O que é que Carlo Ancelotti tem de especial?

31 mai, 09:08
Carlo Ancelotti festeja conquista da sua quarta Champions, a segunda pelo Real Madrid

Na ressaca de mais uma conquista da Champions, o Maisfutebol falou com Gennaro Gattuso, Hilário e Villiam Vechi para perceber o fenómeno Ancelotti. No fundo todos dizem o mesmo: nasceu para ser um treinador de elite e tem um dom para lidar com jogadores de topo. «Pode parecer simples, mas a simplicidade no futebol de hoje em dia é uma coisa muito complicada.»

Quando se pensa nos melhores treinadores do mundo, Carlo Ancelotti nunca é o nome mais óbvio. Geralmente pensa-se em Guardiola ou Jurgen Klopp, em Mourinho ou António Conte, em Thomas Tuchel ou Nagelsmann.

Enquanto isso, Ancelotti vai continuando a ganhar.

O italiano tem um currículo que fala por ele, aliás. É o único treinador na história a ganhar quatro Liga dos Campeões, por exemplo. Também é o único que já foi campeão nas Big 5 – Itália, Inglaterra, Espanha, Alemanha e França – e já soma 22 troféus na carreira de treinador, mais do que Tuchel e Klopp juntos, e quase tantos quanto José Mourinho.

Quase sem se dar por ele, sem fazer declarações mediáticas e sem ser capa de videojogos, Ancelotti vai mostrando que também é especial, à sua maneira. Por isso, e na ressaca de mais uma conquista da Liga dos Campeões, o Maisfutebol foi tentar perceber o que é torna o italiano notável.

«Não acho que Ancelotti seja mais treinador do que muitos outros que conheço. Na minha opinião, a principal característica dele é aquilo que ele cria. A energia, a honestidade e a confiança que ele transmite são fundamentais em todas as suas conquistas», diz Hilário.

O guarda-redes português trabalhou com o italiano no Chelsea e garante que ele tem aquilo que falta a muitos homens no banco: saber ser um treinador de elite.

«Nem sempre é fácil ser treinador de elite, especialmente num mundo em que a competição é grande e, acima de tudo, quando se tem que lidar com egos elevados.  O Carlo tem qualidades humanas que são raras em treinadores de elite, ou ate poderei mesmo dizer, raras no mundo do futebol.  Essas características marcam qualquer pessoa que trabalhe com ele.»

Gennaro Gattuso foi orientado durante oito anos consecutivos por Ancelotti no Milan e insiste precisamente nesta ideia: é muito difícil ser simples.

«Tem uma mentalidade incrível no balneário. É muito humano e nas relações pessoais é top. Tem sempre a palavra certa para dizer, especialmente para os jogadores que já foram mais vezes campeões. Pode parecer fácil, mas isto é uma coisa complicada. A simplicidade no futebol de hoje não é fácil», garante em conversa com o Maisfutebol.

O antigo internacional italiano, que entretanto também seguiu uma carreira de treinador, dá até um exemplo daquilo em que considera que Ancelotti consegue fazer a diferença.

«Se há um dia em que não estás no teu melhor no treino, em que não correste tanto como devias, não há problema. Ele vem, fala contigo e pergunta o que é que se passa, em que é que pode ajudar. Eu tenho uma personalidade completamente diferente, quero que os meus jogadores deem sempre tudo, todos os treinos, e se não dão fico furioso. Ele é diferente e é por isso que é especial.»

Carlo Ancelotti contou até, há tempos, um episódio que diz que marcou a sua vida. No segundo ano da carreira foi treinar o Parma, que estava a negociar a contratação de Roberto Baggio. O treinador tinha nessa altura uma ideia tática que não incluía números 10. Por isso foi falar com Baggio: ou ele jogava a ponta de lança ou assinava por outro clube.

Baggio assinou por outro clube.

«Nessa época ele marcou 25 golos... pelo Bolonha! Perdi no mínimo 25 golos.»

Diz que lhe serviu de lição: nunca mais pensou que uma ideia ou um sistema tático era mais importante do que um jogador. É essa capacidade de colocar o ser humano acima de tudo que ajuda a perceber o sucesso dele. Garantia de Villiam Vechi, que o acompanhou Ancelotti durante 16 anos, em vários clubes por Itália, Espanha e Alemanha.

«A grande mudança na carreira de Ancelotti foi após conquistar a Liga dos Campeões de 2003, com o Milan. Essa vitória deu-lhe mais segurança para amadurecer as ideias. Mas bons treinadores há muitos. O homem Carlo Ancelotti é que é especial. É um líder nato. Não precisa de gritar, consegue uma empatia natural com todas as pessoas», revela.

«É por causa dessa capacidade de se manter sempre ponderado com toda a gente, que ele consegue tirar o melhor rendimento dos jogadores.»

No fundo, e como o próprio Carlo Ancelotti escreveu no título de autobiografia que lançou em 2009, é um fora-de-série normal.

OPINIÕES DE QUEM TRABALHOU COM ANCELOTTI

Gennaro Gattuso, antigo jogador de Carlo Ancelotti no Milan:
«É um treinador muito especial. Tem uma mentalidade incrível no balneário. É muito humano e nas relações pessoais é top. Tem sempre a palavra certa para dizer, especialmente para os jogadores que já foram mais vezes campeões. Pode parecer fácil, mas isto é uma coisa complicada. A simplicidade no futebol de hoje não é fácil. O jogador tem uma mentalidade totalmente diferente em relação ao que era há vinte anos. Mas ele não mudou nada e isso é fundamental. Ele ganhou muito nos últimos quinze anos, mas não mudou nada. Os próprios jogadores conforme vão ganhando, vão mudando, mas ele consegue ter a mesma relação com eles. No trabalho do dia a dia, por exemplo, é incrível. Se há um dia em que não estás no teu melhor, em que não correste tanto como devias, não há problema. Ele vem, fala contigo e pergunta o que é que se passa, em que é que pode ajudar. Eu tenho uma personalidade completamente diferente, quero que os meus jogadores deem sempre tudo, todos os treinos, e se não dão fico furioso. Ele é diferente e é por isso que é especial.»

Hilário, antigo guarda-redes português, que trabalhou com Ancelotti no Chelsea:

«A minha opinião sobre Carlo Ancelotti é muito positiva. Tive o prazer de trabalhar com ele e desde cedo percebi a sua qualidade, conhecimento e paixão pelo jogo. Desde muito cedo também percebi que era muito calmo, pacato e de fácil trato. Nem sempre é fácil ser treinador de elite, especialmente num mundo em que a competição é grande e, acima de tudo, quando se tem que lidar com egos elevados.  O Carlo tem qualidades humanas que são raras em treinadores de elite, ou ate poderei mesmo dizer, raras no mundo do futebol.  Essas características marcam qualquer pessoa que trabalhe com ele.  Não acho que o Ancelotti seja mais treinador do que muitos outros que conheço.  Na minha opinião, a principal característica dele é aquilo que ele cria. A sua energia, a sua honestidade e a confiança que ele transmite são e foram fundamentais em todas as suas conquistas. Por outro lado, também faz com que os jogadores acreditem no seu empenho e nas suas promessas.»

Villiam Vecchi, treinador de guarda-redes que acompanhou Ancelotti durante 16 anos:

«Além de ser um grande treinador, é uma pessoa muito equilibrada. Como treinador melhorou muito durante o tempo, porque começou muito cedo, mas acho que a grande mudança foi após conquistar a Liga dos Campeões de 2003, com o Milan. Essa vitória deu-lhe mais segurança para amadurecer as ideias. Mas bons treinadores há muitos. O homem Carlo Ancelotti é que é especial. É um líder nato. Não precisa de gritar, consegue uma empatia natural com todas as pessoas. Quando digo todas as pessoas não me refiro só aos jogadores, mas ao ambiente externo, com os jornalistas, com os adeptos, com toda a gente. Dou-te um exemplo, nas entrevistas após o jogo toda a gente é muito razoável a falar quando ganha, mas ficam agressivos quando perdem, à procura de desculpas. O Ancelotti é muito equilibrado quando ganha e quando perde. É por causa dessa capacidade de se manter sempre ponderado com toda a gente, que ele consegue tirar o melhor rendimento dos jogadores.»

 

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