Hienas devoradoras de ossos limpam as ruas urbanas na Etiópia
Todas as noites, Abbas Yusuf atravessa as antigas muralhas da cidade sagrada de Harar, na Etiópia, e começa a chamar os animais pelo nome.
Kamariya, “como a lua”. Chaltu, “refinada”. E a sua favorita, Jarjaraa, “a apressada”.
Uma hiena-malhada sai da escuridão e pega numa tira de carne de um pau que ele segura entre os dentes.
Para Abbas, estes carnívoros são visitantes bem-vindos. “Eu preparo a carne”, diz, na sua língua nativa, o oromo. “E os convidados que chegam, cuido deles e despeço-me deles em paz”.
Abbas Yusuf é um dos últimos “homens-hiena” de Harar, mantendo a tradição de alimentar um dos predadores mais temidos de África, mesmo dentro da sua casa.
Tornou-se uma espécie de atração, com visitantes a pagarem para ver as refeições noturnas e tirarem fotos de perto com os animais selvagens.
Caçadoras noturnas com um “riso” que soa sinistro, as hienas ganharam reputação mundial como as vilãs da savana. Mas na Etiópia, novas investigações sugerem que as hienas poderiam ajudar a resolver o problema dos resíduos urbanos do país, melhorar a saúde pública e até mesmo ajudar na luta contra as alterações climáticas.
Recolhedores de resíduos que comem ossos
A norte de Harar, em Mekelle, capital da região de Tigray, o especialista em ecologia da vida selvagem Gidey Yirga estuda hienas urbanas há mais de 15 anos.
Yirga explica que as hienas têm um “comportamento muito flexível”: vivendo em grandes sociedades matriarcais, caçam e criam frequentemente as suas crias de forma cooperativa. São predadores formidáveis e podem recorrer à necrofagia quando surge a oportunidade.
À medida que África se torna cada vez mais urbana, as hienas e outros animais selvagens aproximam-se da vida humana, especialmente dos aterros sanitários. Quando a noite cai em Mekelle, as hienas selvagens “deslocam-se” das suas tocas subterrâneas nos arredores para os aterros da cidade.
Um estudo recente liderado por Gidey Yirga na Universidade de Sheffield e na Universidade de Mekelle descobriu que os necrófagos urbanos em Mekelle - desde hienas a abutres e cães vadios - processam quase 5 mil toneladas métricas de resíduos orgânicos por ano, poupando à Câmara Municipal 100 mil dólares em custos de eliminação de resíduos. As hienas-malhadas fazem 90% do trabalho.
Numa cidade com uma recolha de resíduos irregular, os seus serviços de limpeza reduzem as emissões de carbono resultantes da decomposição de resíduos orgânicos e reciclam os nutrientes da carne que sobrou e que, de outra forma, apodreceria nas bermas das estradas. De acordo com outro estudo de Gidey Yirga, elas também impedem a propagação de doenças mortais como o antraz e a tuberculose bovina.
Estes “serviços ecossistémicos” são bem recebidos pelos residentes, com 72% das mais de 400 famílias entrevistadas pelos investigadores a considerarem as hienas e outros necrófagos como benéficos.
“Os necrófagos urbanos beneficiam dos resíduos que os residentes deitam fora, e os residentes locais beneficiam dos serviços de limpeza de resíduos prestados por estas espécies”, diz Gidey Yirga à CNN. “É uma interação mutualista”.
Gidey Yirga explica que, embora a coexistência seja geralmente pacífica, a guerra de Tigray de 2020-2022 tensionou a relação: como as hienas tinham menos para se alimentar, as que se encontravam perto dos locais de combate caçavam mais gado e alimentavam-se de restos mortais humanos. Muitas pessoas deslocadas internamente ainda vivem em campos superlotados nos arredores de Mekelle, o que as deixa vulneráveis a ataques de hienas.
Num estudo anterior realizado em quatro cidades etíopes, Gidey Yirga descobriu que as perceções das pessoas sobre as hienas variam muito. Enquanto que, em Mekelle, são respeitadas como limpadoras, na cidade de Arba Minch, no Sul, são vistas como “animais incómodos” e em Harar - terra dos homens-hiena - são reverenciadas.
Os homens-hiena
A cidade velha de Harar, classificada pela UNESCO, tem sido um local de coexistência entre humanos e hienas há pelo menos 500 anos.
As suas muralhas do século XVI foram erguidas com várias pequenas aberturas na base, conhecidas pelos locais como “waraba nudul” - buracos de hiena. À noite, os animais atravessam a muralha em bandos para se alimentarem da carne descartada pelos talhantes locais.
O que começou como uma forma de prevenir ataques ao gado e às pessoas, mantendo as hienas alimentadas, transformou-se na tradição dos homens-hiena, que as alimentam com as mãos e pela boca.
Abbas Yusuf aprendeu a prática com o seu pai - Yusuf Mume Salleh -, que começou a alimentar as suas vizinhas hienas na década de 1950 para as manter afastadas das suas cabras.
“Eu preparava a carne todos os dias”, conta Abbas à CNN. “Quando o meu pai as alimentava, eu observava. Depois disso, deixei de ter medo delas”.
Tinha sete anos quando começou e assumiu o trabalho do pai aos vinte e poucos anos.
Marcus Baynes-Rock, um antropólogo que passou anos a estudar esta coexistência e mais tarde escreveu “Among the Bone Eaters”, observou o ancião Yusuf Mume Salleh e o seu filho a trabalhar.
“Ele não os via apenas como animais. Via-os como indivíduos com personalidades diferentes e posições distintas na sociedade das hienas”, diz Baynes-Rock à CNN.
Marcus Baynes-Rock explica que a relação foi construída lentamente, à medida que se habituavam à presença um do outro. Yusuf não os treinou no sentido tradicional, mas aprendeu a interpretar o comportamento, a hierarquia e o temperamento de cada um.
Por sua vez, as hienas passaram a reconhecer o pai e o filho que as alimentavam, e os nomes que lhes deram. Humanos e hienas estavam a adaptar-se uns aos outros, numa relação mutuamente benéfica, com um a ganhar a vida com turistas curiosos e o outro a garantir uma refeição.
“As hienas iam e vinham à vontade”, escreveu Marcus Baynes-Rock na sua tese de doutoramento, e “nas noites em que não havia turistas, as hienas continuavam a ser alimentadas”.
Ao contrário do que acontece noutras cidades etíopes, os residentes de Harar veem as hienas como purificadoras espirituais, tanto quanto ecológicas. Acredita-se que elas consomem jinn, espíritos malévolos na tradição islâmica. “As pessoas sentem-se mais seguras na cidade”, diz Marcus Baynes-Rock, “porque as hienas estão a afugentar os jinn”.
Em harari, a língua local falada por menos de 30 mil pessoas, as hienas são conhecidas como “waraba”, que significa “mensageiro”, e acredita-se que transmitem mensagens do mundo espiritual.
Reescrevendo um vilão
Por toda a África, o habitat da hiena-malhada está a diminuir. À medida que quintas e estradas atravessam o seu território, as hienas passam a caçar gado, e os agricultores voltam-se contra elas.
Capturadas em armadilhas, envenenadas e abatidas em retaliação aos ataques ao gado, as suas populações estão a diminuir fora das áreas protegidas, apesar de uma distribuição geográfica ampla e de uma população que conta com entre 27 mil e 47 mil indivíduos.
Para os seus três parentes mais próximos - as hienas-listradas, as esquivas hienas-castanhas e os lobos-da-terra - o declínio é ainda mais alarmante.
São frequentemente vistas como pragas perigosas e o Grupo de Especialistas em Hienas da IUCN identificou a sua reputação negativa como uma ameaça direta à sua sobrevivência.
O medo das hienas tem raízes profundas. Os seres humanos e as hienas têm competido pelas mesmas carcaças desde que os nossos antepassados começaram a comer carne, há pelo menos 2,5 milhões de anos, diz Marcus Baynes-Rock. O antropólogo acrescenta que a cultura moderna perpetuou esse preconceito, como se vê no clássico de animação da Disney ‘O Rei Leão’ e na sua representação de bandos de hienas maliciosas e risonhas.
Na Etiópia, “as pessoas não veem as hienas apenas através de uma única lente”, explica Marcus Baynes-Rock. “Pode-se dizer que um animal é perigoso, mas também se pode vê-lo como benéfico”.
Os necrófagos urbanos em todo o mundo, desde guaxinins e corvos na América do Norte, até cegonhas-ajudantes na Índia e os íbis brancos da Austrália, apelidados de “galinhas do lixo” - continuam a ser vistos como pragas incómodas.
No entanto, muitos desempenham papéis cruciais nos ecossistemas urbanos que partilhamos. Os necrófagos “de topo”, como hienas e abutres, são desproporcionalmente perseguidos devido ao seu tamanho e reputação, e o seu declínio ameaça a saúde humana a nível global.
“Criamos condições para que os animais sejam necrófagos”, diz Marcus Baynes-Rock. “Mas, na ausência de interferência humana, eles simplesmente fazem coisas maravilhosas no ambiente”.
Tal como a sua própria investigação, Gidey Yirga argumenta que, para mudar a reputação global dos necrófagos urbanos, precisamos de mostrar o seu valor, “através dos meios de comunicação social, documentários, programas escolares e no planeamento urbano. Proporcionar-lhes um local seguro”.
Em Harar, a expansão em torno da cidade velha murada continua a crescer, bloqueando muitas das rotas e espaços que as hienas utilizam e ameaçando a antiga coexistência.
Perto do terreno baldio onde Abbas Yussuf as alimenta, o Governo está a capitalizar esta relação única, construindo um “ecoparque”, com lojas e um museu onde os turistas podem assistir à alimentação num ambiente mais controlado.
Gidey Yirga salienta que uma habituacão excessiva aos humanos pode fazer com que as hienas percam a sua cautela natural, aumentando os ataques a humanos e ao gado e, por sua vez, tornando-as mais vulneráveis a retaliações.
Ainda assim, Abbas Yussuf não está preocupado que a tradição acabe. “Esta alimentação vai passar de geração em geração”, confia. “Estou a trabalhar para a transmitir ao meu filho de uma forma bonita”.
