O campeão russo que acabou em coma (por entre mentiras e conspirações)

4 nov, 09:25
Anatoly Karpov

A história de Anatoly Karpov, que com o eterno rival Garry Kasparov dividiu o título de campeão do mundo durante vinte e cinco longos anos

Para quem nasceu antes da queda do Muro de Berlim, o nome de Anatoly Karpov faz parte das memórias mais carinhosas: ele acompanhava-nos ao longo dos anos enquanto íamos crescendo.

Mas não o fazia sozinho. Estava com Garry Kasparov, o eterno rival com quem dividiu o título de campeão do mundo durante vinte e cinco longos anos.

Na década de oitenta, aliás, o mundo dividia-se em dois. Rússia e Estados Unidos. Alain Prost e Ayrton Senna. Michael Jordan e Magic Johnson. Steffi Graf e Martina Navratilova. Mike Tyson e Evander Holyfield. Manuel Bento e Vítor Damas.

No xadrez, não havia mais ninguém. Apenas Anatoly Karpov, um soviético nascido no lado russo dos montes Urais, que nos anos 70 colocou um ponto final no reinado do génio americano Bobby Fischer, e Garry Kasparov, um soviético nascido no Cazaquistão, que com a queda do bloco optou pela nacionalidade russa e que aos 22 anos roubou o título mundial a Karpov.

A partir daí iniciou-se uma rivalidade difícil de igualar no desporto mundial.

A hostilidade entre os dois génios soviéticos não terminou com a reforma de ambos, de resto. Mesmo agora, os xadrezistas colocam-se em lados antagónicos da vida.

Kasparov é um forte opositor de Vladimir Putin, por isso já foi detido e teve de fugir para o exílio. Já Karpov é deputado desde 2005, eleito pelo partido Rússia Unida, que foi fundado por Vladimir Putin. Já vai no terceiro mandato no parlamento russo, aliás.

Os dois costumam estar em lados opostos, exprimem opiniões contraditórias e ninguém estranha. O mundo sempre viveu bem com isso, aliás. Até que na última semana se soube que Karpov tinha sido hospitalizado e estava em coma induzido num hospital de Moscovo. A partir daí parecíamos de volta aos anos oitenta, numa teia de mentiras e conspirações.

Mas já lá vamos.

Antes de mais é preciso dizer que a primeira informação foi avançada por Andréi Kovaliov, presidente da associação de empresários russos, que dava conta da hospitalização do mítico campeão mundial após ter sido atacado na rua por desconhecidos.

O que lançou de imediato um alerta mundial.

Karpov, de 71 anos, tinha saído a público para criticar a invasão da Ucrânia pela Rússia, o que colocou o regime de Putin no caminho do que acontecera ao Grande Mestre do xadrez.

Tudo começou quando uma revista francesa anunciou que Karpov tinha votado a favor da invasão da Ucrânia. O que revoltou o antigo campeão mundial, atual deputado russo.

Por isso enviou uma carta para o chefe de redação da revista, a esclarecer a sua posição. Uma carta aberta, que acabou por ser publicada e não deixou margem para dúvidas.

«Eu não votei a favor da guerra, como vocês alegam. É UMA MENTIRA», escreveu.

«Declarar que Karpov é um inimigo da Ucrânia e do povo ucraniano é ignorar totalmente a realidade. Eu recebi as mais altas condecorações da Ucrânia, atribuídas por vários presidentes, e sempre colaborei com os ucranianos. Durante 40 anos, presidi ao Fundo para a Paz, que desde 1986 ajuda as vítimas de Chernobyl.»

Karpov deixou então bem claro que era contra a invasão da Ucrânia e explicou que a única coisa que tinha apoiado foi a anexação dos territórios do Donbas. Por uma razão simples.

«Quando o Parlamento Russo ratificou os acordos de amizade, cooperação e ajuda mútua entre a Rússia e as Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk, votei, sim, a favor dos cidadãos civis de nacionalidade ucraniana que há oito anos sofrem ataques e bombardeamentos diários. Mais de treze mil civis foram mortos nos últimos anos, apesar de não terem culpa. Entre eles há crianças, homens e mulheres, avôs e avós. Até o momento, a Rússia recebeu mais de 150 mil refugiados do Donbas. Foi a favor deles que eu votei.»

Ora por isso, houve de imediato quem estabelecesse um paralelo entre esta posição pública de Karpov e o que tinha acontecido ao eterno rival: Garry Kasparov, recorde-se, foi detido duas vezes, passou mais de dez dias preso e foi obrigado a fugir da Rússia para estar em segurança.

A notícia avançada por Andréi Kovaliov, de que Karpov tinha sido hospitalizado, o que veio a confirmar-se ser verdade, e que tinha sido agredido na rua por desconhecidos, colocou a Rússia em alerta e deu início a uma novela de contornos nebulosos.

Antes de mais, foi o próprio Kavaliov a rapidamente corrigir a informação, garantindo agora que o xadrezista tinha caído junto ao Parlamento porque estava embriagado.

Pouco depois o jornal Izvestia adiantava que o grande mestre de xadrez tinha uma taxa de 2,76 gramas de álcool por litro de sangue e que sofrera uma lesão na cabeça com edema cerebral, uma fratura do fémur e vários hematomas na cabeça, pelo que estava em coma.

Também os serviços de emergência médica garantiram a outros jornais que Karpov estava embriagado, o que fez que vários xadrezistas saíssem a público a garantir que o antigo campeão mundial não gostava de álcool.

Mais tarde, a filha veio garantir que o pai tinha tido um acidente doméstico em casa e tinha sido transportado para o departamento de neuroreabilitação do Instituto Clínico Sklifosovski, um dos hospitais mais avançados e conceituados de Moscovo.

Sofia Karpov acrescentou que o pai tinha sofrido uma lesão crânio-encefálica e que estava em coma, sim, mas induzido.

As versões contraditórias não ficaram por aqui, no entanto.

Uma fonte do partido Rússia Unida começou por dizer ao canal RTVI que Karpov tinha sido vítima de um ataque na rua, para depois, a meio tarde, lançar uma nova versão em que falava de um acidente doméstico em casa.

A esposa, por fim, veio também sublinhar que o marido não tinha sido atacado por estranhos, tendo, sim, escorregado e caído quando os dois se deslocavam para tomar café.

O que significa mais uma versão, numa história que se torna estranha de tão discordante.

Certo é que Karpov já está melhor nesta altura. Saiu do coma, fosse ele induzido ou não, e já está consciente. Palavra da esposa Natalia Bulanova.

«Ele está consciente, não sente dores e quer ir para casa. Está chateado porque não o deixam sair. Mas os médicos dizem que ainda é muito cedo para isso, precisa de ficar sob observação. Ele provavelmente vai ter alta durante o fim de semana.»

Falta saber o que de facto aconteceu, é verdade.

Mas quando se fala da herança da União Soviética já estamos habituados a isso: e Karpov tem essa capacidade carinhosa de nos devolver aos anos oitenta.

 

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