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9 dez 2025, 16:53
António José Seguro e Gouveia e Melo

"Ser independente, para Gouveia e Melo, não é uma pose: é uma prática. Nunca precisou de partidos para lhe dizerem o que pensar, nem para  o  promoverem", escreve Rui Barroso de Moura, consultor e apoiante de Gouveia e Melo

Se a campanha presidencial já parecia animada, António José Seguro resolveu subir ao palco e largar um conjunto de críticas ao almirante Gouveia e Melo: falou de “imaturidade política”, “falta de independência”, “necessidade de aprender no cargo” e até “atropelo à Constituição”. Uma lista tão criativa que, se houvesse prémios literários para declarações de campanha, ele estaria finalmente nomeado para alguma coisa.

Ouvir António José Seguro acusar Gouveia e Melo de “imaturo” é um daqueles momentos raros em que a política entra no domínio da comédia involuntária: é quase tão curioso como ver um veterano das manobras de bastidores acusar um militar de não ter coluna. Seguro, que fez carreira inteira entre gabinetes, declarações e promessas que ficaram pelo caminho, decidiu subitamente que tem autoridade para avaliar maturidade talvez porque, ao olhar para o Almirante, se lembrou subitamente da sua própria ausência dela.

No fundo, a acusação diz mais sobre quem a faz do que sobre quem a recebe: há quem confunda maturidade com permanência no corredor do poder, e quem a prove onde realmente conta. Porque, convenhamos, maturidade política que se mede em anos de carreira sem obra feita é daquelas frutas que parecem maduras por fora, mas que, ao abrir, estão totalmente verdes.

António José Seguro, que nunca nada teve verdadeiramente para provar porque nunca teve tempo de o provar, acusa de imaturo alguém que passou mais de quatro décadas em funções onde um erro não causa apenas uma manchete: causa baixas, falhas operacionais, missões comprometidas, não likes.

Seguro é daqueles políticos com a estranha tendência de desaparecer em momentos decisivos e reaparecer depois como se fosse um “pop-up” do Windows: inesperado e ligeiramente desnecessário.

Seguro também insinua falta de independência. Aqui o país inteiro franziria o sobrolho, se não estivesse habituado a este campeonato: políticos a acusarem outros de dependência é um clássico, especialmente quando vêm de carreiras tão longas na vida partidária que já mereciam cartão de fidelização.

Ser independente, para Gouveia e Melo, não é uma pose: é uma prática. Nunca precisou de partidos para lhe dizerem o que pensar, nem para  o  promoverem. Não foi alçado por congressos, fações ou conveniências internas. Foi escolhido para cada posto porque o seu trabalho falava mais alto. Se há alguém verdadeiramente independente nesta campanha, não é quem sempre viveu nos corredores partidários. É quem nunca precisou deles.

Depois, criticou Gouveia e Melo por precisar de “aprender no cargo”. É um argumento elegante — se tivermos memória curta. Porque Seguro teve oportunidades para mostrar mestria no cargo, mas geralmente acabava por se aprender mais com o que não fazia. Quanto à produção intelectual, a mesma que se exige a quem gosta de apontar imaturidade nos outros, os últimos três anos parecem ter produzido… silêncio. Não um artigo, não um estudo, não um ensaio. Nada. Nem sequer um post académico no LinkedIn. O que, convenhamos, é difícil: até os estagiários publicam coisas para parecer ocupados.

Já Gouveia e Melo? Bem, apesar do seu pensamento já vertido em múltiplos artigos e livros publicados, não precisava de os escrever para provar que sabe liderar. Chegar a Chefe do Estado-Maior da Armada não é uma promoção por “tempo de serviço”. Exige competência, mérito, capacidade operacional, e — last but not least — alguma coisa chamada responsabilidade real, daquela que não cabe num debate televisivo. Gouveia e Melo não apareceu por acaso ao comando da Marinha; não tropeçou e caiu dentro do gabinete. Foi lá posto porque sabia o que fazia.

E ainda sobre “aprender no cargo”: o país viu-o liderar e entregar resultados quando comandou a Task Force da vacinação contra a COVID-19, operação elogiada internacionalmente, estudada lá fora e invejada por países que normalmente só nos prestam atenção quando ganhamos no futsal. E antes disso ainda o viram nos incêndios, no terreno, sem microfone, sem palanque, sem ensaios de declarações. Há quem chame a isso “experiência direta”; Seguro chama-lhe “imaturidade”. Cada um utiliza o dicionário que tem.

A acusação de “atropelo à Constituição” é o ponto mais poético. Seguro, que viveu durante décadas dentro de aparelhos partidários, governativos, negociais e congressos internos, acusa o militar que sempre operou sob regras rígidas — mais rígidas do que qualquer comício — de atropelos constitucionais. Seria cómico, se não fosse involuntário. O país inteiro sabe que, na Marinha, até desviar cinco minutos do plano dá chatices. Imagine-se então atropelar a Constituição. Se o almirante quisesse desobedecer às regras, não teria chegado onde chegou. A carreira militar não perdoa improvisos de vaidade. Como militar,

Gouveia e Melo jurou a Constituição. E, ao contrário do Dr. Seguro, não teve nunca o privilégio de interpretá-la conforme conveniências partidárias. Os militares são treinados para cumprir regras — não para contorná-las. “Atropelar” a Constituição seria incompatível com toda a sua carreira, com a sua honra.

O Dr. Seguro teve a sua vida na política. Teve cargos importantes, com oportunidades de mostrar obra — e o país ainda hoje discute qual foi.

Gouveia e Melo não teve discursos sobre reforma do Estado. Teve incêndios reais. Não teve mesas-redondas. Teve mapas de operações. Não ficou em casa em quarentena, coordenou a vacinação de dez milhões de portugueses.

Gouveia e Melo não responde a ataques pessoais com ataques pessoais. Mas não aceita ser avaliado por quem confunde política com carreira.

Para Gouveia e Melo, política é missão. E missão, como todos os marinheiros sabem, cumpre-se. Não se comenta.

No fundo, esta eleição está a revelar duas formas de ver o país:

  • Uma que fala da política como se fosse um debate permanente, cheio de frases bonitas, mas poucos resultados concretos.

  • Outra que fala da política como missão — e onde a missão se mede em eficácia, não em conferências de imprensa.

No final desta campanha, resta saber se o país quer ouvir quem nunca saiu da bancada … ou quem já esteve a comandar navios, equipas e crises de verdade.

 

Consultor e apoiante de Gouveia e Melo

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