Na última terça-feira, recebi uma chamada telefónica. No outro lado da linha estava um oficial do Exército de Israel: "Quais são os seus planos para quinta-feira? Quer entrar na Faixa de Gaza?", perguntou-me. Respondi imediatamente que sim. Este diálogo curto é resultado de um ano de pedidos repetidos da nossa parte. O Exército não toma decisões políticas, mas cumpre ordens do governo. Permitir ou não a entrada de jornalistas em Gaza é uma decisão da atual coligação do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
A autorização para entrar em Gaza restringia-se a poder ir até um dos pontos em território palestiniano onde, segundo Israel, há o equivalente a 800 camiões de ajuda humanitária. E aqui começa mais um aspeto da guerra de narrativas: Israel afirma que todo o stock está disponível para que a ONU envie os seus camiões de recolha; a ONU, pelo contrário, afirma que Israel impõe uma série de restrições burocráticas e no terreno, inclusive em relação a rotas seguras para que a organização chegue até este ponto no extremo sul da Faixa de Gaza.
Um dos objetivos da nossa peça foi deixar claro os princípios jornalísticos de isenção, imparcialidade e de busca pela verdade. Num dos terrenos mais inóspitos para isso. Não apenas pelo que ocorre agora, mas porque o conflito entre israelitas e palestinianos está no foco, já há bastante tempo, de uma intensidade sem paralelos de envolvimento emocional. Embora não seja o único conflito em curso do mundo, só este conflito leva milhões de pessoas, de ambos os lados, a manifestar-se em todo o mundo, do extremo oriente aos Estados Unidos, da Europa à América do Sul, do norte de África ao sul de África.
O Jornalismo precisa de ter cuidado. Ainda mais cuidado. Na era das redes sociais, cabe ao Jornalismo demonstrar seriedade. Aos jornalistas cabe distanciamento.
Eu sabia desde o início que a intenção do Exército era que nós pudéssemos registar este carregamento de ajuda humanitária à espera de recolha. Israel passa por um momento de isolamento e pressão da comunidade internacional, inclusive dos Estados Unidos, o seu principal aliado.
Assim, a nossa ideia foi aproveitar a oportunidade para mostrar o local o máximo possível. E, em relação ao stock de ajuda humanitária, apresentar as duas versões; neste caso, especificamente, de Israel e da ONU. Além disso, precisávamos também de trazer proximidade ao nosso público a locais reais que mencionamos com frequência ao longo desta cobertura com quase dois anos: o Corredor de Filadélfia, a fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, a Passagem de Kerem Shalom, por onde entram e saem os caminhões de Gaza.
No dia seguinte, a CNN esteve numa zona ativa de combates: o norte da Faixa de Gaza. Conseguimos obter uma visão privilegiada num ponto de observação elevado em Sderot, no sul de Israel, localizado a apenas 700 metros da cerca que separa Israel e Gaza. Neste local, pudemos testemunhar os combates e dar mais informação ao nosso público sobre pontos importantes desse conflito: Beit Hanoun, Jebalia, Beit Lahia, cidades do norte de Gaza. Acredito que a missão é também aproximar o nosso público desses locais; são cidades e pessoas do mundo real, não nomes que estamos a repetir ao longo da cobertura.
Os ataques do Hamas de 7 de Outubro de 2023 iniciaram um novo ciclo de violência que já dura há quase dois anos e que continua a envolver o Médio Oriente além de israelitas e palestinianos: Líbano, Irão, Iraque, Síria, Jordânia, Iêmen, Egito. Há uma disputa mais ampla em curso, uma nova arquitetura regional em construção. A nossa missão continua além de Gaza, mas também em Gaza.
Quando houver uma solução política, esperamos poder regressar à Faixa de Gaza; desta vez para as cidades - para o que restou delas - e para contar as histórias das pessoas e do processo de reconstrução. Ainda há muito trabalho pela frente e vamos continuar a fazê-lo.
