"Dizer que nós somos subservientes é uma constatação". Gouveia e Melo diz que Portugal é um país pequeno e por isso terá de "engolir alguns sapos de vez em quando"

CNN Portugal , MJC
20 mai, 23:19
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Em entrevista à CNN Portugal, Henrique Gouveia e Melo comenta a situação política internacional sem poupar nas críticas a Trump - que começou uma guerra no Irão sem medir as consequências - ou à Europa, que parece estar à deriva. Na Base das Lajes, o governo português esteve bem. Mas já no que toca às epidemias, o líder da task force da vacinação contra a covid-19 está mais cético: "Se houver uma nova pandemia, este movimento anti-vacinas vai ser um problema sério"

"Às vezes parece que os nossos políticos ou são ingénuos ou fazem-se de ingénuos e fazem declarações com grande carga de valores quando sabem muito bem que nos tratados que nós assinamos temos condições e restrições que nos obrigam a determinado tipo de procedimentos e até posições e alinhamentos geoestratégicos", comenta Gouveia e Melo, referindo-se às críticas feitas pelo PS ao modo como o Governo geriu a utilização da Base das Lajes pelos EUA durante a guerra com o Irão. "Se não quisermos aceitar essas condições também sofremos na pele problemas na nossa segurança e na nossa defesa, porque a nossa defesa é coletiva, baseada num conceito atlantista e liberal, que é a NATO", explica o ex-candidato presidencial. É por isso que considera "uma posição retórica e ingénua [alguém] vir dizer que passaram uns aviões de combate na base das lajes". "Mas queriam que proibissem?", questiona.

Em entrevista ao Prime Time da CNN Portugal, o novo comentador da CNN Portugal, considera que Portugal, ao contrário da Espanha, não pode tomar uma atitude desse tipo porque Portugal, ao contrário da Espanha, é um país atlântico. "Nós temos que estar abraçados à maior potência marítima que opera no Atlântico, se não corremos riscos fortes, quer na nossa soberania quer na nossa capacidade de autodeterminação e de alguma forma na nossa influência na nossa região. Não me parece que estivéssemos em condições políticas para assumirem determinadas posições estratégicas", diz. 

E vai ainda mais longe: "Dizer que nós somos subservientes é uma constatação, só que é uma constatação histórica de há muito tempo. Nós não éramos subservientes há quatro séculos, depois temos feito o percurso de um país pequeno que sobrevive num conjunto de alianças onde tenta fazer progredir os seus interesses, mas sempre de forma limitada".

Se Gouveia e Melo fosse Presidente "não teriam cinismo"

Apesar de não querer comentar o modo como António José Seguro está a exercer o cargo de Presidente da República, Gouveia e Melo deixa ficar um aviso: "Não me parece que uma posição anti-americana seja algo que defenda os interesses portugueses no médio e longo prazo (seja qual for a administração). Por isso nós temos que ter cuidado. O nosso poder sendo limitado teremos de vez em quando engolir alguns sapos."

E, quando questionado sobre que tipo de Presidente seria se tivesse ganhado as eleições, garante apenas que se fosse Presidente os portugueses "não teriam cinismo".

O vídeo israelita com os ativistas detidos: "O que se viu é uma humilhação, completamente desnecessária"

Sobre o caso dos ativistas pró-Palestina que seguiam numa flotilha e foram detidos por Israel, Gouveia e Melo considera que "Portugal já tomou as medidas necessárias, que são medidas de foro diplomático". Entretanto, "Israel já se veio demarcar" do vídeo publicado pelo ministro Ben-Gvir que teve "um comportamento que não é consentâneo com um sistema democrático e o sistema israelita é democrático", sublinha. "As guerras fazem mal às democracias e esta guerra prolongada contra um conjunto de regiões vizinhas de Israel está a criar fraturas na democracia, mas o regime é um regime democrático". 

"O que se viu é uma humilhação, completamente desnecessária. Não é necessário um grau de violência e humilhação que não serve a ninguém e serve muito menos a Israel neste momento", diz Gouveia e Melo, que não veria com maus olhos que Portugal seguisse o exemplo de Espanha e considerasse Ben-Gvir persona non grata: "É uma medida que demonstra uma posição não contra um Estado mas contra uma personalidade".

EUA abriu a caixa de Pandora no Irão, e agora a Europa é forçada a intervir

No que toca à guerra com Irão, o ex-chefe do Estado-Maior da Armada, não poupa críticas aos EUA por terem iniciado "uma guerra mal calculada destapou a caixa de pandora da região": "Pela primeira vez o Irão vem dizer que o estreito [de Ormuz] é deles. Há um país que vem dizer que se pode apoderar de um estreito e que pode cobrar portagens e decidir quem passa e quem não passa." Isso viola todos os tratados internacionais e causa um problema à Europa e aos EUA: "A coligação liberal vai ter que impedir que isso aconteça. Nós ficámos numa posição em que somos obrigados a intervir. Se nós permitirmos o precedente de um país dominar um estreito de navegação internacional estamos a mudar o tecido das relações internacionais de forma muito grave", explica. "Não havendo uma solução negocial, a Europa e os EUA vão ter que forçar a abertura do estreito - até para servir de exemplo".

As críticas dirigem-se também à Europa, que é "um gigante económico mas é um anão em termos políticos e geopolíticos", diz. "A Europa tem de reforçar o seu papel geopolítico. O grande problema é saber quem vai comandar a Europa. Não podemos ter um colégio em que um voto paralise decisões. Tem de se repensar este funcionamento se não não conseguimos agir".

Covid-19: "Deixei um relatório pormenorizado. Desconfio que ninguém o leu"

Por último, Henrique Gouveia e Melo, que liderou a task-force da vacinação durante a pandemia de covid-19, afirmou que "o mundo está-se a esquecer das lições do covid" e "a coisa mais perigosa desse esquecimento é o crescimento de uma onda anti-vacinas. Mesmo em Portugal, onde as vacinas eram aceites quase de forma universal, há agora quem ache que as vacinas são perigosas."

"Num dia em que haja uma nova pandemia, este movimento anti-vacinas, se for muito forte, vai ser um problema sério", antevê.

Além disso, diz que também não guardámos devidamente as lições aprendidas com a covid-19: "Lembro-me de a task force ter deixado um relatório pormenorizado de quais foram os planos iniciais, o que é que tivemos de mudar, o que é que tivemos de fazer. Desconfio que ninguém leu, que está algures numa gaveta". Como ninguém aprendeu nada, se houver uma nova pandemia "vamos ter que improvisar outra vez".

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

País

Mais País