"Foi como a preparação para uma guerra". Como Portugal tem lidado com a hepatite aguda infantil, cujo mistério da origem continua por resolver

28 jun, 07:00
Criança doente.

Dos casos suspeitos relatados em Portugal, dois foram considerados graves, mas ainda não houve crianças a necessitar de transplante

A Direção-Geral da Saúde (DGS) atualizou esta segunda-feira para 17 os casos suspeitos de hepatite aguda infantil, uma doença viral cuja causa ainda é desconhecida. O primeiro caso foi detetado a 28 de abril, precisamente há dois meses, dia que coincidiu com a criação de uma task-force para acompanhar o caso, e que tem especialistas do Programa Nacional para as Hepatites Virais (PNHV) e da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP).

A representar a SPP está Isabel Gonçalves, médica pediatra que explica à CNN Portugal que os 17 casos foram sinalizados em crianças dos cinco meses aos 15 anos. A especialista evita a expressão casos suspeitos, falando antes em "casos prováveis", até porque, como refere, "a etiologia da doença ainda não é conhecida, pelo que todos os casos são prováveis".

A incidência é maior nas idades mais baixas, sendo que 80% das crianças identificadas em Portugal têm menos de cinco anos. É por isso que existe um cuidado redobrado, o que leva a taxa de hospitalização para perto dos 70%.

"São crianças muito pequenas, com valores díspares, com hepatite considerada severa", afirma. Ainda no caso português, diz a pediatra, duas crianças desenvolveram casos mais graves, ainda que não tenha existido necessidade de transplante: "Chegaram a ser transferidas para os cuidados intensivos, mas o tratamento resultou".

O diretor do PNHV confirma a versão, apontando que os números de Portugal espelham a realidade mundial: "Houve algumas crianças internadas, mas casos muito graves não. Em todo o mundo, a nível de transplante, a percentagem desceu de 10% para 5%", refere, corroborando os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), que sinalizou que 30% dos casos necessitaram de hospitalização, sendo que, dos 920 casos reportados em 33 países, 18 morreram.

Rui Tato Marinho explica à CNN Portugal que alguns dos internamentos são feitos por "precaução", "mais do que há uns tempos, porque há um maior alerta".

Na última atualização (que ainda não conta com os dois casos mais recentes em Portugal), o Centro Europeu para o Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC) confirmou 449 casos suspeitos.

Mantém-se o mistério na origem da doença

A origem e a causa desta doença continuam a ser desconhecidas, pelo que a OMS quer reforçar a investigação, tendo pedido aos países que forneçam dados mais completos sobre os casos que forem identificando.

O pedido foi feito por Philippa Easterbrook, especialista do programa de hepatites daquela agência das Nações Unidas, que falou na semana passada no Congresso Internacional do Fígado. “Precisamos de informações mais detalhadas que nos permitam conhecer a exposição no passado, o historial [do doente] e como se desenvolve a doença em quem está hospitalizado”, referiu.

Rui Tato Marinho indica que na Europa existe uma grande coordenação no envio de dados, referindo que Portugal envia, de forma sistemática, as análises que vai realizando. Segundo o especialista, que recentemente esteve presente numa reunião com a OMS, "tem-se notado um arrefecimento do número de casos em todo o mundo". Esse é, de resto, um dos papéis fulcrais da task-force criada. Isabel Gonçalves também destaca essa estabilização dos casos, mas avisa que "o alerta não foi suspenso": "É preciso notificar de forma clara todos os casos que surjam. A situação tem de ser acompanhada".

"Todos os dados são reportados ao ECDC. Temos estado sempre a fazer análises no laboratório do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Estamos alinhados com a Europa", acrescenta Rui Tato Marinho, referindo que todas as análises vão sendo partilhadas com os parceiros internacionais, até porque "os casos podem ser diferentes de país para país".

Isabel Gonçalves diz que essa coordenação é feita através do Colégio de Emergência em Saúde Pública (CESP) e também da DGS, que ficam responsáveis por partilharem os últimos dados que vão sendo analisados em Portugal.

Duas das hipóteses que têm mais força são a do surgimento de um adenovírus (como uma simples constipação) que espoleta a doença e a da ligação da doença à covid-19: "A maioria dos casos estão ligados a adenovírus ou ao SARS-CoV-2, mas o trabalho vai demorar alguns meses, há muitas linhas de investigação", indica Isabel Gonçalves.

Essas duas hipóteses foram referidas num estudo publicado na revista Lancet, onde os investigadores relacionaram o aparecimento de casos com uma infeção prévia por covid-19, seguida de uma outra com um adenovírus (como uma constipação comum), o que deixou um reservatório viral (onde o vírus permanece mais tempo) no trato intestinal.

Ainda assim, diz Rui Tato Marinho, "não se tem avançado muito" na investigação para descobrir uma causa, sendo que é no Reino Unido, o país com mais casos (262), que a pesquisa se encontra mais avançada.

Isabel Gonçalves vai mais longe, e admite mesmo que "vai demorar alguns meses até percebermos como evoluíram os casos", para que então se possa perceber quais as verdadeiras causas da doença.

A mais recente orientação da Direção-Geral da Saúde dá conta de que os casos suspeitos de hepatite aguda em crianças até aos 16 anos devem ser observados num hospital com urgência.

A doença pode manifestar-se de várias formas, sendo típicos os seguintes sintomas: dor abdominal, náuseas, vómitos, diarreia, problemas respiratórios ou febre.

Nos casos mais graves a doença pode mesmo levar à necessidade de um transplante de fígado ou, no limite, à morte, como já aconteceu a 18 crianças.

Os outros países com casos suspeitos ou confirmados identificados pelo ECDC são Reino Unido (262), Espanha (37), Itália (33), Países Baixos (15), Irlanda (14), Bélgica (14), Suécia (9), Grécia (9), Polónia (8), França (7) Dinamarca (7), Israel (5), Noruega (5), Áustria (3), Chipre (2), Bulgária (1), Moldova (1), Sérvia (1) e Letónia (1).

O que tem feito a task-force

Rui Tato Marinho é uma das figuras centrais da task-force criada pela DGS, que deixou o país mais-bem preparado para fazer face a um eventual surgimento de casos confirmados: "O grupo preparou o país e, felizmente, até agora, correu bem", diz, lembrando que o mesmo não aconteceu com a monkeypox, por exemplo, que já tem mais de 300 casos confirmados num mês.

O objetivo da task-force passa por preparar os profissionais de saúde, nomeadamente os pediatras, que assim ficam com uma melhor formação para lidarem com os diferentes possíveis casos de infeção. Além disso, refere o gastrenterologista, também foi importante na gestão comunicacional da doença: "É importante a comunicação, porque há pessoas, sobretudo os pais, que podem ficar preocupados".

"Foi como a preparação para uma guerra que não sabemos como vai ser", acrescenta, vincando a necessidade de uma preparação para "tomar medidas rápidas e necessárias quando se justificar".

Para Isabel Gonçalves, a palavra-chave é "coordenação". É para isso que a task-force serve, permitindo "estar mais alerta", mas também "preparar e coordenar os pediatras para que ajam de acordo com a orientação técnica publicada".

De resto, apesar de ter sido anunciada no dia primeiro caso suspeito, a task-force já se reunia antes, apenas não com aquele nome: "Era uma situação nova, a reunião não dependeu do primeiro caso suspeito".

"Na altura achei impossível Portugal não vir a ter um caso de hepatite aguda", admite mesmo o especialista.

A partilha de dados, de análises e de descobertas é feita de forma constante, sendo que, no caso português, existe uma grande cooperação com as autoridades de saúde espanholas, que já confirmaram mais de 20 casos. Os resultados das reuniões são partilhados entre vários profissionais da área da saúde, desde pediatras a investigadores do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

A criação da task-force, conclui Rui Tato Marinho, faz com que o país esteja "super preparado, mesmo que as coisas piorem".

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