A Besta reformou-se: no início diziam-lhe que era gordo de mais para jogar futebol

4 jun, 12:20
Akinfenwa

Adebayo Akinfenwa é um fenómeno de popularidade. Tem milhões de seguidores nas redes sociais e quer conquistar o mundo.

Quando por estes dias terminar mais uma sessão de ginásio e olhar para o horizonte, enquanto se hidrata, Adebayo Akinfenwa vai seguramente estar orgulhoso.

O inglês colocou um ponto final na carreira de jogador e acabou em grande: numa final em pleno Wembley, perante setenta mil espectadores e um fantástico jogo de futebl. O próprio jogador tinha dito que seria sempre perfeito, jogasse dois minutos, dez ou quinze. Acabou por jogar quinze. Só faltou fazer um golo e ganhar a final, mas mesmo assim acabou em grande.

«Fazer a minha última dança em Wembley... se fosse eu a escrever o guião, não o conseguiria fazer melhor», confessou Akinfenwa ao The Athletic.

Foram 22 anos, 14 clubes, mais de 200 golos e quase 800 jogos. Nunca jogou na Liga Inglesa e só por um ano esteve no Championship. Passou praticamente a carreira toda entre a League One e a League Two, os terceiro e quarto escalões do futebol inglês, mas nem isso o travou.

Tornou-se uma estrela do futebol com 1,4 milhões de seguidores no Instagram, um canal de youtube com 300 mil subscritores e mais de dois milhões de visualizações, lançou uma marca de roupa chamada «Beast Mode On» e já se estreou como comentador de futebol na televisão.

Tudo isto sem nunca ter jogado na Liga Inglesa, repete-se, nem ter entrado num Big Brother.

«Disseram-me que eu era grande demais para jogar futebol... e a verdade é que joguei durante 22 anos. Por isso um dia vou sentar-me e dizer: 'Sabes uma coisa, fizeste tudo certo’».

Não foi fácil, Akinfenwa passou por muito ao longo da vida.

Natural de Islington, um subúrbio a norte de Londres, filho de pais de ascendência nigeriana, começou por ser muçulmano por influência do pai, mas acabou por se converter ao cristianismo.

«Quando o Ramadão começava, o meu pai obrigava-nos a jejuar. Mais tarde comecei a ler a Bíblia da minha mãe e converti-me. Hoje leio a Bíblia e frequento a igreja todos os domingos.»

Desde criança que era fisicamente muito forte, o que lhe valeu a alcunha de ‘Besta’, que ele adotou com agrado e funcionou de uma forma perfeita como marketing. Apesar disso, logo desde novo que a compleição física levantou dúvidas entre as pessoas do futebol.

Akinfenwa era, no entanto, um apaixonado pela modalidade e adepto do Liverpool. Conta até que um dia, quando defrontou os Reds, avisou os colegas do Wimbledon que se alguém pegasse na camisola de Gerrard ia ter problemas. Ninguém se atreveu a fazê-lo e ele ficou com ela.

Por isso, por ser um apaixonado por futebol, não desistiu do sonho. Passou a infância a jogar nos campos estragados da Sunday League, em Hackney Marshes e em Market Road, e quando era ainda adolescente entrou para as camadas jovens do Watford. Foi lá que conheceu um empresário, que era casado com uma lituana, que tinha um irmão a trabalhar no FK Atlantas, da Lituânia.

Com 18 anos, Akinfenwa tornou-se emigrante e mudou-se para o Báltico.

Na Lituânia recebeu ameaças de morte e abusos raciais até dos adeptos do próprio clube. A primeira vez que aconteceu ligou ao irmão mais velho a dizer que queria voltar para Londres. O irmão perguntou-lhe se queria mesmo regressar sabendo que os racistas tinham ganhado.

Akinfenwa ficou mais dois anos, claro.

«Somos produtos do nosso ambiente e das experiências que vivemos. A Lituânia fez-me crescer. Porque havia de deixar penetrar negativamente na minha alma pessoas de quem eu não aceitaria sequer um conselho? Na Lituânia diziam que me queriam matar por causa da minha cor, em Inglaterra diziam que eu era gordo. Então pensei: ‘Porque raio estas coisas me hão de afetar?' Cheguei a um ponto em que me senti confortável com quem sou e segui em frente.»

Marcou o golo na final da Taça da Lituânia que valeu a conquista do troféu mais saboroso da história do FK Atlantas, jogou duas vezes as pré-eliminatórias da Taça UEFA e veio embora.

Passou então pelo Barry Town, do País de Gales, antes de regressar a Inglaterra para representar Boston, Leyton Orient, Doncaster, Rushden, Torquay, Swansea, Milwall, enfim, foram oito clubes em cinco anos, e treze clubes em doze anos.

Por esta altura já era notícia nos jornais devido aos quase cem quilos e aos músculos que lhe permitiam levantar pesos de 190 quilos. Mas nem sempre o que lia na imprensa era agradável.

«Lembro-me de comentadores dizerem: 'Bem, ele não tem um mau toque de bola para um homem tão grande.' Ou então: 'Ele é pesado, mas até se levantou rapidamente do chão.' Eu entendo, somos humanos e somos criaturas visuais. Mas grande ou pequeno, consigo cabecear bem e sei que tenho um bom toque de bola. Sei que não vou voar por cima de ninguém, mas se me colocarem a bola na área, sei que não há ninguém melhor. Aquele é o 'meu escritório'.»

Cada vez melhor e mais forte, tornou-se verdadeiramente um fenómeno mediático em 2016. No final de um jogo em que marcou o golo que garantiu a promoção do Wimbledon à League One, Akinfenwa proporcionou uma flash-interview que se tornou viral e correu todo o mundo.

«Acho que estou tecnicamente desempregado, por isso os treinadores que me estejam a ver, liguem-me pelo WhatsApp e arranjem-me um trabalho», atirou em direto.

O pedido foi um sucesso e choveram contactos. Diz que recebeu convites da Argentina à Austrália.

«Lembro-me de olhar as minhas mensagens diretas nas redes sociais, havia contactos até de CEO’s e pensei: 'Devia ter feito isto há anos!' Foi uma loucura.»

Nessa altura já era o jogador mais forte do FIFA, o popular jogo de Playstation, depois dessa entrevista foi até convidado para o lançamento do jogo, ao lado das maiores estrelas do futebol.

«Lembro-me que fizeram uma sondagem no FIFA a perguntaram que carta as pessoas estavam mais ansiosas por ter, eu ou o Messi. E eu venci o Messi. Fiquei tipo: 'O quê?! Esperem lá, o que é que me está a escapar aqui?’», confessou ao The Guardian.

«O meu prestígio fora de campo é muito maior do que aquele que eu construí lá dentro. Sim, sim, sim. É incompreensível para mim.»

Se Akinfenwa pensar bem, porém, não será assim tão incompreensível. Antes de mais há uma natural curiosidade sobre como se porta em campo um ponta de lança tão gordo, com um corpo tão divergente do que é o modelo de jogador de futebol. Para além disso, o inglês é carismático, muito confiante e extremamente divertido. Tem um humor que faz as delícias dos adeptos.

Depois de sair do Wimbledon, e de pedir a todos os treinadores do mundo que lhe ligassem, o avançado foi jogar para o Wycombe, no qual ficou seis anos e viveu os melhores anos da carreira. Incluindo a promoção ao Championship, naquela que foi a única presença na II Liga Inglesa.

«Há quatro anos estava precisamente aqui e estava tecnicamente desempregado. Por isso deixem-me que vos diga uma coisa: a única pessoa que me pode ligar hoje pelo WhatsApp é o Klopp, para que possamos celebrar juntos», atirou na conferência de imprensa após o jogo da subida.

E a verdade é que Klopp ligou. Ou melhor, enviou uma mensagem em vídeo para o WhatsApp.

«Parabéns, grandalhão. Não tive oportunidade de ver a tua flash-interview, mas os meus jogadores avisaram-me que eu era o único que podia entrar em contigo hoje. Por isso aqui vamos. Parabéns, grande vitória hoje», disse o treinador através de uma mensagem minutos depois.

Agora, aos 40 anos, pôs um ponto final na carreira, com uma derrota que impediu o regresso do Wycombe ao Championship. Mas isso não é o que mais importa.

O que interessa é que acabou «uma lenda do futebol inglês», como lhe chamou Guardiola, mas ele vai continuar a andar por aí. Nas redes sociais, na televisão ou a fazer publicidade. A reforma não deve ser um problema para um homem que criou uma tremenda fama ao longo da carreira.

Por estes dias, antes de abraçar outra coisa qualquer, deve estar a olhar para o horizonte e a sentir-se orgulhoso. No fim de mais uma sessão de ginásio.

«Sou uma criatura de hábitos. Faço 47 minutos na bicicleta todas as manhãs e tento queimar 850 calorias. É a minha rotina, o meu tempo só para mim e vou continuar a fazê-lo. Gosto do ginásio. Ninguém me obriga a ir, vou porque quero. Além disso tenho duas filhas e uma delas está quase a completar 16 anos em breve, vai entrar naquela fase dos namoros, então vou continuar a isso ao ginásio por causa disso também...!»

De resto, quer continuar a viver. Sentido-se confortável exatamente como é e lembrando às pessoas que não há nada mais poderoso do que cada um amar-se pelo que é.

«Agora segue-se o mundo, quero conquistar o mundo. Estou ansioso por esse desafio, por outra emoção. Ser jogador é tudo que eu conheço há 22 anos, mas em qualquer setor, e principalmente no futebol, as pessoas institucionalizam-se. Estamos numa bolha em que nos dizem onde ir, o que vestir, como pensar. Por isso entrar no mundo real é começar tudo de novo. É um desafio emocionante e estou ansioso por ele.»

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