O Presidente da República foi operado a uma hérnia de Spiegel e está "tudo bem". Trata-se de um dos vários tipos de hérnias existentes. E, apesar de serem uma patologia dita benigna, as hérnias "têm um potencial de complicações sérias"
A hérnia de Spiegel é uma hérnia da parede abdominal muito rara. Marcelo já teve "uma hérnia umbilical, já teve duas hérnias inguinais e agora teve uma hérnia de Spiegel", "só lhe falta uma hérnia gástrica para ter todo o catálogo das hérnias abdominais", diz à CNN Portugal António Albuquerque, médico de cirurgia geral.
O que é uma hérnia?
O termo hérnia significa "protusão", ou seja, o deslocamento de algo através de um espaço para fora da sua posição normal, explica António Albuquerque. "Por exemplo, uma hérnia discal é a protusão de um disco entre as vértebras da coluna e é algo que desse disco sai para fora e vai comprimir uma raiz nervosa, por exemplo. Mas isto é diferente, apesar de o princípio ser o mesmo, de uma hérnia perineal [na região do períneo]. Existe também a hérnia do hiato, que é um orifício que se localiza dentro do abdómen, num espaço onde passa o esófago, que vai do tórax para o abdómen", explica. "Portanto, uma hérnia obriga sempre a que haja algum defeito, alguma fraqueza, em que, através de um orifício, algo passa que não devia passar", conclui António Albuquerque.
As hérnias da parede abdominal não são todas iguais
Pode haver "uma ruptura do invólucro que é a parede abdominal e por esse orifício, o conteúdo intra-abdominal - portanto as vísceras intra-abdominais ou a gordura abdominal - pode querer sair cá para fora". As hérnias na parte posterior da parede abdominal, ou seja, região lombar, são muito raras. Não só a coluna vertebral e os músculos lombares criam um bloco mais rígido que evita protusões, como existem menos vísceras móveis nessa região. Já na parte anterior da parede abdominal, ou seja, na frente, existem locais mais frágeis - ao longo de toda a chamada "linha branca" (linha vertical que atravessa o abdomen) e as hérnias podem acontecer mais acima (mais raramente), na zona do umbigo ou na zona inferior. As mais comuns são as hérnias umbilicais e as hérnias inguinais (na zona da virilha). A hérnia de Spiegel fica localizada lateralmente, na região entre o umbigo e a zona da bacia - e é uma condição muito rara.
Que vísceras podem dar origem a hérnias?
E que vísceras é que temos? "Temos várias, algumas que dificilmente sairão, como é o caso do fígado ou o do baço, mas aqueles órgãos mais móveis como o intestino delgado, intestino grosso ou mesmo a gordura visceral podem intermeter-se nesses orifícios que não deviam existir". Geralmente, a pessoa deteta que tem uma hérnia "porque nota na sua imagem corporal que há um alto, que há um papo, por assim dizer, na região das virilhas ou do umbigo, por exemplo, e procura ajuda médica". "Mesmo que não haja outro tipo de queixas, perante o diagnóstico de uma hérnia da parede abdominal será sempre proposto, caso não haja risco associado, o tratamento cirúrgico, porque a cirurgia é a única forma de tratar as hérnias da parede abdominal."
O que é uma hérnia encarcerada?
"Há situações em que o conteúdo que passou através desse orifício não conseguiu recolher espontaneamente para dentro da cavidade abdominal e fica aprisionado cá fora, no orifício", explica o médico António Albuquerque. Essa situação "pode levar a queixas como dor ou até obstrução intestinal, caso seja intestino que se intromete dentro desse orifício, ou então, se porventura o orifício é já mais apertado e aquele conteúdo começa a inchar, vai comprometer uma fase inicial de irrigação sanguínea e esse segmento que está aprisionado vai gangrenar. E esse é que é o grande problema. Se houver uma gangrena do conteúdo que está aprisionado numa hérnia encarcerada passamos a designá-la como uma hérnia estrangulada, que obriga, na maior parte das vezes, a ter de retirar aquilo que estiver lá gangrenado." Se for o intestino delgado ou o intestino grosso, o que se faz é cortar a parte que tem gangrena e voltar depois a ligar o intestino. Portanto, apesar de serem uma patologia dita benigna, como diz o cirurgião, as hérnias "têm um potencial de complicações sérias que convém evitar e evita-se precisamente através de, a partir do momento em que é feito o diagnóstico, ser proposto o tratamento cirúrgico".
Como é que se pode prevenir uma hérnia abdominal?
Há circunstâncias que não se conseguem evitar, avisa o médico. "Há pessoas que têm uma fraqueza da parede abdominal porque têm na sua constituição uma diminuição do colagénio, que existe no tecido conjuntivo, que é o tecido de suporte das mais variadas estruturas do nosso organismo. Nessas situações em que houver uma diminuição do colagénio, existe uma fraqueza maior da parede abdominal. E, portanto, aí não podemos evitar", diz António Albuquerque. Mas há outros cuidados que podemos ter - sobretudo se se souber que existe essa condição prévia. A prevenção passa sempre por evitar o aumento da pressão intra-abdominal, explica o cirurgião.
1. Evitar fazer esforços físicos violentos que levem a que uma estrutura que já de si é frágil possa romper e dar origem a uma hérnia. "Quando nos preparamos para um esforço físico violento, a nossa tendência é inspirar fundo para nos prepararmos para o esforço. Essa inspiração profunda faz descer o músculo que é o diafragma, empurrando as vísceras e fazendo pressão no abdómen. Se eu tiver uma zona de fraqueza na parede, vou ter ali uma maior propensão para que algo rebente."
2. Evitar situações de obstipação: as pessoas que têm uma tendência para a obstipação muitas vezes acabam por fazer mais esforço para poder evacuar e esse esforço também aumenta a pressão intra-abdominal.
3. Prevenir a obesidade: o aumento da gordura visceral causa mais pressão na parede abdominal e a gordura pode empurrar alguma víscera para fora. "Sabemos que temos quase 70% da população portuguesa com excesso de peso e obesidade. Portanto, é importante lembrar que fazer uma alimentação saudável e ter um estilo de vida saudável são fundamentais para podermos evitar aqui a ocorrência de hérnias", alerta António Albuquerque.
Tenha atenção a estas situações
Quem tiver uma idade avançada e se tiver um síndrome gripal e com muita tosse ou espirros, então esse esforço pode levar a uma contração rápida e também leva a que possa algo rebentar, avisa o médico. Também as grávidas estão mais vulneráveis à ocorrência de hérnias, uma vez que à medida que o feto cresce aumenta a tensão intra-abdominal.
As hérnias podem ser um indício de outra doença
Sem querer ser alarmista, António Albuquerque esclarece que "às vezes as hérnias acabam por também ser o indício de que algo paulatinamente vem crescendo dentro do abdómen, ocupando espaço e, com o tempo, diminuindo o espaço para outras vísceras lá conviverem". Ou seja, pode ser um tumor que está a aumentar e consequentemente a fazer subir a pressão intra-abdominal que está na origem de uma hérnia.