O objetivo não passa apenas por preservar as experiências e vidas dos mais velhos, mas também fazê-los "viver para sempre"
Por todo o continente africano, há um ditado comum: "Quando um ancião morre, uma biblioteca arde até ao chão". Para o artista e realizador nigeriano Malik Afegbua, esta perda não é apenas uma metáfora. Em declarações à CNN, admitiu desconhecer a aparência do seu bisavô, acrescentando não ter qualquer história sobre ele.
O realizador lamentou a situação, sublinhando que "não há dados, não há biblioteca".
Afegbua lançou o LegacyLink, um projeto que não visa apenas preservar as experiências e vidas dos mais velhos um pouco por todo o continente, mas sim fazê-los "viver para sempre".
O artista tem entrevistado anciãos sobre o seu percurso, gravando as histórias, captando vídeos e fazendo digitalizações em três dimensões das heranças familiares, como máscaras e tambores. Com estes dados, espera criar "gémeos digitais" dos mais velhos e exibi-los sob a forma de hologramas em espaços públicos, como aeroportos. Deste modo, as pessoas poderão interagir com eles, com a Inteligência Artificial (IA) a dar vida às respostas.
O resultado final dará a sensação de "que alguém está de pé à nossa frente, a conversar connosco", antecipa Afegbua. Os utilizadores poderão fazer perguntas aos anciãos digitais sobre as suas vidas e experiências, com a tecnologia a gerar uma resposta com base nas entrevistas realizadas a essa pessoa. O criador planeia ainda desenvolver um assistente virtual online, para tornar o projeto o mais acessível possível.
A iniciativa ainda se encontra numa fase inicial. Afegbua revelou ter entrevistado 15 pessoas na Nigéria, estando previstas mais 30 conversas, que se estenderão ao Quénia e aos Camarões. O seu objetivo é entrevistar mil pessoas até 2028.
O promotor pretende que o projeto final esteja disponível no maior número de idiomas possível, garantindo estar a recorrer a traduções humanas, uma vez que "a IA não compreende certas línguas, nem o que certos matizes podem significar".
Numa fase inicial, alguns dos intervenientes mostraram-se hesitantes. Quando foi entrevistar um grupo em Ikorodu, no estado de Lagos, os locais disseram-lhe que os seus antepassados tinham transmitido a ordem de nunca partilhar aquelas histórias.
Afegbua levou uma apresentação de diapositivos para explicar o conceito aos mais velhos, garantindo que, após a exibição, o grupo "ficou entusiasmado, intrigado e com vontade de aprender".
O artista apresentou aos anciãos os grandes modelos de linguagem "para os ajudar a compreender como a IA pode auxiliar na narração de histórias, na evocação de memórias e na estruturação de ideias".
Mostrou-lhes também como a tecnologia pode ser utilizada com fotografias, vídeos e gravações de áudio dos seus telemóveis para ajudar a "aperfeiçoar histórias, gerar transcrições, expandir memórias em narrativas escritas ou estruturar conteúdos de forma a poderem ser partilhados de forma mais ampla".
As entrevistas centraram-se inicialmente na "vida normal", antes de os convidados começarem a ser questionados sobre as experiências individuais, de forma a descobrir "o que realmente aconteceu numa determinada época".
O responsável admitiu ter sido cauteloso ao abordar temas sensíveis como a Guerra Civil da Nigéria (entre 1967 e 1970). Recordou que a maioria hesitou, com algumas pessoas a dizer abertamente que não queriam falar sobre o assunto. Afegbua tem planos para "abordar a guerra diretamente" através de entrevistas com pessoas afetadas a nível pessoal, mas nota que "o trauma ainda está muito presente", rematando com uma garantia: "Nunca forçamos".
Trazer de volta cidades perdidas
Malik Afegbua já tinha atraído a atenção internacional com outro projeto focado na terceira idade. No seu trabalho de 2023, intitulado "The Elders Series", utilizou a IA para gerar imagens de idosos africanos em desfiles de moda.
Enquanto o LegacyLink procura preservar o conhecimento de pessoas vivas, Afegbua está também a trabalhar num projeto visual para restaurar o passado, recorrendo à tecnologia para recriar locais de património africano que se perderam, foram destruídos ou já não se encontram acessíveis.
Para o projeto ReMemory, o artista baseia as suas recriações digitais em registos históricos e estudos académicos. Concluído o trabalho, os utilizadores poderão navegar pelos locais no telemóvel ou no computador, bem como através de realidade virtual.
A ideia surgiu de um projeto que realizou nos poços de tinturaria de Kofar Mata, em Kano, na Nigéria, que funcionam há cinco séculos e tornaram a cidade famosa pelos seus tradicionais tecidos tingidos de índigo. A insegurança na região faz com que algumas pessoas evitem deslocar-se ao local, revelou Afegbua. Como tal, criou um filme em realidade virtual sobre as fossas tradicionais, "para o caso de a tradição desaparecer".
O primeiro passo passa por reconstruir virtualmente as muralhas da cidade histórica do Benim. Construídas entre os séculos VII e XIV, estas estruturas de terra com 18 metros de altura circundavam a cidade, na atual Nigéria, ao longo de mais de 1.200 quilómetros. Embora restem algumas secções, a maior parte das muralhas encontra-se em ruínas.
Apesar de existirem diagramas e descrições das paredes, há lacunas nos registos históricos, mas o artista assegura estar a tentar chegar "o mais perto possível" da realidade.
Embora ambos os projetos tenham ainda um longo caminho a percorrer, alimentam a missão de Afegbua de utilizar a IA para "restaurar línguas, artefactos, símbolos", com o objetivo de que o público possa "realmente experienciar tudo isso".
