «Ganhou esta estreia com o seu trabalho, o seu sacrifício, a sua seriedade. Foi o único jogador que trouxe do Avellino porque conhecia o valor do homem para lá do atleta. Seguiu um percurso similar ao meu, também me estreei na Serie A quase aos 30 anos, mas seguramente mais difícil. Um rapaz de valor excecional.»

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