Covid. A libertação total a 15 de março está garantida ou nem por isso? Há boas notícias

24 fev, 10:00
Lisboa

Apesar de "a probabilidade de se eliminar o SARS-CoV-2 de circulação ser quase nula", março pode mesmo ser o mês do regresso à realidade. A matemática explica

Foi longo, por vezes sinuoso e penoso, mas o fim parece estar próximo. Faltam quatro semanas: por volta de dia 15 de março, Portugal deverá entrar na mais ansiada fase pandémica: a libertação total. Pelo menos é o que perspetiva o Governo e alguns especialistas contactados pela CNN Portugal.

O fim das máscaras, do álcool gel e das conversas através de vidros de acrílico está à distância de menos de um mês. O matemático Henrique Oliveira, professor do departamento de matemática do Instituto Superior Técnico, não tem dúvidas: “As pessoas têm de começar a esquecer a pandemia". "A covid-19 colocou a humanidade à prova e ganhou. Agora vai tornar-se uma doença residente no planeta Terra, vai tornar-se endémica. Quando chegarmos a uma média de 20 casos diários, que deverá acontecer perto do dia 15 de março, estaremos em condições de eliminar todas as medidas, com exceção da máscara em contexto hospitalar”, explica Henrique Oliveira.

A previsão tinha sido anunciada pela ministra de Estado e da Presidência na última quinta-feira, após a reunião do Conselho de Ministros. Mariana Vieira da Silva afirmou que todas as restrições de combate à covid-19 seriam levantadas quando o indicador de mortes descesse para 20 mortes por milhão de habitantes a cada 14 dias. "Continuaremos a avaliar quinzenalmente a evolução deste valor, mas a previsão que os peritos nos deram é de que podemos atingir este valor dentro de cinco semanas", referiu na altura.

Passada uma semana, em que o número de casos diários de covid-19 tem vindo a diminuir significativamente, o matemático e professor da Universidade do Porto Óscar Felgueiras  acredita que esta “continua a ser uma previsão razoável". “Existem algumas incertezas, mas a trajetória tem sido a que foi projetada”, esclarece. “Até agora, a evolução tem sido positiva, apesar do aparecimento da nova sublinhagem da Ómicron. (...) A partir do momento em que atingimos o pico, era expectável que existisse uma descida ao mesmo ritmo. Ao haver uma subida do número de casos muito rápida, a descida também seria semelhante”, realça Óscar Felgueiras.

De acordo com Óscar Felgueiras, Portugal tem neste momento 57 mortes por milhão de habitante a cada 14 dias, tendo atingido o pico deste indicador há cerca de dez dias, com 65 óbitos. Apesar de todas as previsões apontarem quase para o mesmo período temporal, Henrique Oliveira considera que as mortes por milhão de habitantes a cada 14 dias não é um indicador indicado para impor ou retirar qualquer tipo de medida por analisar "números do passado". “Estamos a castigar a sociedade portuguesa porque decidimos utilizar indicadores cumulativos para o número de óbitos - que não tem variações tão significativas como o número de casos. Este indicador a 14 dias continua a somar à equação dias com muitos mortos”, alerta Henrique Oliveira.

E depois da libertação total? Poderá haver retrocesso?

“Quatro semanas é razoável, mas com incertezas”, alerta Óscar Felgueiras, que, apesar de entender que o alívio das restrições é o passo mais acertado, será imperativo manter uma monitorização atenta de novas variantes e do decaimento da proteção vacinal. Em concordância está também Henrique Oliveira, que vê "uma nova estirpe muito agressiva que evada a vacinação” como o "grande perigo" a que a Humanidade ficará agora sujeita. 

“Em dezembro de 2020 disse que não era prudente abrir a sociedade durante o Natal porque era o que dizia a matemática. Agora a mesma matemática diz que estamos a tender para zero. (…) Estamos num trajeto muito positivo, os números têm estado a cair e assim continuam”, refere o especialista.

O professor do Técnico lembra ainda que “a proteção vacinal vai começar a descer” e que, futuramente, os grupos com mais vulnerabilidades devem receber um novo reforço da imunização contra o SARS-CoV-2. Óscar Felgueiras lembra ainda que "o tempo quente é um fator positivio", que já fomentou uma diminuição mais acentuada do número de casos nos últimos dias. “Tem havido um decréscimo no número de casos em idosos e é isso que vai ter o maior impacto no final”, realça o docente da Universidade do Porto. “No dia em que deixarmos as máscaras será um momento de alívio para toda a população. (...) Desde que tenhamos a população vacinada, não há justificação para novas medidas”, refere Óscar Felgueiras.

Como será o futuro pós-pandemia? Algum dia desaparecerá o SARS-CoV-2?

Henrique Oliveira está certo de que não. O vírus responsável pela doença covid-19 veio para ficar e será uma constante, à semelhança de outros que provocam doenças como a gripe ou o sarampo.  “É impossível imunizar 90% da população mundial. Portanto, nunca vamos conseguir eliminar este vírus. A probabilidade de eliminar o SARS-CoV-2 de circulação é quase nula, diz a matemática.”

Apesar de defender a libertação total, Óscar Felgueiras realça também que o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) prevê uma nova onda de casos de covid-19 em setembro. “Mas será um pico com bastantes casos? Ou, devido à vacinação, não terá grande impacto?”, questiona o especialista.

Apesar das "incertezas", "receios" ou até "medos", parece que o regresso do "antigo normal" está próximo. Tanto a ciência como o poder político entendem que é tempo de dar o passo que o país espera desde 2 de março de 2020 (primeiro caso de covid-19 identificado em Portugal). 

“Há sempre um risco, mas também há sempre risco que apareça um novo vírus semelhante ao ébola. Há sempre risco, não podemos viver sem isso, é algo inerente à condição humana. Agora, podemos escolher se vivemos com medo ou não”, conclui Henrique Oliveira.

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