Portugal com 12 casos suspeitos de hepatite aguda em crianças. "Alguns são casos antigos, olhados com outros olhos"

18 mai, 14:09
Criança doente.

Autoridades de saúde nacionais estão a rever casos antigos que possam enquadrar na definição da hepatite aguda infantil de origem desconhecida. Nenhum caso foi confirmado até ao momento em Portugal, diz o coordenador do Programa para as Hepatites Virais

As autoridades de saúde nacionais registaram até terça-feira, 17 de maio, 12 casos suspeitos de hepatite aguda de origem desconhecida em crianças, disse à CNN Portugal Rui Tato Marinho, coordenador do Programa Nacional para Hepatites Virais da Direcção-Geral da Saúde (DGS). 

Todos os casos estão em investigação e não houve nenhum confirmado até agora, assinalou o especialista, acrescentando que foram diagnosticados em crianças com menos de cinco anos, em linha com a tendência da grande maioria dos casos que se têm verificado no resto do mundo. 

O número de casos suspeitos em Portugal "não tem subido muito", refere Tato Marinho, explicando também que o aumento de casos em investigação se deve ao facto de os especialistas estarem "a olhar para trás", pelo menos até outubro do ano passado: a DGS considera casos suspeitos todas as hepatites agudas em crianças até aos 16 anos e que não têm origem nos vírus A, B, C, D e E, com as enzimas do fígado em valores acima de 500. "Alguns são casos antigos olhados com outros olhos", acrescenta o coordenador do Programa Nacional para Hepatites Virais da DGS.

Falando sobre as hipóteses de trabalho dos cientistas que, nesta altura, procuram perceber as causas destas hepatites infantis, cuja origem permanece desconhecida, Tato Marinho destaca a possível infeção por adenovírus e também a sua interação com o SARS-CoV-2, "não só em termos de coinfeção mas também das alterações que os vírus podem ter". E sublinha que ainda é preciso maior informação sobre as consequências que "o confinamento e as máscaras terão provocado na imunidade das crianças".

As hipóteses em cima da mesa

Num estudo publicado recentemente na revista Lancet, na área da Gastrenterologia e Hepatologia, os investigadores referem que um superantigénio do SARS-CoV-2 pode estar relacionado com os casos de hepatite aguda que já foram identificados em 22 países do mundo, num total de 429 casos reportados até esta terça-feira, revelou a OMS.

De acordo com a Lancet, 72% das crianças testadas no Reino Unido, que foram diagnosticadas com hepatite aguda, tinham tido uma infeção prévia com um adenovírus, sendo que grande parte delas tinha a presença do subtipo 41F (conhecido por inflamações gástricas) e que os investigadores definem como comum, sendo que “afeta predominantemente jovens, crianças e doentes imunossuprimidos”.

Adicionalmente, a presença da covid-19 foi sinalizada em 18% dos casos britânicos. "Testes serológicos que se encontram a decorrer devem aumentar o número de crianças com hepatite aguda e uma infeção prévia ou atual por covid-19”, acrescenta o estudo, que assinala que a grande maioria dos casos de hepatite aguda atípica foram detados em crianças sem idade suficiente para receberem a vacina que protege do SARS-CoV-2.

“A infeção por covid-19 pode resultar na formação de um reservatório viral”, indicam os investigadores, acrescentando que “uma persistência viral do SARS-CoV-2 no trato gastrointestinal pode levar  a uma subida da ativação imunitária”, que, no caso, “pode ser medida por um superantigénio presente na proteína spike do SARS-CoV-2.

No fundo, algo semelhante ao que acontece quando ocorre a Síndrome Inflamatória Multissistémica (MIS-C), identificada em crianças após a recuperação da covid-19. Neste caso, dá-se uma ativação das células do sistema imunitário por ação de um superantigénio, que acaba por desencadear uma reação autoimune. E se esse reservatório viral for depois exposto a um adenovírus, a reação imunitária pode ser ainda maior, o que leva a uma reação anormal do corpo, exatamente aquilo que se verifica nesta hepatite aguda atípica. 

Cães, paracetamol ou adenovírus?

Para além desta hipótese mais recente, que chega mesmo a ligar o adenovírus ao SARS-CoV-2, os investigadores têm a decorrer várias linhas de investigação, todas ainda por provar, e algumas na sequência dos questionários feitos às famílias das crianças doentes.

No relatório técnico dos peritos britânicos que têm liderado a investigação europeia, publicado no início do mês de maio, refere-se, por exemplo, que um elevado número das crianças com hepatite aguda tinha contacto com cães: cerca de 70% das famílias declarou que tinha um cão, o que é comum no Reino Unido. "O significado desta descoberta está a ser explorado", sublinha o documento.

Os cães têm os seus próprios adenovírus, que podem causar doença respiratória ou hepatites, mas não existe informação de que estes consigam infetar humanos. E os próprios casos diagnosticados em crianças até agora não sugerem qualquer ligação entre as crianças doentes, assim como a distribuição dos casos não demonstra que se trate de um novo vírus transmitido dos cães aos mais pequenos.

Cerca de três quartos dos inquiridos também mencionou o uso de paracetamol, mas menos reportaram a utilização de ibuprofeno e nenhum referiu o uso de aspirina. "Enquanto o paracetamol é um importante agente hepatotóxico em overdose, não há relatos de apresentações hepatotóxicas de paracetamol ou casos em qualquer uma das unidades clínicas", refere o relatório dos peritos britânicos, que parece afastar o paracetamol como causa dos danos no fígado.

No que diz respeito aos agentes patogénicos detetados, os peritos referem o adenovírus como o mais comum. "Numa revisão de alguns dos casos em que os testes para adenovírus foram negativos, tornou-se aparente que vários não foram testes sanguíneos e a testagem retrospetiva adicional está a ser explorada", refere-se. 

Mas o adenovírus não está normalmente associado a inflamações hepáticas. "Há vários tipos de adenovírus e podem infetar diversos órgãos com patologias muito diferentes", explicou Celso Cunha, virologista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, à CNN Portugal. "As patologias mais frequentes, porém, são as do trato respiratório", acrescenta o especialista, que admite alguma estranheza em relação à possibilidade de ser um adenovírus a causar esta doença hepática grave em idade pediátrica.

A possibilidade de ter havido uma alteração genética de uma estirpe do adenovírus, por exemplo, pode ser colocada, admitia Celso Cunha, alertando porém para a fraca capacidade de mutação dos adenovírus e referindo que a causa da gravidade da doença poderia não ser só o vírus mas um sistema imunitário mais débil, causado pelos confinamentos impostos pela pandemia de covid-19.

Investigações com "importantes progressos"

Em conferência de imprensa a 10 de maio, a investigadora do programa global de hepatite da Organização Mundial de Saúde, Philippa Easterbrook, admitia "importantes progressos com as investigações" que têm sido lideradas pelo Reino Unido - onde têm sido reportados mais casos - explicando que os estudos têm incidido sobre a genética e a resposta imunitária das crianças e sobre vários vírus. 

“No presente, a hipótese mais forte continua a envolver um adenovírus”, admitiu  a especialista. Uma vez que se trata de uma “hepatite de etiologia desconhecida”, a Organização Mundial da Saúde garantiu que está a dar "prioridade absoluta" à investigação desta doença.

Segundo os dados mais recentes, divulgados na terça-feira, o número de casos de hepatite infantil aguda de origem desconhecida aumentou para 429, indicou a OMS, acrescentando que seis crianças morreram e 26 necessitaram de um transplante de fígado.

De acordo com a OMS, foram reportados mais 81 casos do que há uma semana, com a maioria das situações a ocorrer na Europa. Três em cada quatro crianças afetadas têm menos de cinco anos e 15% dos menores doentes estiveram em cuidados intensivos.

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