ENTREVISTA || “O lugar onde morámos entre os cinco e os 12 anos será sempre o nosso lar”, diz o jornalista Henrik Brandão Jönsson, que é correspondente na América Latina. Vive há 25 anos no Brasil, mas sente que lhe faltará sempre “um pouquinho” para sentir-se completamente integrado. A pandemia ativou-lhe a saudade da Suécia. E, com ela, escreveu um livro sobre esse sentimento que Portugal tende a reclamar como seu. Oportunidade para falar sobre migrações. “Não há bom nem mau imigrante. Imigração é imigração”. E sobre o confronto com o passado colonial. “A nova geração sabe que pode falar sobre a escravidão, mesmo amando Portugal”
Henrik, o seu novo livro chama-se “Saudade – Cartografia de um Sentimento”. A saudade é mesmo um exclusivo português?
A palavra é portuguesa, mas há cada vez mais gente fora do mundo lusófona a usá-la. Está a ficar uma coisa globalizada.
E é preciso mesmo alguém sair do seu país para senti-la? Ou há outras formas de a perceber?
A saudade é uma coisa estranha. É claro que os migrantes que vão de um país para o outro sentem mais saudade. É algo mais profundo. Mas também é possível, por exemplo, uma pessoa de Trás-os-Montes mudar-se para Lisboa e sentir saudade da sua terra, mesmo estando no mesmo país. Para o meu livro, falei com suecos de Malmö, mas que moram em Estocolmo. Sempre que têm férias, voltam para Malmö para matar a saudade de casa. Então, não é preciso sair do país para sentir saudade.
E de onde vem o seu interesse de explorar estas questões das migrações? É um reflexo da sua situação também enquanto emigrante?
Sou da Suécia, mas moro há 25 anos no Brasil. Sempre conheci a palavra saudade, mas nunca tinha sentido o que ela significa. Durante a pandemia, fiquei com muita saudade da Suécia, porque não podíamos viajar. Pensei que tinha de escrever um livro sobre este conceito, porque acho que há mais gente a lidar com ele. E como já tinha escrito um livro sobre o mundo lusófono, conheço muito bem as questões das migrações.
Inclusive a emigração dos Açores para a Califórnia, que aborda no livro.
Acho-a incrível. Quando os Estados Unidos estavam a fechar-se para todos os outros povos, fizeram uma exceção para os açorianos. E foi uma imigração que deu certo. Além disso, o tema das migrações é uma coisa muito polémica hoje.
E já lá vamos chegar. Mas antes, da investigação que fez sobre a emigração, tanto dos Açores para a Califórnia, como dos madeirenses para a Venezuela, o que foi mais interessante para si descobrir?
No caso dos Açores, ter sido algo que deu certo para a maioria. Hoje são quase todos da classe média. Conseguiram integrar-se na sociedade e são muito bem vistos. E mantêm a sua cultura, por exemplo, com as Festas do Espírito Santo.
Mas diria que essa emigração teria dado certo no contexto atual, porque a realidade mudou?
Sim, é diferente, porque quando os açorianos foram para lá, os EUA precisavam de quem percebesse da produção de leite. Os americanos precisavam desse conhecimento que os açorianos tinham. Hoje, os EUA estão a fechar-se, tal como Portugal e o resto da Europa, contra a imigração.
Mas há algo que distinga a emigração portuguesa das outras?
As pessoas que entrevistei na Califórnia lembraram-me que, nos anos 1950, os EUA estavam fartos de italianos, gregos e espanhóis. Achavam que não tinham dado certo, porque se criaram máfias. Foi algo que os açorianos não fizeram. Pagaram impostos, fizeram tudo certo, eram vistos como honestos.
E para o Henrik, enquanto sueco a viver no Rio de Janeiro, quais são os novos desafios da emigração?
Trabalho como correspondente na América Latina. É claro que saí da Suécia para viver no Rio de Janeiro, mas não me vejo como emigrante. O brasileiro gosta de estrangeiros, sou muito bem recebido, no fundo. Mas tratam-me como gringo, mesmo estando há 25 anos no Brasil. Eles não me consideram um deles. Sou o outro, o gringo, o sueco. Não deixa de ser um pouco chato.
Então, há sempre uma diferença. Um imigrante nunca está totalmente integrado…
Estou integrado, mas parece que falta só um pouquinho. Quando ando com um boné que tem escrito “carioca”, há logo pessoas que me dizem “você não é carioca, não”. Mesmo os meus amigos cariocas. Apesar de os conhecer muito bem, quase nunca fui convidado para ir a casa deles. No Rio, a gente encontra-se na rua. Não conheço os pais dos meus amigos. Já dos meus amigos suecos conheço os pais de todos.
Falou na experiência da saudade ativada pela pandemia. Diria que a saudade mudou de forma nos últimos anos? Hoje temos voos rápidos, videochamadas, redes sociais…
Acho que sim. Hoje é muito comum que alguém nasça num lugar e se mude para outro. Antes era pelo trabalho, para melhorar a vida. Hoje é porque nos apaixonamos, por exemplo. Além disso, já não precisamos de ir para a fábrica, podemos trabalhar remotamente de casa. E isso significa que vamos sentir saudade do lugar onde fomos criados. No livro, entrevistei um psicólogo americano, que me contou que o lugar onde morámos entre os cinco e os 12 anos será sempre o nosso lar.
Olhemos então para Portugal. Um país com uma história de emigração tão grande, que faz o elogio das suas comunidades, não devia ser mais solidário com os imigrantes que cá chegam para viver e trabalhar?
Absolutamente. O português devia ser muito mais humilde. Não percebo porque é que o partido Chega está crescendo tanto ao falar de imigração. Todas as famílias portuguesas têm alguém que emigrou. Foram recebidos em França, Luxemburgo, Suíça, Brasil, EUA. Acho muito estranho que Portugal esteja falando mal da imigração.
É amnésia em relação ao passado?
É memória curta. As pessoas esquecem-se de que, há menos de 100 anos, o resto do mundo estava a receber portugueses. Durante a ditadura de Salazar, França recebeu muitos imigrantes portugueses sem reclamar. É estranho que os portugueses fiquem falando mal do Bangladesh. É uma cultura diferente, mas não fazem nada de mal, trabalham por uma merreca [salário muito pequeno] – e mesmo assim não são muito bem vistos.
Como é que explica que existam antigos emigrantes – portugueses que trabalharam em França, no Luxemburgo ou na Suíça – que se alinham com o Chega no discurso anti-imigração?
É muito difícil explicar. Há o mesmo fenómeno nos EUA, por exemplo: muitos latino-americanos, imigrantes, que votam em Donald Trump porque não querem mais imigrantes. Acham que é muito mais fácil ser imigrante hoje, em comparação com a época em que chegaram. O mesmo se passa na Suécia, com a imigração jugoslava e dos Balcãs nos anos 1980 e 1990. Hoje, essas pessoas, que são imigrantes, votam no Partido dos Democratas Suecos, que é parecido ao Chega. Acho que estão com medo da nova geração de imigração. É uma coisa de inveja e de medo, de que o novo imigrante vá tirar o trabalho deles. Não há bom nem mau imigrante. Imigração é imigração.
O Henrik já tinha feito um trabalho sobre a questão colonial. Na sua opinião, Portugal está atrasado em relação a outros países, por exemplo, França ou Reino Unido, no que diz respeito a esse confronto com o passado?
Há cinco anos lancei o livro “Viagem pelos Sete Pecados da Colonização Portuguesa”. O livro não foi muito bem recebido aqui em Portugal. Escrevi sobre as coisas boas e más da colonização. E critiquei a escravidão. Nessa época, Portugal não estava preparado para falar sobre esse tema.
E agora está?
Agora está. O português entendeu que não precisa de ter tanto orgulho do imperialismo. É uma coisa de uma sociedade que está mais madura. Estive nas comemorações do 25 de Abril em Lisboa. Vi muitas pessoas jovens a celebrar. A nova geração entende que a escravidão não foi uma coisa boa. Aliás, foi terrível. A nova geração sabe que pode falar sobre o assunto mesmo amando Portugal. Não é uma coisa contra o país deles, é uma crítica contra a ideia do bom colonizador. Há muitas diferenças entre os vários colonialismos. Mas, no fundo, todos são maus.
