Foi a primeira mulher a escalar dois picos de 8.000 metros em 24 horas. Agora, a “montanha assassina” tirou-lhe a vida

CNN Portugal , DCT
28 set, 13:11
Hilaree Nelson (Instagram)

Para Hilaree Nelson, escalar e esquiar a montanha Manaslu era apenas mais um dos muitos desafios a que se propôs nos últimos quase 30 anos, mas uma avalanche arrastou-a para o seu fim. O corpo foi encontrado esta quarta-feira

“É a alpinista de esqui mais prolífica da sua geração.” Era assim que o seu patrocinador, a The North Face, descrevia a norte-americana Hilaree Nelson. O seu currículo falava por si, a experiência trazia-lhe os resultados. Segundo a imprensa do seu país, Hilaree Nelson era uma pioneira e um modelo para a nova geração de alpinistas - começou a sua carreira ainda nos anos 90 e foi conquistando desafios atrás de desafios. Foi a primeira mulher a escalar dois picos de 8.000 metros - Evereste e Lhotse - num único período de 24 horas, em maio de 2012, e a primeira atleta de sempre a esquiar todos os cinco ‘Picos Sagrados’, nas montanhas Altai, na Ásia Central. Fez a primeira descida de esqui da Dream Line (do cume), Lhotse Couloir, no Nepal, em 2018, ano em que foi nomeada capitã da The North Face Athlete Team. 

Mas uma avalanche tirou-lhe a oportunidade de somar mais uma conquista. Hilaree estava desaparecida desde segunda-feira depois de ter sido apanhada por uma avalanche na montanha Manaslu, no Nepal - conhecida por quem lá mora como a “montanha assassina”. A alpinista estava a escalar a oitava maior montanha do mundo, mas, assim que chegou ao cume (a 8.163 metros de altitude), caiu numa fenda de gelo com mais de 600 metros de profundidade. Após dois dias de buscas, a notícia menos desejada chegou: Hilaree Nelson, de 49 anos, foi encontrada sem vida, esta quarta-feira.

A própria atleta, apesar da sua vasta experiência - Hilaree começou a esquiar com apenas três anos -, já tinha dado conta das dificuldades que sentia naquele que, para muitos, era apenas mais um desafio que iria superar sem qualquer dificuldade. “Estas últimas semanas testaram a minha resiliência de novas maneiras. A monção constante com a sua chuva e humidade incessantes deixou-me desesperadamente com saudades de casa. Sou desafiada a encontrar a paz e a inspiração da montanha quando ela está constantemente envolta em névoa”, escreveu há seis dias numa publicação no Instagram. 

O seu marido e também esquiador, James Morrison, estava presente e conseguiu descer a montanha para pedir ajuda, conta a ABC. Mas o mau tempo fez com que fossem necessários dois dias e três equipas de resgate até que o corpo fosse recuperado e identificado. 

“O corpo estava gravemente danificado”, disse o capitão Surendra Poudel da Simrik Air, citado pelo Washington Post. “Demorou uma hora e meia para recuperar o corpo, que estava meio enterrado na neve”.

Hilaree Nelson com o marido James Morrison, em 2018 (AP Photo/Niranjan Shrestha, File)

A alpinista era vista por muitos como um ídolo, sobretudo pelas suas conquistas, mas também por lutar pelos direitos das mulheres. Numa publicação feita em 2019, Nelson disse que participou numa expedição enquanto grávida de seis meses e que sofreu cortes salariais porque, para uma alpinista de elite, “estar grávida era tratado como uma lesão”.

Desde o anúncio da morte de Hilaree multiplicam-se as mensagens de condolência nas redes sociais, como fizeram a atleta brasileira Fernanda Maciel, o alpinista Sajid Ali Sadpara e o jornalista e equiador Bhadra Sharma.

 

Hilaree Nelson deixa dois filhos e James Morrison vive agora a sua segunda maior perda. Em 2011 já tinha perdido a primeira mulher e os dois filhos pequenos num acidente aéreo.

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