Ainda se lembra da preparação para uma festa que podia "ser tudo", até um "ponto de viragem. E foi mesmo assim
Claire Chabaud-Tropéano caminhava pelas ruas de Brooklyn, em Nova Iorque, imaginando se aquela noite mudaria a sua vida para sempre.
Naquela noite, Claire sentiu-se como se tivesse entrado nos filmes gravados em Nova Iorque que acompanharam a sua infância em Paris: ruas arborizadas, fileiras de moradias geminadas, folhas de outono a colorir as estradas, abóboras iluminadas a sorrir para ela das varandas.
“Lembro-me de caminhar pelas ruas de Nova Iorque e pensar ‘Esta festa pode ser tudo. Talvez possa ser um ponto de viragem’. Na altura, sentia-me muito mal com o rumo da minha vida», conta à CNN Travel.
Claire lembra-se de pensar que, ali, poderia ser a protagonista de um desses filmes com que cresceu em casa: “‘Talvez aconteça um momento à filme, em que algo acontece e tudo fará sentido, e é por isso que antes era mau’. Tenho uma memória muito, muito vívida de pensar nesse cenário.”
Era noite de Dia das Bruxas de 2019. Claire, então com vinte e poucos anos, tinha viajado de França para os EUA “por capricho”. Claire queria ser empreendedora. O seu sonho era morar em Nova Iorque. Mas Claire não só não tinha visto, como não tinha apartamento nem meios para tornar nada disso realidade. Infelizmente, a viagem a Nova Iorque fez com que as suas ambições parecessem mais distantes, em vez de mais próximas.
“Eu estava a ver o meu sonho americano a desaparecer”, conta.
Além disso, aquele velho ditado que diz ‘não importa onde vás, estarás sempre lá’, nunca pareceu tão real para Claire, que teve de admitir para si mesma que fugir para os EUA também era uma tentativa de fugir da infelicidade em casa — e não estava mesmo a funcionar.
Claire tinha acabado uma relação há pouco tempo. “Eu estava realmente num momento de colapso. Na verdade, chorei muito”, confessa.
Claire pensou voltar para Paris, mas uma amiga que morava em Nova Iorque convenceu-a a ficar um pouco mais. As duas conheceram-se durante umas férias na Costa Rica. A amiga, também ela empresária, compreendia as frustrações e os altos e baixos de construir um negócio — e achou que Claire precisava de desabafar um pouco, divertir-se.
“Ela disse-me: ‘O meu aniversário é este fim de semana. E depois é o Dia das Bruxas na próxima semana. Ficas para ir comigo a essas duas festas e depois podes ir embora.”
A festa de aniversário da amiga foi divertida. Claire começou a sentir-se um pouco melhor. E então surgiu a festa de Halloween, organizada por um casal que era amigo da amiga de Claire e trabalhava no mundo da tecnologia. O casal era muito bem-sucedido e morava num lindo prédio de tijolos vermelhos em Brooklyn. A amiga de Claire prometeu que a festa seria inesquecível. Claire permitiu-se ficar animada.
“O Dia das Bruxas é a minha festa, evento e celebração favoritos desde que sou criança”, confessa.
Claire estava ansiosa para passar aquele dia nos EUA. Ela sabia que os americanos se empenhavam a sério no Dia das Bruxas.
“Então, quando a minha amiga me convenceu a ficar para essa festa, comecei a ficar animada ao pensar no meu disfarce.”
Claire teve uma ideia: iria vestir-se como uma galáxia, representando um sistema estelar.
“Comprei um fato preto de gato e costurei nele luzes decorativas azuis, cor-de-rosa e brancas. Assim, no escuro, só se veriam as minhas luzes decorativas a mover-se.”
Quando Claire chegou à morada indicada — com as suas luzes a cintilar — e entrou na bela casa geminada do século XIX, o interior deixou-a sem fôlego.
“Todos os quartos tinham uma decoração e uma disposição incríveis. Tudo era uma espécie de atração. Havia um quarto com diferentes sistemas de iluminação, um quarto onde havia um tapete mágico”, descreve.
Claire chegou cedo, mas o prédio já estava cheio de outros jovens na casa dos 20 anos, com os devidos disfarces e bebidas nas mãos.
Claire entrou na festa com um objetivo: “Preciso de esquecer meu ex. Vamos ver o que vai acontecer.”
Assim que entrou, Claire reparou de imediato num rapaz, que estava disfarçado com uma fantasia indefinível, pelo menos para Claire - um fato e uma pala no olho. Apesar da fantasia pouco impressionante, Claire não conseguia tirar os olhos dele.
“Lembro-me de o ver e pensar ‘Uau. Se todos estiverem tão atraentes esta noite, vai ser ótimo’.”
Entretanto, chegaram mais pessoas à festa. Enquanto Claire caminhava de sala em sala, conversando com diferentes pessoas, olhava de soslaio para o rapaz com a pala no olho.
“Eu continuava a observá-lo e só pensava: ‘Uau, ele é muito bonito, estou mesmo a gostar dele’.”
Mas Claire nunca parecia estar perto o suficiente para conversar com ele. À medida que mais e mais foliões entravam pela porta, a festa ficava mais animada, espalhando-se por vários andares da casa. Claire perdeu o rasto do rapaz, até que acabou no terrado do prédio, presa numa conversa sobre a qual não tinha interesse.
“Eu só pensava ‘Não gosto desta conversa. Quero sair daqui’. E estava realmente encurralada”, confessa Claire. “Sempre ouvi dizer que ‘‘Podes sempre sair de uma sala quando estiveres encurralada’. Então, lembro-me de pensar ‘Vou simplesmente sair daqui’”.
Sentindo-se orgulhosa de si mesma por essa determinação, Claire desceu as escadas e entrou numa grande sala onde a música tocava alto, as luzes piscavam e todos dançavam.
“Estava muito movimentado e eu pensei “Ok, com quem falo agora, o que faço?’”, conta. E foi então que o viu: o rapaz com a pala no olho. Ele estava a olhar para ela.
“Parecia o homem mais bonito do mundo”, confessa.
Claire sentiu o coração bater forte no peito enquanto caminhava em direção a ele, sorrindo. Ele sorriu de volta.
O rapaz com a pala no olho
O rapaz com a pala no olho era David Redd.
Naquele outono de 2019, David estava no final dos seus vinte anos. Músico radicado em Los Angeles, David acabara de gravar o seu primeiro álbum completo. Sentia-se prestes a concluir algo especial, mas sem saber ao certo como as coisas se iriam desenrolar.
“Era o primeiro trabalho como artista do qual me sentia realmente muito orgulhoso. Achei que iria lançar a minha carreira”, conta David à CNN Travel. “E estava meio que apaixonado por uma amiga e a perseguir algo que sabia que era errado.”
Naquele mês de outubro, David estava de visita a amigos em Nova Iorque, onde cresceu. David estava entusiasmado por rever os seus velhos amigos. Mas precisava de se preparar psicologicamente antes da festa.
“Os meus amigos estavam a organizar uma festa do Dia das Bruxas. Eu pensei: ‘Tudo bem, preciso de um escape. Preciso de algo para recomeçar’”. “”Olhei-me ao espelho e pensei: 'Tudo bem, tenho essa festa hoje à noite. Vou enterrar tudo. Vou deixar ir. Vou parar de me agarrar tanto ao que eu esperava que acontecesse e simplesmente permitir que aconteça o que tiver de acontecer. E foi então que ela chegou.”
David olhou para Claire logo no início da festa, quando ela apareceu com as suas luzes de fada a cintilar em cores diferentes. O rosto dela iluminado pela luz de néon.
“Lembro-me dos teus olhos”, confessa-lhe hoje. “Os teus olhos muito azuis.”
David continuou a observar Claire do outro lado da sala. Passava por ela nas escadas. Mas continuavam a não se cruzar.
“Então, quando finalmente começámos a conversar, tive aquela sensação: ‘Oh, és tu’”, recorda David.
Quando David olhou para Claire, foi como se algo tivesse encaixado no lugar certo. Claire fez um comentário sobre o disfarce dele.
“Eu disse: ‘Olá. Hum, não estarás na festa errada?’”, lembra-se Claire, entre risos.
“Não, não”, interrompe David hoje, também entre risos. “Tu disseste: ‘A tua roupa não tem piada nenhuma”. Foste rude, muito francesa.”
Claire não nega isso. Mas lembra-se que ambos se riram assim que ela insultou o disfarce de David.
“Ele tem um enorme sorriso e ri-se muito alto. E eu só pensava ‘Eu podia ficar a minha vida inteira a ouvir estes risos’. Lembro-me claramente de pensar isso e de achar que era uma loucura estar a pensar naquilo. Não estava a pensar que poderia passar a minha vida com ele. Era mais como ‘eu podia ficar o resto da minha vida a vê-lo sorrir’.” David interrompeu o devaneio de Claire para perguntar sobre o disfarce dela.
“Olhei para ele e respondi: ‘Sou uma galáxia’”, recorda Claire.
“Era um bom disfarce”, reconhece David. “Já o meu foi comprado por cerca de 12 dólares na Amazon.” David estava vestido como o vilão Número 2 dos filmes Austin Power, que Claire nunca tinha visto.
“Eu não percebi a referência”, confessa Claire, encolhendo os ombros.
“Recebi elogios no início da noite de pessoas que entenderam a referência”, acrescenta David, entre risos.
Depois de compararem disfarces, David e Claire continuaram a conversar. E nunca mais pararam.
“Foi uma coisa química estranha, como se continuássemos a girar um em torno do outro e depois ficássemos presos”, explica David. “Imagino moléculas ou átomos a flutuar no espaço, mas há uma carga química que os atrai um ao outro e, de repente, assim que se chocam, é como se... quer dizer, passámos o resto da noite juntos.”
“Penso que foi amor à primeira vista”, completa Claire. Quando ele aparecia numa divisão da casa, o meu corpo parava.”
Há uma fotografia tirada naquela noite, várias horas depois de Claire e David se conhecerem. Eram “quatro da manhã, mais ou menos”, indica David. Na foto, os dois parecem que se conhecem “há muito tempo”.
“Estamos simplesmente deitados no chão. Ela está deitada em cima de mim. Estamos a conversar, e é simplesmente... há uma intimidade e uma naturalidade na pose que são notórios. Éramos completos estranhos”, descreve David.
A certa altura, um amigo em comum passou por eles e, um pouco embriagado, disse aos dois que eles “deviam mesmo conhecer-se”..
Claire quase riu.
“Lembro-me de pensar: ‘Oh, nós já estamos apaixonados’. Foi muito forte para mim”, confessa Claire. “Mas o interessante é que, na verdade, nessa festa, nós não nos beijámos. Porque eu disse ao David: ‘Não quero beijar-te na primeira noite, se isto for importante’. Então nós apenas conversámos e acabámos a adormecer no sofá.”
Na manhã seguinte, David acompanhou Claire até ao apartamento onde ela estava hospedada.
“Ele pediu-me o número e eu respondi-lhe: ‘E se deixarmos isto nas mãos do destino?’. E ele olhou para mim e disse: ‘Não, dá-me o teu número”, recorda Claire.
David não ia deixar que uma fantasia romântica atrapalhasse aquela oportunidade de viver algo real: “Eu estava à espera que esta pessoa chegasse à minha vida. Era isso que eu estava a procurar... e não era o que eu esperava. Não era exatamente tudo o que eu tinha em mente. Mas era claramente certo.”
Então Claire deu o seu número a David. Ele prometeu enviar uma mensagem. E despediram-se um do outro.
“Eu tinha a certeza de que era real”
Passou-se um dia. Depois dois. Depois três. Claire não voltou a ouvir nada de David. “Três dias sem notícias. Eu estava com o coração partido”, confessa.
O modus operandi habitual de Claire era falar com entusiasmo para as amigas sobre os seus potenciais interesses amorosos. Mas desta vez, quando as amigas a pressionaram para obter informações sobre o rapaz da festa, optou por não revelar nada.
“Eu disse: ‘Não, não quero dar azar. Quero preservar isto’.”
Mas Claire ficou nervosa por não saber mais nada de David. “Nenhuma notícia dele. E eu tinha a certeza de que aquilo era real. O que se passa?”, perguntava-se.
Então, no quarto dia, Claire recebeu uma notificação no Instagram: um pedido para seguir e uma mensagem de David.
“Não sei se o número errado foi intencional, mas caso não tenha sido... olá, sou eu”, dizia a mensagem.
De alguma forma, Claire tinha dado o número errado a David. Ao aperceber-se, Claire sentiu um enorme alívio por ele não ter desistido e a ter encontrado nas redes sociais. Receber aquela mensagem foi “fantástico”, confessa.
A partir daí, começaram a trocar mensagens. David estava de volta a Los Angeles. Claire estava de volta a Paris. Não estava claro para onde as mensagens deles estavam a ir.
“Muitas pessoas, quando estão em relações à distância, ficam numa longa e interminável troca de mensagens que se prolonga por uma eternidade, essencialmente. E eu sou um tipo mais transacional quando se trata de mensagens de texto”, explica David.
As mensagens deles eram um pouco intermitentes. Mas ambos mantiveram o contacto.
“Trocámos algumas mensagens, fizemos chamadas telefónicas de vez em quando. Fizemos algumas chamadas pelo FaceTime.”
Claire também estava um pouco hesitante em relação à comunicação entre eles.
“O facto é que terminei com o meu ex porque ele se mudou para Nova Iorque, porque eu não queria ter uma relação à distância entre Paris e Nova Iorque”, conta Claire. “E agora estou de volta a Paris com um rapaz de Los Angeles. Lembro-me que, no início, tentei afastar-me dele e não consegui.”
Claire foi a festas e bares em Paris e conversou com outras pessoas, na esperança de voltar a encontrar a química que sentia com David mais perto de casa, mas sem sucesso.
“Sempre que tentava conversar com alguém, pensava: ‘Oh, mas não há essa sensação. Não há essa intensidade’.”
Claire dividia o apartamento onde vivia em Paris com as suas duas melhores amigas de infância. Certa noite, ela entrou na cozinha e fez um anúncio.
“Ok, meninas. Acho que vou convidar aquele rapaz americano para vir à nossa casa”, anunciou.
As amigas de Claire apoiaram a ideia. Até sugeriram viajar no fim de semana para que Claire e David pudessem ficar sozinhos no apartamento.
Naquela noite, enquanto conversava com David, Claire mencionou — da forma mais casual possível — que Paris era “muito bonita nesta época do ano”.
“Devias vir visitar”, propôs.
David ficou indeciso. Ele queria voltar a estar com Claire. Mas também achava que era uma loucura fazer isso. Hoje, David confessa que procurou voos, meio na esperança de que fossem demasiado caros para justificar a viagem.
“Mas isso foi na época da Norwegian Air. Deus os abençoe. Havia um voo de ida e volta de Los Angeles para Paris por 300 dólares”, recorda David. “E Eu pensei: ‘Espera lá, eu posso fazer isto. Não é uma ideia assim tão louca’.”
David hesitou no momento em que estava prestes a comprar os voos. “Liguei para a minha mãe, que é uma pessoa muito avessa ao risco. Perguntei-lhe: ‘Isto é loucura? Devo simplesmente voar para Paris para encontrar uma rapariga com quem passei apenas 16 horas?’”
David esperava que a mãe o dissuadisse. Mas ela não o fez. “A minha mãe respondeu: ‘Bem, na pior das hipóteses, estarás em Paris, na pior das hipóteses, acabarás lá. Isso nunca é uma má ideia’.”
David não podia contestar essa lógica. Reservou o voo.
Um reencontro parisiense
Na véspera da chegada de David a Paris, Claire não conseguiu dormir. Decidiu limpar o apartamento de cima a baixo. Uma decisão que deixou a sua colega de quarto “muito feliz”, recorda Claire, entre risos.
Mas quando Claire e David se reencontraram, todo o nervosismo desapareceu. A química da festa do Dia das Bruxas continuava palpável.
Saíram para beber uns copos juntos, colocando a conversa em dia enquanto bebericavam cocktails. Depois, acabaram por se encontrar com todos os amigos de Claire. David estava no seu elemento.
“Sou americano. Sou licenciado em Inglês. Sou escritor. Há muita coisa em Paris que adoro e com que fantasio, que foi romantizada”, diz David. “E assim acabámos num espetáculo de drag queens em Montmartre com um grupo de amigos num bar minúsculo. E eu pensei: ‘Ah, então é real. É exatamente o que eu esperava e foi incrível, e os amigos dela eram super fixes, e a noite foi divertida’.”
David e Claire não tinham definido os termos da visita dele. Não tinham conversado sobre o que a relação entre eles poderia significar. Claire não tinha contado a todos os seus amigos sobre ele - umas das suas amigas até tentou flertar com David, mas Claire rapidamente a impediu. Ainda assim, Claire não expressou os seus sentimentos a David naquele primeiro dia. Ele também não o fez. Mas nenhum dos dois se afastou.
“Tenho a certeza de que ambos estávamos a sentir isso, mas nenhum de nós tinha expressado nada”, diz David.
Claire atribui esse impasse aos seus respectivos estilos de apego. Enquanto ela é do tipo “ansiosa”, ele é “evasivo”, explica.
Mas David também se deixava levar pelo romance do momento. Por isso, naquele fim de semana, confessou a Claire que a amava, mesmo evitando as tentativas dela de planear o futuro.
No último dia, isso culminou num confronto.
“Na última noite, a pergunta ‘O que é isto?’ pesou-nos. Acho que não tínhamos respostas”, conta David, que acreditava que tudo daria certo se fosse para ser assim. David partiu de Paris a pensar: “Vamos descobrir.”
“Ele tinha essa sensação. Eu não”, confessa Claire. “Eu estava a enlouquecer.”
Isso foi em novembro. Em dezembro, os dois reencontraram-se em São Francisco. Mas Claire, sem saber ao certo qual era a sua posição em relação a David, apresentou isso como uma viagem espontânea para visitar amigos que moravam na Califórnia no Ano Novo. Clairde achava que era óbvio que David iria buscá-la no aeroporto. David disse a si mesmo que Claire estava apenas de passagem pela cidade.
“Então, eu não fui buscá-la ao aeroporto”, conta David. “Tenho a certeza de que havia algo na minha cabeça que estava com medo e inseguro e provavelmente a tentar sabotar um pouco as coisas, e estava, sim, a evitar pensar: ‘Ok, o que está a acontecer? Qual é o nível de intenção aqui? Qual é a situação? Vou buscá-la para outra aventura romântica ou vou encontrá-la numa festa que ela disse que iria?’ Acabou por ser as duas coisas.”
“Então, chego ao aeroporto e ele não está lá”,, lembra Claire. “Ligo para uma amiga, ela vem buscar-me e eu sinto-me louca. Só pensava: ‘Atravessaste o mundo por alguém que não está aqui’.”
Para Claire, esse momento ilustra muito bem o que é conhecer alguém durante as férias. Claro, é romântico no momento. Mas quando é que se compromete? Quando é que expressa os seus sentimentos? Como fazer com que dê certo?
Quando David sugeriu que eles não deveriam rotular a relação, Claire ficou perplexa. “Eu pensei: ‘Se vou apanhar um voo de 12 horas, é bom que coloquemos um rótulo nisto’.”
Para David, o risco de perder Claire para sempre foi um alerta. Ele foi honesto com ela. “Lembro-me de dizer: ‘Quero mesmo isto. Mas não quero ficar preso ao meu telemóvel. Não quero ter uma relação pelo FaceTime. Não sei o que fazer. Tenho muito medo disso’.”
Claire compreendeu os receios de David. Não eram receios em relação a ela. Eram receios em relação à realidade de se comprometer com alguém que vivia noutro continente, a mais de 8 mil quilómetros de distância. Era um receio que ela também partilhava.
Mas Claire notou que, mesmo quando David parecia estar hesitante, não desaparecia. “Ele sempre lutou, sempre esteve presente.”
David também sabia que isso significava alguma coisa.
“Mesmo que estivéssemos com dificuldades para entender a estrutura da nossa relação ou como iríamos fazer com que isto funcionasse, ou se eu estivesse um pouco evasivo em relação à forma como iria declarar o meu compromisso. Acho que ambos fomos muito sinceros com os nossos sentimentos e emoções sobre isso, e comprometidos com a força que sentíamos, e comprometidos com o que quer que fosse que iríamos descobrir juntos”, descreve David.
Com esse pensamento em mente, Claire e David decidiram arriscar e comprometer-se com uma relação. Estávamos em janeiro de 2020.
Nos meses seguintes, as coisas pareceram surpreendentemente fáceis.
“Em fevereiro, encontrámo-nos em Londres e, em março, reencontrámo-nos em Nova Iorque, e ela conheceu toda a minha família”, recorda David. “Lancei a primeira música do meu álbum de estreia. Fiz um espetáculo que esgotou em Nova Iorque. Foi outro fim de semana perfeito, tudo estava a correr muito bem.”
Após o concerto, Claire e David passaram um domingo aconchegante juntos, a planear o resto do ano — alternando encontros em Paris e Los Angeles. Tudo parecia viável.
“E foi então que recebemos um e-mail do governo francês a dizer que ela estava a ser repatriada para França. Havia uma emergência nacional. Era preciso apanhar o próximo avião imediatamente. E então ficámos em quarentena separados durante os quatro meses seguintes”, conta David.
Incertezas de um relacionamento à distância
Durante os primeiros meses da pandemia, David rapidamente percebeu que os seus receios de um relacionamento confinado apenas ao FaceTime se tinham concretizado.
Mas, em vez de o stressar, as longas conversas com Claire mantiveram-no são num período de grande incerteza.
“Havia um ritmo bastante tranquilo, com tempo para simplesmente sentar e conversar”, conta David. “Acho que foi aí que a nossa relação floresceu verdadeiramente. Sabíamos que havia potencial, mas conseguimos ver as vulnerabilidades um do outro com mais clareza. Conseguimos ver-nos em momentos difíceis.”
Os dois aproveitaram o tempo com jogos de tabuleiro online, participaram em festas de dança através do Zoom. David escrevia poemas de amor e lia-os a Claire por videochamada, "um pouco embriagado".
Enquanto isso, Claire e David acompanhavam as regras fronteiriças dos respetivos países, na esperança desesperada de se reencontrarem. No verão de 2020, formou-se um plano: David voaria para Londres, faria quarentena lá e depois apanharia um comboio para França para estar com Claire, que, nessa altura, vivia com os avós no sul do país.
Tratava-se mais de uma lacuna nas regras fronteiriças do tempo da covid do que de uma ação legalmente autorizada. Quando David chegou ao aeroporto de Heathrow, os agentes fronteiriços do Reino Unido deram-lhe "um pouco na cabeça”.
“Finalmente, disse-lhes: ‘Olhem, vou encontrar a minha namorada. Ela é de França. O meu teste de covid deu negativo. Não pretendo ficar muito tempo no país. Só preciso de ficar duas semanas e depois vou-me embora’. E deixaram-me entrar.”
Duas semanas depois, David mudou-se para a casa dos avós de Claire, no sul de França. Tanto Claire como David não esconderam o alívio que sentiam.
“Voltar a estar no mesmo lugar que ela foi como se pensasse: ‘Certo, agora a nossa vida vai começa’”, recorda David.
Mas a situação era algo que nunca tinham previsto: um casal de vinte e poucos anos a viver com um casal de oitenta e poucos anos em plena pandemia.
"E os meus avós não acreditam em línguas estrangeiras", diz Claire.
O casal mais velho não falava inglês e recusava-se a aceitar a ideia de que David não compreendesse o seu francês. Ainda assim, apesar da barreira linguística, os avós de Claire afeiçoaram-se ao convidado americano.
"O meu avô era muito solitário e, no entanto, adorou o David desde o primeiro dia", conta Claire. "O meu avô simplesmente sentou o David com um copo de vinho e começou a contar histórias de guerra."
"Percebi o suficiente para saber quando rir", acrescenta David.
Nos meses seguintes, David aprimorou o seu francês. David e Claire passavam tardes aconchegantes juntos e longas noites a cozinhar e a partilhar garrafas de vinho com os avós de Claire. Foi um período surreal, mas especial.
“Passámos de ‘encontramo-nos nos melhores lugares do mundo’ para ‘estivemos em quarentena durante três meses com os meus avós em França’”, conta Claire. “Mas foi muito especial. O meu avô faleceu no início deste ano, e o mais incrível é que era muito próximo do David, porque tivemos estes poucos meses juntos que foram muito significativos.”
Mas, após três meses em França, David teve de regressar aos EUA. Os cidadãos da UE ainda não podiam visitar os EUA, e os próximos passos do casal eram incertos.
Finalmente — depois de discutirem com agentes fronteiriços e de procurarem respostas online — David e Claire foram juntos para o México, planeando passar duas semanas na Cidade do México antes de viajarem para os EUA (outra lacuna nas fronteiras da era da covid).
Depois de trocarem um Airbnb sem janelas por um quarto num apartamento partilhado, os dois passaram duas semanas incríveis a fazer caminhadas, a explorar a cidade e a fazer amizade com o proprietário e outras pessoas que estavam hospedadas na propriedade — com quem ainda hoje mantêm amizade.
“Eram moradores locais”, conta Claire. “A nossa amiga, Dani, tinha acabado de regressar de viagem. Tinha sido repatriada para o México. Ficámos lá algumas semanas. Fomos acampar com ela, tornámo-nos boas amigas e simplesmente apaixonámo-nos pela Cidade do México. Mais uma daquelas histórias loucas em que nos perguntamos: ‘Como é que isto aconteceu?’.”
Dali, os dois seguiram para os EUA, onde Claire permaneceu durante três meses. Em 2021, o casal voltou a separar-se por alguns meses.
Finalmente, tudo começou, aos poucos, a voltar ao normal, as restrições de viagem foram flexibilizadas e o reencontro tornou-se mais fácil.
“Fora da nossa zona de conforto”
Para Claire e David, estas experiências de separação e de reencontro confirmaram a certeza que tinham um no outro e na relação.
“Estivemos fora da nossa zona de conforto o tempo todo”, conta David. “Dizem que viajar é uma ótima forma de descobrir se é compatível com o seu parceiro. Bem, viajamos muito no início, em circunstâncias difíceis, stressantes e complicadas.”
Este período confirmou também os seus planos para o futuro. Claire era “tipicamente francesa” por não achar que o casamento fosse essencial na escolha de um parceiro para a vida. E David sempre detestou as “expectativas loucas” da “indústria do casamento” americana.
“Mas, com todas as restrições de viagem, com toda a loucura a acontecer, acho que ficou claro que a proteção legal aqui poderia ser valiosa”, admite David. “O que não é a coisa mais romântica do mundo, mas acho que conseguimos encontrar uma forma de tornar tudo romântico e de fazer com que parecesse que éramos nós.”
Assim, no verão de 2022, David e Claire casaram-se no sul de França, na aldeia de Tourrettes-sur-Loup, onde Claire cresceu. Depois, a festa de casamento seguiu para a cidade vizinha de Juan-les-Pins, no litoral.
“Foi muito giro. Adorei o nosso casamento. Foi muito simples. Era uma terça-feira, estava muito calor. Casámo-nos na câmara municipal e, depois, jantámos na praia, na areia”, recorda Claire.
Durante o planeamento, Claire percebeu que a ideia de sentir os “pés na areia” no dia do casamento era o único aspeto que realmente a entusiasmava.
Mas, no momento, tanto Claire como David ficaram surpreendidos com a emoção que sentiram ao casar e com o significado do casamento.
Ambos também adoraram a oportunidade de reunir as suas famílias pela primeira vez. Houve muitos mal-entendidos engraçados entre franceses e americanos. A avó de David fez um discurso memorável.
"Ela tinha o mau hábito de fazer longos versos rimados", conta David. "Eu disse: 'Por favor, não façam um desses'. E foi ótimo. Conseguimos um discurso de duas linhas e uma despedida triunfal."
Formar uma equipa
Após o casamento, David e Claire estabeleceram-se em Los Angeles. Foi uma decisão bastante fácil — a concretização de um sonho antigo de Claire de viver nos Estados Unidos.
“Sou apaixonada pelos Estados Unidos desde criança. Queria trabalhar aqui”, explica.
Nessa altura, já estávamos em 2023. O casal regressava regularmente a França para visitar os avós de Claire. Criaram raízes juntos em Los Angeles. Finalmente, superaram o medo de serem separados por fronteiras, aliviados por saberem que, acontecesse o que acontecesse, estariam juntos.
“O nosso casamento deu-nos a certeza de que não poderíamos ser separados”, sublinha Claire.
Toda a energia que tinham gastado a viajar, a lidar com fronteiras, podia agora ser focada na relação, nas carreiras e na vida em Los Angeles, onde ainda hoje vivem.
Embora o casal esteja feliz em Los Angeles, nenhum dos dois tem a certeza se ficarão lá para sempre. Agora, estão a ponderar uma possível mudança para Londres para ficarem mais perto de França e passarem mais tempo com a família de Claire. O facto de David falar agora fluentemente francês ajuda bastante.
“As pessoas dizem sempre: ‘Que giro! Aprendeste francês por causa da tua mulher.’ E eu respondo: ‘Não, aprendi francês por mim. Aprendi francês para me sentir realmente imerso na cultura francesa. Aprendi francês para poder comunicar com a família dela e conhecê-la melhor’”, salienta David.
Depois, David acrescenta, entre risos, que aprendeu francês para que os futuros filhos do casal não estejam sempre a falar dele nas suas costas.
“Estava entusiasmada com a ideia de ter uma língua secreta com os meus filhos”, brinca Claire.
Por enquanto, o casal está concentrado na vida nos EUA, onde Claire se dedica à sua startup — desenvolvendo “soutiens inteligentes” que monitorizam as hormonas e a saúde. Enquanto isso, David está focado na sua música.
No início de outubro, David lançou uma canção que descreve como sendo “sobre apaixonar-se enquanto o mundo desmoronava, encontrar a felicidade na loucura”. A música, “Slowly Straight to You”, é sobre Claire, claro.
Tanto Claire como David valorizam o apoio e a estabilidade que oferecem um ao outro no meio de carreiras instáveis. Com David ao seu lado, Claire diz que a vida parece “uma tela em branco”. As oportunidades parecem infinitas.
David concorda: “O facto de termos esta relação mesmo naqueles dias em que tudo parece correr mal, em que os sonhos não se realizam — o que acontece na vida — dá-nos a certeza de que construímos algo muito sólido.”
Sentir gratidão
Este ano marcam seis anos desde que Claire vagueava pelas ruas de Brooklyn, perguntando-se se uma festa do Dia das Bruxas mudaria a sua vida.
O final de outubro continua a ser uma época especial para Claire e David. Reservam sempre um momento para refletir sobre a vida juntos quando o Dia das Bruxas se aproxima. Os dois também costumam procurar um bocadinho do outono nesta altura do ano, uma vez que ambos são de lugares onde "o outono é uma realidade, ao contrário de Los Angeles, onde não é", explica David.
"Um lugar que pareça ter árvores e folhas a mudar de cor, e que dê uma sensação de fuga e de nos reconectarmos um pouco com a natureza. Fazemos isso praticamente todos os anos, perto do nosso aniversário — e tentamos encontrar uma boa festa do Dia das Bruxas."
O talento de Claire para os disfarces de Halloween também contagiou David.
"Ambos vestimo-nos, há alguns anos, com versões diferentes do David Bowie. Foi uma ótima experiência", recorda David.
Hoje, quando Claire reflete sobre aquela festa em Nova Iorque e sobre ter conhecido David, diz que o sentimento predominante é a gratidão.
"Muita gratidão", sublinha. "Ele era tudo o que eu esperava encontrar um dia, mas achava que não merecia. Quando conheci o David, pensei: 'Ele é tão bondoso. Sinto-me tão atraída por ele. Ele é tão interessante. Ele compreende-me'."
Quanto a David, diz que refletir sobre ter conhecido Claire e construído uma vida juntos também o mantém "esperançado" em relação à vida em geral.
"É um bom lembrete para aproveitar um pouco a viagem", diz David. "Altos e baixos. Haverá problemas, haverá momentos perfeitos, haverá tudo o que há entre eles. Mas tenha fé, confie que está a chegar onde quer chegar, mesmo que o caminho seja angustiante. A angústia é provavelmente apenas impaciência, provavelmente está a stressar demasiado durante a viagem.”
“Se tiver clareza sobre o que quer e se mantiver fiel às suas crenças, acredito que chegará onde quer chegar. Conhecer a Claire mostrou-me realmente isso e restaurou essa fé."
