Dino D'Santiago lançou o mote: deve Portugal mudar o hino nacional? Afinal, os hinos são "canções estapafúrdias" ou devem "assumir os erros do passado"?

13 jan, 19:50
Adeptos cantam o hino (Carlos Costa/AFP via Getty Images)

A ideia foi lançada na semana passada pelo cantor Dino D'Santiago. Uma cineasta, um investigador, um historiador, um antigo deputado, um jogador de futebol, um escritor e uma advogada dizem-nos o que pensam

Se há países nos quais o olhar sobre o passado colonial tem projetado reflexões mais ou menos profundas e até culminado em simbólicos atos de contrição - o caso mais recente é o dos Países Baixos, com o pedido de desculpas do primeiro-ministro pelo papel do país na escravatura, mas antes já outros países como a Dinamarca, a França e o Reino Unido tinham pedido de desculpas pelos crimes associados à exploração de territórios e ao esclavagismo -, em Portugal a discussão esteve muitos anos em lume brando e só nos últimos tempos tem ganhado força, com o aparecimento de iniciativas que procuram gerar um debate mais amplo. Na semana passada, o cantor Dino D'Santiago lançou o desafio de se mudar o hino nacional, defendendo um hino “menos bélico e que incentive menos à guerra”, sugerindo que “não se grite mais às armas” e “não se marche mais contra os canhões” como se entoa na letra de "A Portuguesa".

Mas até que ponto a proposta do músico português com ascendência cabo-verdiana terá espaço para germinar na esfera pública? Devemos deixar para trás um hino com mais de um século, que exalta e glorifica a expansão ultramarina portuguesa, ou devemos manter essa composição como parte da memória do que também já fomos? Uma cineasta, um historiador, um investigador, um ex-deputado, um jogador de futebol, um escritor e uma advogada respondem e dizem-nos o que pensam.

Raquel Freire, cineasta

"Temos de assumir os erros do passado. Portugal é responsável por milhões de vidas perdidas"

A cineasta Raquel Freire não mostra hesitações: "Concordo completamente com o Dino", começa por dizer. "É uma reivindicação que já tinha expressado a outras pessoas e que outros países também já expressaram. Neste momento no século XXI quando queremos construir um mundo de paz, sem guerras, sem comportamentos tóxicos, sem ditadores como ‘Bolsonaros’, ‘Trumps’,’ Putins’ a habitarem as nossas vidas, não faz sentido nenhum construirmos o nosso imaginário de país e de nação com músicas bélicas, pelo contrário. O nosso hino deve ser um hino sobre a paz e a construção da paz, em Portugal e no mundo e sobre como nós podemos ser exatamente esses donos do nosso destino e sobre como nós podemos construir esses caminhos de paz e de partilha e de solidariedade internacional. Neste momento é isso que faz sentido num hino", acrescenta.

"Como artista e cidadã inscrevo-me, assim como o Dino, num movimento gigantesco revolucionário que começa no século XIX, que é o movimento antiesclavagista e movimento feminista e que hoje em dia continua num movimento internacional gigantesco antirracista, feminista, queer, LGBTQI+", afirma a autora do documentário "Mulheres do Meu País".

Raquel Freire considera que Portugal tem de "olhar para o seu passado com pensamento crítico" e tem de fazer "uma reparação a esse passado". "Temos de assumir os erros do nosso passado, que foram muitos. Portugal é responsável pelo tráfico humano, por milhões de vidas perdidas, temos de assumir o nosso passado do colonialismo, esses erros, e isso tem de ser explicado na escola", sublinha. "O pensamento critico é que faz o mundo avançar, é assim que se constrói uma democracia e os artistas são muito responsáveis por esse pensamento em cada país. O Dino está a fazer o seu papel e todos os artistas que contribuem para isto", acrescenta. 

Vasco M. Barreto, investigador e professor na Universidade Nova de Lisboa

"Mudar a letra parece obedecer a uma pulsão para higienizar o passado"

Uma perspectiva diferente tem Vasco M. Barreto, investigador na Universidade Nova de Lisboa e professor na Egas Moniz - Cooperativa de Ensino Superior: "A ideia de Dino D’Santiago parece-me bem intencionada e precisamos de enfrentar alguns fantasmas do nosso passado, nomeadamente o colonialismo e o esclavagismo, mas não creio que mudar a letra do hino seja uma prioridade", começa por dizer. "É verdade que se trata de uma letra datada, pelo estilo literário e por ter nascido num contexto histórico muito particular (a reação à cedência de Portugal ao Ultimato Britânico de 1890), mas não me choca e não creio que ofenda diretamente alguma das nossas comunidades, o que seria um critério válido para mudar a letra", frisa à CNN Portugal.

Questionado sobre o tom belicista da letra de "A Portuguesa", Vasco M. Barreto refere que "a nossa história está ensanguentada, como sucede com a maior parte das nações" e o hino "capta uma dimensão importante da nossa génese, por muito que esta conclusão colida com o ideal pacifista". "Não me parece que o hino incite à guerra. Quando o hino é cantado antes de um jogo de futebol da seleção nacional, invariavelmente os momentos em que mais gente presta atenção ao hino, aquela letra funde-se na perfeição com o espectáculo de ritualização de uma guerra e a ritualização é uma forma de sublimar", acrescenta ainda.

"Mudar a letra parece obedecer a uma pulsão para higienizar o passado", considera o professor, que coloca ainda outra questão: "quem faria o novo hino e qual seria o resultado? Antecipo o pior, porque na busca de um consenso impossível o resultado final seria um texto amorfo e anódino. Ou então alguém se lembraria de adaptar algum poema de uma das nossas unanimidades nacionais, como Sophia ou Pessoa, mas duvido que o resultado fosse feliz", remata.

Manuel Loff, historiador 

"Não se trata de eliminar aspectos do passado, mas de assumir que os estamos a ver de forma diferente"

O historiador Manuel Loff rejeita os conceitos de "higienização do passado" ou "do cancelamento do passado - um anglicismo que vem dos inglês 'cancel the past'": "Não estou de acordo porque o facto de não homenagearmos mais o golpe militar, Oliveira Salazar ou Óscar Carmona é sinal de que virámos uma página da nossa História".

"Não há forma nenhuma de higienização do passado. A mudança de memória é legítima e não significa eliminarmos elementos da memória, significa iluminar de forma diferente aspectos do passado, coisas que antes entendíamos que era natural homenagear e que hoje não aceitamos. Não se trata de eliminar aspectos do passado, mas de assumir que os estamos a ver de forma diferente", explica ainda, em declarações à CNN Portugal.

Professor na Universidade do Porto e investigador no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, Manuel Loff considera que "as políticas da memória assumidas pelos Estados e pelos poderes públicos" são adapatadas "aos momentos em que vivemos" e, por isso, "temos sempre o direito" de debater "se tem sentido manter o hino exatamente como está, se o hino ainda nos representa".

Mas, avisa, não tem dúvidas de que uma proposta destas é sempre recebida com muitos anticorpos: "Eu sei que haverá uma enormíssima reação negativa a uma iniciativa dessa natureza, mas acho que é legitimo", considera.

Manuel Loff observa que Portugal tem "um grande embaraço a falar do passado colonial" e que "não há um consenso maioritário na sociedade portuguesa no sentido de rever de forma profunda a relação com o passado colonial". "Evidentemente, quanto mais reivindicam dentro da sociedade portuguesa um papel próprio na definição da identidade do que é ser-se português todos os afrodescendentes e todos aqueles que são descendentes de povos que não veem o colonialismo português como muitos portugueses o veem, é forçoso que tenhamos de olhar para o passado de uma forma diferente", conclui.

Hélder Amaral, antigo deputado

"A História tem coisas boas e tem coisas más e os hinos refletem isso mesmo"

Uma opinião diferente tem Hélder Amaral, antigo dirigente e deputado do CDS: "Acho que o país tem tantas matérias que merecem reflexão e não proriamente entrarmos nesta voragem de que que é preciso pôr tudo em causa e querermos mudar tudo", afirma, em declarações à CNN Portugal. "Eu sou mais adepto da estabilidade e da preservação da História porque não podemos estar sempre a querer apagar ou a corrigir a História, ela é o que é. A História tem coisas boas e tem coisas más e os hinos refletem isso mesmo, refletem as coisas boas e as coisas más", acrescenta.

Hélder Amaral nota que o hino de Portugal "está datado" como "todos os hinos estão datados", mas defende que "deve ser mantido assim porque mantém exatamente parte da História". "O hino diz o que o país foi e o que pode ser, faz jus à nossa História, que tem virtudes e defeitos, e tem uma componente respetiva aquilo que nos gostávamos e queríamos ser e acho que vale a pena concentrarmo-nos naquilo que gostávamos e queríamos ser".

O antigo deputado centrista afirma não querer que uma parte da História se repita, "mas que isso pressupõe pensar para a frente", "para que aqueles que vêm a seguir a mim possam ter menos dificuldades que as que eu tive e isso é que acho que é relevante, não mudar o hino". "Estas coisas fazem-se com bom senso, moderação e tentanto fazer pontes, sem nunca ter a coragem de apontar os problemas", salienta. Hélder Amaral não vê qualquer mais-valia em mudar o hino, considerando que os problemas que atualmente afetam a comunidade africana ou a comunidade estrangeira, no seu todo, em Portugal, não seriam resolvidos com essa alteração. 

"Mas há uma certa tendência, e eu falo também como africano, de algo que não me parece bem que é um pouco esse sentimento, que não sei se está nas intenções do Dino, mas tem estado nas intenções de intervenções iguais às do Dino, que é fazer um ajuste com a História. Eu não quero fazer um ajuste com a História", remata.

Carmo Afonso, advogada

"Pouco nos prende àquelas palavras"

É de História que falamos e para a advogada Carmo Afonso as mudanças também a constroem. "Mudámos o nome da ponte para 25 de Abril, as mudanças também fazem a História", afirma à CNN Portugal.

"A letra do nosso hino incita à guerra e à atitude bélica. Não vejo que nos represente e também não vejo que contenha os valores fundamentais que valorizamos e que queremos passar às novas gerações. Pouco nos prende àquelas palavras", considera.

Sobre os comentários negativos à iniciativa, Carmo Afonso afirma: "li as críticas que fizeram ao Dino e à sua argumentação e o que tenho a dizer é: contra elas, marchar, marchar!".

Francisco Geraldes, jogador de futebol 

"O hino é apenas mais um exemplo dos muitos que temos do legado colonial, mas não o problema estrutural em si"

No futebol, nos jogos da seleção nacional, o hino une jogadores e os milhões de adeptos, antes do apito inicial. Fora das quatro linhas, o jogador do Estoril Praia Francisco Geraldes considera que mudar o hino é "uma questão que pode e deve ser discutida" e, em declarações à CNN Portugal, explica porquê: "não há nada de honroso, orgulho ou nobreza no que ao colonialismo diz respeito". "É uma história de escravatura, tortura, barbárie… enfim, uma história de horror", sublinha.

Porém, no que ao colonialismo diz respeito, Francisco Geraldes demonstra uma maior preocupação com "a forma como a História é ensinada" porque "se fosse contada como ela realmente aconteceu, ou seja, à luz da sua materialidade, acredito que, num futuro próximo, tivesse como consequência uma discussão séria e uma preocupação real com o hino".

"Diria que o hino é apenas mais um exemplo dos muitos que temos do legado colonial, mas não o problema estrutural em si. É um dos sintomas, mas não é a doença. Nesse sentido, o olhar crítico deve ser para o problema estrutural em si", completa.

Francisco José Viegas, escritor e editor

"Fomos aquilo, 'heróis do mar, e tal', não quero que me fabriquem um passado diferente"

À pergunta se devemos ou não mudar de hino, o escritor e editor Francisco José Viegas responde de forma perentória: "Não acho bem". Contactado pela CNN Portugal, Francisco José Viegas olha para o momento em que vivemos como uma "época vendaval, em que há certas cabeças que querem olhar, julgar e desvalorizar as coisas do passado com o óculo do presente, o que me parece um erro tremendo".

O autor, que foi secretário de Estado da Cultura do governo social-democrata liderado por Pedro Passos Coelho, nota que "os hinos, em geral, são canções estapafúrdias e herdeiras dos nacionalismos românticos dos séculos XVIII e XIX – e não variam muito. Com muito poucas excepções, as partes mais heróicas são de feição militar". 

No caso de “A Portuguesa”, em concreto, a canção tem "um contexto histórico muito específico, que não tem a ver com o nosso (é contemporânea do Ultimatum, do republicanismo de rua, da exaltação patriótica, etc.), mas que foi identificando os portugueses ao longo do tempo, que por seu lado foram compreendendo e contextualizando aquelas referências". "Aquele 'marchar, marchar' é uma incitação metafórica, nem acho mal. E sim, fomos aquilo, 'heróis do mar, e tal', não quero que me fabriquem um passado diferente", completa. 
 

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