O miúdo que tinha menos dois anos do que dizia e se tornou estrela do Benfica

11 nov, 11:27
Factory of dreams: Benfica

A Prime Videos estreia esta sexta-feira «Factory of dreams: Benfica», um documentário em quatro episódios que viaja aos segredos do Benfica Campus. O Maisfutebol já viu o primeiro capítulo, que conta a história de como António Silva ultrapassou o que ele diz que nenhum outro jogador foi obrigado a viver, para chegar onde está hoje: na Seleção que vai ao Mundial. Ele que aos 13 anos tinha 11 de idade biológica...

Quem olha para António Silva a apontar o dedo indicador na direção do nariz de Bonucci nem imagina: não imagina por exemplo o que o miúdo teve de crescer para chegar ali.

Agora levanta o dedo na cara do veterano italiano, é verdade, mas antes disso sofreu, chorou, quis voltar para Penalva do Castelo e encheu-se de coragem para ir novamente à luta. Por isso tornou-se um exemplo para a formação de jovens jogadores no Seixal.

«António Silva é uma história de resiliência. Não me esqueço que em 2017 jogávamos o último jogo do campeonato nacional de iniciados em Alcochete. O Sporting venceu esse campeonato. O António Silva, tal como o Pedro Santos, não jogava nessa equipa, mas o ano passado os dois venceram a Youth League», recorda o diretor do Seixal, Pedro Mil-Homens.

«Porquê? Por mérito deles, por resiliência deles, claro que sim, mas também porque a política de formação do Benfica dá espaço a este tipo de jogadores.»

E que tipo de jogador é afinal António Silva?

É isso que o Factory of dreams: Benfica revela. Trata-se de um documentário em quatro episódios, produzido pela britânica Neo Studios para a Prime Video e que esta sexta-feira, dia 11 de novembro, estreia no canal por subscrição da Amazon.

 

O documentário da Prime Video acompanhou durante um ano o trabalho de formação no Seixal e oferece agora uma viagem inédita aos bastidores do Benfica Campus. António Silva, refira-se, é uma das estrelas: a história dele é seguida de perto e até os pais entram na produção.

Esta quinta-feira, dia em que o central se estreou numa convocatória da Seleção Nacional, e logo para ser chamado ao Mundial 2022, o documentário foi apresentado no Seixal. O Maisfutebol acompanhou a apresentação do primeiro episódio e ouviu António Silva no fim.

«Se não fui o atleta que enfrentou mais dificuldades para conseguir ficar aqui no Seixal, fui de certeza dos que enfrentou mais... Toda a gente sabe que foi muito difícil para mim. Sentia muito a falta da família, não só no Campus, também na escola. Isso trazia-me um problema de sono, dormia muito pouco, o que se refletia no campo: estava sempre muito cansado», conta.

«Foi aí que decidimos falar com o Benfica e voltar para casa, para junto dos meus pais. Regressar à minha terra também foi difícil, as pessoas perguntavam porque não tinha ficado, se não tinha tido sucesso, mas eu naquela altura não queria saber. Não me importava com isso. Só queria limpar a cabeça e mentalizar-me para voltar no ano a seguir mais forte.»

«António Silva mostrou que o Bilhete de Identidade não é o mais importante»

António Silva tinha nessa altura 11 anos. No ano seguinte, quando voltou ao Seixal, tinha 12, quase a fazer 13 anos. E mesmo assim não foi logo que teve sucesso. Bem pelo contrário.

«Quando cheguei ao Seixal, em 2017, o António Silva era sub-15 e eu não o conhecia, nunca tinha ouvido falar dele», explica Pedro Mil-Homens, antes de se dirigir ao próprio jogador: «E sabes porque é que não te conhecia?»

«Porque eu não jogava», respondeu António Silva.

«O António Silva foi um daqueles jogadores que teve uma maturacidade muito tardia. Ele aos 13 anos, por exemplo, tinha provavelmente 11 anos de idade biológica. Toda a gente que tem filhos ou que lida com jovens sabe que isto pode acontecer. Há ritmos de maturação completamente diferentes. Portanto é muito relevante saber que aquele miúdo tem 13 anos, mas a idade biológica dele é de 11 anos. E está a jogar com miúdos que têm 13 anos, mas com uma idade biológica de 15, porque cresceram mais rapidamente», adianta Pedro Mil-Homens.

«Mas os Antónios Silva têm sempre lugar no Benfica. É isso que este documentário mostra. Os jogadores com maturacidade retardada merecem paciência. É preciso ter olho clínico para perceber que aquela criança não está a render porque ainda não maturou e ter paciência, dar espaço aos jogadores para se potenciarem. Não é importante ganhar o campeonato de iniciados, não é importante ganhar o campeonato de infantis. Muitas vezes os jogadores que ganham campeonatos nessa idade desaparecem uns anos depois. O António Silva mostrou agora, depois de chegado a adulto, que o bilhete de identidade não é a coisa mais importante.»

Ora para quem aos 18 anos vai ao Mundial, o salto foi seguramente admirável. Até porque aos 15 anos tinha uma idade biológica inferior e agora apresenta uma maturidade surpreendente.

Basta recordar aquele dedo apontado ao nariz de Bonucci.

«O que mais me marcou ao longo deste trajeto foi ter conseguido ir ultrapassando os vários patamares. Porque passei por momentos muito difíceis. Olhando para trás, para aquilo que estou a conquistar e que é curto para o que eu ambiciono, o apoio dos meus pais foi fundamental», sublinha.

«Os rapazes dão o salto pubertário, em média, aos 12 anos. Mas um miúdo de 12 anos pode ter nove biologicamente. Portanto é preciso deixar passar esse patamar. A idade dos iniciados é uma idade falsa, mas é muito importante para avaliar o potencial. Isto é difícil, mas é muito importante avaliar o potencial, mais do que o rendimento», adianta Pedro Mil-Homens.

«Muitos jovens deixam-se cansar quando a novidade de estar no Benfica passa»

O diretor do Benfica Campus diz que é preciso saber esperar e é precisamente isso que o primeiro episódio do documentário mostra.

Entre outras coisas, por exemplo, garante que ninguém é dispensado após o primeiro ano no Seixal e que a prioridade passa por manter os jovens junto dos pais. Nesse sentido é destacada a importância dos Centros de Formação e Treino, que existem em vários pontos do país, orientados por treinadores formados pelo Benfica e que trabalham de acordo com a metodologia do clube. O objetivo é ter acesso e introduzir os melhores miúdos de cada distrito no Benfica.

«Eu joguei com jovens que jogavam muito melhor do que eu. Mas nem todos os jogadores da bola são jogadores de futebol», garante Rui Costa num dado momento do primeiro episódio, lembrando que é preciso querer ser profissional e trabalhar para isso.

Ruben Dias concorda com ele.

«Enquanto eu crescia no Benfica, o meu irmão fazia a formação noutros clubes de um nível inferior. Por isso eu sabia todos os dias a sorte que tinha em estar aqui. Muitos jovens deixam-se cansar quando a novidade de estar no Benfica passa, mas eu sempre fui muito focado.»

Ora são estes pequenos detalhes que o Factory of dreams: Benfica revelam, num documentário com muitas imagens da intimidade do Benfica Campus, mas sobretudo muitos depoimentos.

Nomes como Rui Costa, Ruben Dias, João Félix, João Cancelo, Ederson, António Silva e Henrique Araújo revelam o que é para eles o Seixal. Já os diretores Pedro Mil-Homens, Bruno Maruta, Rodrigo Magalhães e Pedro Marques dão o enquadramento geral do processo de formação. Depois, claro, há pais, professores, psicólogas, enfim.

«O nosso objetivo está muito focado nas histórias locais com forte ligação ao público, e Factory of Dreams: Benfica é o primeiro documentário desportivo exclusivo em Portugal, tornando-o num lançamento muito especial para nós», referiu Alex Green, da Prime Video Europe.

«Após o sucesso de Academy Dreams: Leeds United, estamos muito orgulhosos por explorar o que faz com que o Benfica Campus seja tão único. Sabemos que os espectadores vão gostar do acesso exclusivo do documentário, que vai mostrar a forma e o porquê de jovens jogadores chegarem à elite do futebol europeu, e o talento, dedicação e perseverança que são precisos», acrescenta Anouk Mertens, CEO da Neo Studios.

A série, como já se disse, divide-se em quatro episódios, que começam com a Iniciação no Campus, no segundo episódio foca-se os Métodos de treino, o terceiro aborda o trabalho de Scouting e o quarto fecha com a Youth League.

Sim, que o documentário foi, por um acaso do destino, feito numa temporada especial: o ano em que o Benfica venceu a Youth League.

É verdade que, a avaliar pela primeira amostra, tem algumas falhas - é por exemplo difícil de compreender como surgem imagens desta época da equipa principal e as declarações de António Silva são anteriores à subida ao plantel de Roger Schmidt -, mas o essencial acaba por ser alcançado: a promoção de alguns segredos numa fase de grande fulgor do Seixal.

Ou alguém prefere ignorar tudo o que António Silva passou para chegar à Seleção?

 

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