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Comentador da CNN Portugal. Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE. Diretor do European Observatory on Illiberalism and Culture Wars. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, na polarização e nos impactos nos direitos fundamentais. Analisa, ainda, questões de geopolítica contemporânea

Nowak: o radicalismo ideológico pode respirar?

5 jun, 20:07
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A 3 de dezembro de 2025, Henry Nowak, 18 anos, estudante da Universidade de Southampton, é esfaqueado em Southampton por Vickrum Digwa. A polícia chega, Digwa alega, ao que tudo indica, falsamente, ter sido vítima de agressão racista. Nowak é, então, algemado enquanto dizia ter sido esfaqueado e que não conseguia respirar. Morre no local.

Numa sociedade onde os factos e as identidades sociais fossem dados neutros, o caso seria apreciado enquanto ato de violência concreta entre dois sujeitos. Mas essa sociedade não existe. Pelo contrário, Nowak e Digwa são rapidamente transformados em condensadores identitários de lutas culturais mais amplas, trazendo ao debate problemas estruturais das sociedades ocidentais e apropriações ideológicas dos acontecimentos.

O racismo estrutural e a questão policial

A literatura especializada e relatórios oficiais mostram que o racismo em Inglaterra é um dado historicamente sedimentado na sociedade, cujos contornos de violência comunitária e desproporcionalidade na ação policial traduzem a existência do que se designa por «racismo estrutural». As raízes do racismo estrutural inglês remontam, inevitavelmente, ao colonialismo e ao seu estabelecimento de hierarquias raciais legitimadas no quadro imperial britânico. Esse contexto de racismo biológico e cultural teve tradução, por exemplo, nos motins raciais de 1919, com  violência contra comunidades negras e asiáticas em cidades portuárias como Liverpool e Cardiff, ou nos acontecimentos de pós-1948, quando trabalhadores caribenhos convidados a reconstruir o país foram depois sistematicamente discriminados no acesso à habitação, emprego e serviços.

No plano policial, podemos destacar o Relatório Macpherson, de 1999, que na sequência do assassinato de Stephen Lawrence, expõe o racismo institucionalizado na polícia inglesa, situação particularmente grave considerando o papel de garante da segurança e monopólio público da violência por parte das forças de autoridade, que se revelam incapazes de cumprir o mandato de igualdade de tratamento.

O Black Lives Matter e a polarização social

Desde meados do século passado, com aceleração nas últimas décadas, o pós-modernismo e as teorias críticas têm procurado salientar quer o racismo estrutural quer a necessidade de políticas públicas corretivas e uma postura epistemológica de revisão das narrativas dominantes. Este progressismo académico produziu corpos sociais ligados às várias formas de ativismo por causas como o racismo ou a homofobia, procurando a consciencialização social para formas sistemáticas de discriminação.

No entanto, desde o assassinato de George Floyd e a expansão global do Black Lives Matter, vimos emergir mais do que um movimento woke de consciencialização: vimos também a emergência de uma moral política assente na ontologia da vítima.

Os seus efeitos sociais e políticos são complexos e não podem ser captados por este texto. Mas importa referir uma hipervigilância na linguagem, a constituição de brigadas morais informais nas redes sociais e uma seleção do que é objeto de empatia e daquilo que é deixado fora dela.

Este progressismo dito woke, que é aquilo que Yascha Mounk chama de «síntese identitária» e John McWhorter designa por «racismo woke», acabou por produzir uma reação de sentido contrário por todo o Ocidente: o cultural backlash, ou seja, uma luta identitária contra o multiculturalismo, a imigração e formas de controlo moral por parte de setores de um progressismo totalizante.

Estes identitarismos de sentido contrário geraram uma polarização social assente na negação do consenso e na posse concorrente de uma superioridade moral, seja em nome do sentido de justiça social seja em nome da identidade nacional.

Nowak e Digwa como símbolos

A consequência desta polarização social é a tradução do caso do assassinato de Nowak numa reação ideológica. A direita radical tem aproveitado o sucedido para colocar em marcha a sua luta pela hegemonia cultural e pelo controlo da narrativa, usando o sucedido como bandeira do combate ao multiculturalismo e às políticas migratórias que  considera incapazes de preservar a coesão cultural das sociedades ocidentais.

Nesse quadro, Nowak passa a ser o mártir de uma luta pelo resgate do controlo da nação, da uniformidade cultural e de políticas migratórias mais restritivas. Trata-se de um episódio que encapsula a guerra cultural pela nação, com rara intensidade simbólica.

O facto de Digwa se ter escusado num pretenso ataque racista e o facto de a polícia ter priorizado esse acontecimento ao invés de avaliar a eventualidade dos esfaqueamentos, servem de prova para a direita nacionalista e radical de que as instituições estão, agora, condicionadas por políticas woke, em que é mais seguro posicionar-se ao lado da minoria étnica e evitar acusações de xenofobia e racismo.

Nesse quadro, Digwa deixa de ser um jovem que agiu de forma criminosa para simbolizar todos os imigrantes culturalmente diferentes numa verdadeira ação de culpa coletiva inflamada e polarizadora.

A hesitação da esquerda

O facto de Nowak ter morrido em circunstâncias que remetem às de George Floyd, usando exatamente as mesmas palavras – “não consigo respirar” –, torna a hesitação da maioria dos setores da esquerda radical um problema para ela própria.

Em primeiro lugar, porque a esquerda radical, tendo convertido em pressupostos dificilmente questionáveis certos postulados identitários, olha para o homem branco, sobretudo quando lido enquanto categoria política, como portador da culpa coletiva de ser racista, colonial e opressor. Isto significa que, quando ele é a vítima de um agente migrante ou de uma minoria, a esquerda radical não consegue enquadrá-lo ideologicamente como vítima, porque não entra nas categorias que estabeleceu como prioritárias de luta cultural.

Em segundo lugar, porque tomar uma posição obriga-a a enfrentar os limites do relativismo cultural e a entrar por terrenos que podem desestabilizar os postulados centrais da sua bagagem ideológica.

No meio disto tudo, de Floyd a Nowak vão posições contraditórias por parte dos setores radicalizados. Enquanto a direita desvalorizou a forma como Floyd foi assassinado, negando-lhe o estatuto de sintoma de racismo estrutural, a esquerda usou o caso de forma emblemática para promover uma consciência e uma moral abrangentes; no caso de Nowak, os setores mais à direita fazem deste mártir das políticas migratórias e multiculturalistas que consideram governar o Ocidente nas últimas décadas, enquanto a esquerda mais radical tenta passar ao lado do sucedido porque não consegue enquadrar o caso nas suas lutas emancipatórias e porque o acontecimento obriga a repensar as suas certezas absolutas.  

É aqui que o caso Nowak ganha densidade política: não porque comprove uma hierarquia racial inversa, mas porque revela uma hierarquia de atenção moral. A tragédia deixa de pertencer apenas à vítima e passa a pertencer à guerra cultural. E, nesse processo, tanto a direita radical quanto a esquerda radical revelam o mesmo vício: só conseguem respirar quando os factos se submetem à sua ideologia.

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