Fizeram história nesta Liga dos Campeões, mas não sabem se têm equipa para o próximo jogo

10 mar 2023, 09:14
Violette-Austin FC (Foto Instagram Violette CA)

O Violette AC saiu do Haiti, um país em crise profunda, não jogava há 10 meses, e venceu uma equipa da MLS por 3-0 na Champions League da Concacaf. O problema agora é entrar nos Estados Unidos para jogar a segunda mão.

Esta é outra Liga dos Campeões. E começou com uma surpresa. O Violette AC, que jogava o seu primeiro jogo oficial em dez meses, venceu os norte-americanos do Austin FC por 3-0. Foi a primeira vitória de sempre de um clube do Haiti na Champions League da Concacaf desde que a competição assumiu essa designação, em 2008. Mas agora, eles não sabem se têm equipa para ir ao Texas disputar a segunda mão.

Com o futebol paralisado no Haiti, o Violette teve de jogar a primeira mão em casa emprestada, na República Dominicana. Jogou no Estádio do Cibao FC, em Santiago dos Caballeros, num cenário que dá uma ideia do ambiente que rodeia esta Liga dos Campeões da América do Norte, Central e Caraíbas – o nome é mesmo a única semelhança com a Liga dos Campeões europeia. Numa das bancadas do Estádio do Cibao FC, os adeptos são acolhidos pela sombra de uma árvore gigante.

A primeira ronda desta Champions, que ainda não terminou, teve mais peculiaridades. Os hondurenhos do Olímpia, por exemplo, surpreenderam os mexicanos do Atlas com uma vitória por 4-1. E no encontro entre os salvadorenhos do Alianza e os norte-americanos do Philadelphia Union, um cão roubou o show e a bola em pleno relvado.

Mas a maior proeza foi do Violette AC. Conseguida no mesmo estádio onde em maio de 2022 o clube haitiano conquistou o troféu que lhe valeu o lugar nesta Champions, quando venceu o Campeonato Caribenho de Clubes. Bateu na final o anfitrião Cibao FC no desempate por grandes penalidades. Desde então não voltou a ter competição formal, porque o campeonato do Haiti está parado, no meio da convulsão em que vive o país.

O futebol paralisado no país que vive um Inferno

O Haiti, que sofreu várias catástrofes naturais nos últimos anos, a maior dos quais o devastador terramoto de 2010 que terá vitimado mais de 300 mil pessoas, atravessa uma profunda crise política, económica e de segurança. O presidente Jovenel Moise foi assassinado em 2021 e mantém-se um impasse político, enquanto cresce a violência de gangues, com homicídios, raptos e bloqueio de infraestruturas cruciais como o porto da capital, Port-au-Prince. Há uma situação de emergência humanitária, com boa parte da população a viver na miséria, e doença, como o aumento dos casos de cólera. A ONU define a realidade do país como «infernal». Esta semana, a ONG Médicos Sem Fronteiras decidiu encerrar temporariamente o seu hospital na capital, por questões de segurança.

No futebol, os reflexos são profundos, com a paralisação do campeonato como a face mais visível. O jovem avançado Watz Leazard, um dos poucos jogadores que conseguiram sair do país e joga no Tulsa, nos Estados Unidos, descreveu assim a situação à Radio Canada: «O campeonato está parado, há muitos problemas. As equipas não podem deslocar-se de norte para sul e vice-versa. Os jogadores não estão a fazer nada e há jogadores que só podem jogar futebol. É a única coisa que lhes dá dinheiro para viver.»

Desde 2019, o campeonato haitiano jogou-se de forma intermitente, entre a falta de segurança, a pandemia e problemas também na Federação de futebol, cujo presidente foi banido pela FIFA após acusações de agressão sexual. O Violette Athletic Club foi o campeão do torneio de abertura que se concluiu no início de 2021, a última competição que o país conseguiu organizar.

«No Haiti é uma proeza manter uma equipa viva»

É um dos clubes historicamente mais bem sucedidos do Haiti e até já venceu a principal competição da Concacaf: em 1984, quando ainda se chamava Champions Cup, foi declarado vencedor depois de a final ter sido cancelada, por os dois outros semifinalistas não terem chegado a acordo para as datas em que deviam defrontar-se.

O estádio do Violette ficou inutilizado no terramoto de 2010, mas o clube conseguiu ir mantendo alguma estrutura. Não é fácil, como nota um antigo jogador e treinador do Violette, Ralph Kernizan, em declarações à rádio norte-americana Kut 90.5: «No Haiti é uma proeza manter uma equipa viva, mesmo quando não está em competição de maio até agora. Imaginem as implicações financeiras, manter a equipa técnica e os problemas que os jogadores enfrentam com a insegurança crescente.»

Apesar de tudo o Violette conseguiu chegar à Liga dos Campeões, que se joga agora em formato de eliminatórias, com apenas 16 equipas. É a última época neste formato, uma vez que a competição vai ser expandida a partir de 2024.

O estreante americano

Por causa da situação no Haiti, o jogo do Violette como anfitrião foi marcado para campo neutro. A equipa viajou mais cedo para a República Dominicana e preparou-se com vários encontros particulares.

Pela frente teria uma equipa da MLS. Teoricamente bem mais forte, com um orçamento incomparavelmente superior, mas também sem muita experiência. O Austin FC, a primeira equipa texana da MLS, só começou a competir no campeonato norte-americano em 2021. Logo na época seguinte conseguiu chegar à final da Conferência Oeste, quando perdeu para o futuro campeão Los Angeles FC. Isso valeu-lhe uma presença inédita na Liga dos Campeões da Concacaf e esta também foi portanto a sua estreia internacional.

O adversário era largamente desconhecido, admitiram os responsáveis do Austin. «É muito difícil conseguir informação do Haiti. Temos de ir para lá com a ideia de que vai haver muita coisa desconhecida», disse Brad Stuver, o treinador de guarda-redes, à Kut.

E o Violette surpreendeu mesmo o rival. Em campo, o avançado Miche-Naider Chéry fez de herói e marcou dois golos ainda na primeira parte. Um incrível autogolo do egípcio Amro Tarek selou o resultado final e abriu caminho à festa do Violette.

O treinador do Austin, o antigo internacional americano Josh Wolff, admitiu que a equipa não estava preparada. «Assumo a responsabilidade por não ter a equipa mentalmente no lugar certo. A Concacaf é um animal diferente. Falámos sobre isso, tentámos enfatizar isso», afirmou, antecipando que a equipa vai precisar dessa noção na segunda mão: «Temos de criar mais tensão nas mentes deles para perceberem o que vai ser este jogo.»

Apenas 12 jogadores com visto para entrar nos Estados Unidos

Mas a segunda mão, que está marcada para 14 de março, está rodeada de incerteza. Porque muitos dos jogadores do Violette não conseguiram ainda visto para entrar nos Estados Unidos. É preciso superar as formalidades impostas pelos norte-americanos e isso não está garantido para toda a comitiva. «Eles mal deram 14 vistos para uma delegação de 30 pessoas. É muito frustrante, como é que eles vão jogar a competição?», disse à Radio Canadá o selecionador haitiano de sub-20, Angelo Jean-Baptiste. Agora, o diretor-desportivo do clube, Webins Princimé, terá dito que são apenas 12, de acordo com o site Goals9, acrescentando que o clube «começou a tratar do processo dos vistos em outubro de 2022».

O problema dos vistos já levou, na época passada, à desistência de outro clube haitiano. O Cavaly estava qualificado para a Liga dos Campeões de 2022, mas não conseguiu resolver a questão dos vistos e acabou por se retirar da competição, o que valeu o apuramento automático do seu adversário, o New England Revolution, para os quartos de final. O clube haitiano foi ainda alvo de um processo pela Concacaf, que resultou numa multa e no impedimento de participar em competições continentais durante dois anos.

A questão não afeta apenas jogadores do Haiti e coloca problemas regulares a futebolistas caribenhos e da América Central. O jornal inglês Morning Star dava conta disso na época passada, relatando como vários futebolistas do clube costarriquenho Santos de Guapiles tinham falhado o encontro da Champions com o New York City FC.

 

 

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