ENTRETANTO, EM LONDRES || Um vídeo gravado em dezembro mas só agora tornado público foi o catalisador para algo maior no Reino Unido
Henry Nowak tinha 18 anos e foi esfaqueado cinco vezes. O que transformou a sua morte num debate nacional foi o que a polícia fez a seguir: algemou-o enquanto ele se esvaía em sangue.
É um caso que reflete tudo o que mais tem preocupado os britânicos. O controlo de fronteiras, a polícia, a violência nas ruas - um debate que Portugal conhece bem.
O assassino, um britânico de 23 anos da comunidade sikh, mentiu à polícia e disse ter sido ele a vítima de um ataque racista. E a polícia acreditou, mesmo com o estudante a dizer que tinha sido esfaqueado. Nowak morreu minutos depois.
O assassino foi condenado a prisão perpétua. Mas as imagens dos últimos momentos de Nowak, captadas pela própria polícia, correram o país e fizeram o resto. Houve protestos violentos em Southampton com saudações nazis. 11 agentes feridos. Membros da comunidade sikh agredidos de Kent a Birmingham.
O pai de Nowak pediu que a morte do filho não servisse para “criar mais divisão, ódio ou tensão”, mas quase ninguém o ouviu. O Reform UK, o partido de extrema-direita britânico, não perdeu tempo a tratar o caso como prova de um “policiamento a dois pesos e duas medidas” a favor das minorias. Grupos de direitos civis e igualdade racial concordam que esse policiamento existe, mas dizem que não favorece as comunidades minoritárias.
E depois, como já tem feito, Washington meteu-se no assunto. O vice-presidente JD Vance atribuiu a morte de Nowak à “invasão em massa de imigrantes” e o Departamento de Estado norte-americano falou mesmo em “declínio civilizacional” - tudo a propósito de um homicídio numa cidade inglesa.
O número 10 respondeu logo. David Lammy, o número dois do governo, telefonou a Vance para lhe dizer que “estava errado”. O homicida de Nowak não era um imigrante perigoso, era um cidadão britânico nascido e criado no Reino Unido. E o porta-voz do primeiro-ministro, sem nunca dizer o nome do vice-presidente norte-americano, criticou aqueles que estão a “tentar interferir na nossa democracia e a semear a divisão nas nossas ruas”.
E tudo isto a poucos dias de uma eleição intercalar que pode decidir o futuro do primeiro-ministro. Para desafiar Starmer pela liderança do Partido Trabalhista, o favorito para suceder ao primeiro-ministro, Andy Burnham, precisa primeiro de ter um lugar no parlamento. É isso que a intercalar de Makerfield vai decidir.
Se o Labour manter o lugar, Burnham pode correr à liderança. Se perder para o Reform, fica de fora, e Starmer respira. O caso Nowak pode ser decisivo — pode ajudar o Reform, tanto que o próprio Burnham já trouxe o caso para a campanha a dizer que as facas religiosas, como a que matou o estudante, “têm de ser revistas”.
E à medida que a investigação ao comportamento da polícia continua e a data da eleição se aproxima, vale a pena ver também o impacto que pode ter no resultado e no futuro do país.
