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"Heated Rivalry mostra-nos que as pessoas já não querem só ler um livro ou ver uma série, querem mergulhar a fundo naquele universo"

9 mai, 22:00
Rodrigo Manhita

 

3.º paragrafo “‘Heated Rivalry’ mostra-nos que as pessoas já não querem só ler um livro ou ver uma série, querem mergulhar a fundo naquele universo”, diz.

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ENTREVISTA || Fins de 2025, inícios de 2026. Nas redes sociais, há uma série de que toda a gente fala. Não vem da Netflix nem de outro grande estúdio. É uma produção independente canadiana, que se transformou num fenómeno global. Falamos de “Heated Rivalry” [Rivalidade Ardente, em português]. A série inspira-se numa saga literária, cujos livros chegaram agora a Portugal. São o motivo para uma conversa com o editor e diretor criativo Rodrigo Manhita

Para lá das cenas ousadas que alimentam muito conteúdo, existe em “Heated Rivalry” uma camada que é o verdadeiro motor do sucesso: a relação entre dois jogadores de hóquei no gelo, Shane Hollander e Ilya Rozanov. Rivais no campo, amantes fora dele. Desafiam-se ideias feitas sobre masculinidade, fama e intimidade. E abre-se espaço para um diálogo sobre como continua a ser um risco assumir a homossexualidade num meio como o desporto profissional.

A série parte de uma saga literária, escrita por Rachel Reid, que chega agora a Portugal pela Secret Society, chancela do grupo editorial Penguin Random House. Conversamos com Rodrigo Manhita, editor de Young Adult [literatura para jovens adultos], sobre este universo, que criou uma comunidade global de leitores. E que mostra como, cada vez mais, o mercado editorial se reinventa à velocidade das redes sociais.

"Publicar literatura queer num mundo polarizado é uma provocação propositada. Acredito piamente que pode levar a mais empatia", defende.

A série “Heated Rivalry” vem provar, uma vez mais, a força que um filme ou série de televisão pode dar aos livros. Se à partida poderíamos pensar que já estava tudo visto e desvendado na série, como é que explica que os livros estejam a ter tanta procura depois dela?

Os últimos anos foram muito transformadores para as gerações mais novas, com muita coisa a acontecer no mundo e com a própria evolução das redes sociais. As pessoas têm procurado sentir-se parte de micro comunidades. Os próprios algoritmos também nos influenciam muito nesse sentido. E isso tem uma consequência: as pessoas já não querem só consumir um produto cultural, já não querem só ler um livro ou ver uma série, querem mergulhar a fundo naquele universo. No caso de “Heated Rivalry”, querem algo que as faça sentir bem, felizes. E esta é uma saga de grandes amores, tão fortes que nos emocionam.

Esta adesão literária vem, então, deste sentimento de pertença.

Acredito muito nisso. Foi uma série onde as pessoas encontraram muito conforto. Depois da série, querem continuar dentro desse mundo. E é aí que entram os livros. Consomem a mesma história, mas em formatos diferentes.

Mas é uma vitória da própria literatura? Ou antes a literatura transformada em mais um produto de consumo?

Vivemos num mundo capitalista, é normal que a literatura, de alguma forma, se tenha vindo a transformar num produto, até porque as empresas culturais têm objetivos capitalistas. Acredito que se trabalharmos a cultura como um produto, sem deixar que seja arte e cultura, as duas coisas podem ser verdade. Neste caso, é sobretudo uma vitória da cultura pop, da cultura de massas, especialmente quando olhamos para os contornos da produção tanto dos livros como da série.

Já vamos falar desse lado independente. Antes queria perguntar se a história original, que é a dos livros, não acaba por ficar na sombra da adaptação televisiva, podendo frustrar as expectativas de quem lê?

Não necessariamente. Este caso tem coisas particulares: a série é adaptação do “Heated Rivalry”, que é um dos livros da saga, que não é sequencial. Os livros podem ser lidos de forma independente. Além disso, há livros na saga que não foram ainda adaptados para série. Portanto, as pessoas podem mergulhar nestas histórias paralelas e descobrir outras personagens. Além disso, podem consumir a mesma história num formato diferente.

Enquanto série de televisão “Heated Rivalry” ganhou destaque no início deste ano. Traz-nos a história de amor de dois atletas profissionais de hóquei, num ambiente ainda marcado pela homofobia, o do desporto. É uma série canadiana independente, que recebeu apoios públicos. Também a autora Rachel Reid, canadiana, publicou os livros de forma independente. Será a prova de que os circuitos audiovisuais tradicionais poderão não andar a dar atenção aos livros certos? Hollywood, por exemplo, tende a adaptar livros que foram sucessos de vendas, que já provaram o seu valor e criaram legiões de fãs.

É a prova do poder das redes sociais e do poder que lá têm as novas gerações. E mostra que nos estamos a mover de uma sociedade onde os grandes agentes que controlam a cultura, aquilo que chega até nós, para um paradigma em que são as pessoas que estão no comando. As boas histórias tocam as pessoas. Claro que “Heated Rivalry” já tinha uma base de fãs, obviamente não era gigante. Costumo dizer que havia muitas pessoas que estavam obcecadas por estes livros, mas era como se estivessem debaixo de várias pedras. Do nada, é como se tivessem acordado todas.

E como é que, enquanto editor de livros, se pode antecipar este tipo de fenómenos? Certamente existirão outros “Heated Rivalry” por aí…

É muito curioso porque comprei os direitos destes livros para Portugal antes de a série ter saído, antes de tudo isso. Vi no TikTok algumas pessoas a falar sobre o assunto, tinha saído o primeiro mini ‘teaser’ da série. Pareceu-me muito interessante. Na altura, fui falar com a nossa diretora editorial e, pela primeira vez, senti uma pequena dúvida da parte dela. Mas sentia que havia alguma coisa de original na história, que conseguia chegar às pessoas. Ainda assim, não deixa de ser uma lotaria. Nunca sabemos ao certo como vai correr a adaptação. Há exemplos de livros que têm adotações que correm muito bem e em que isso não alavanca necessariamente as vendas.

Saga literária que inspirou a série chegou agora a Portugal pelas mãos da Secret Society (DR)

Nos últimos anos, temos sentido um grande salto no número de jovens interessados em ler – ou, pelo menos, daqueles que promovem a leitura através das redes sociais. Não é um contrassenso o livro estar a ganhar força num mundo cheio de ecrãs?

Obviamente que é um contrassenso, mas que faz todo o sentido. Estamos num mundo cada vez mais polarizado e isto também é, de algum modo, uma polarização. Como estamos cada vez mais dependentes das redes sociais e dos ecrãs, isso tem também criado uma necessidade nos jovens de abraçar coisas mais analógicas, de sair dos ecrãs, de ter outros sentimentos.

Poderíamos então dizer que os livros não competem com os ecrãs. São antes uma fuga desses ecrãs.

Concordo, embora muita da promoção dos livros venha a ser feita através das próprias redes sociais. Temos de entender, enquanto editores, enquanto agentes culturais, que o digital não é um antagonista da cultura. As coisas têm de andar de mãos dadas, temos de perceber que podemos utilizar o digital para alavancar a cultura. As pessoas estão no digital, não vão sair tão cedo, mas estão a ficar saturadas de estar sempre lá. Podemos apresentar-lhes soluções, no digital, para elas saírem do digital, por muito que isso possa parecer um pouco estranho.

E até que ponto é que o fenómeno do BookTok [um movimento literário surgido no TikTok, onde leitores descobrem e promovem livros, por vezes criando fenómenos virais] influencia aquilo que acaba por ser publicado? Haverá, obviamente, essa atenção permanente ao que está a ser promovido, sobretudo lá fora.

Em Portugal, o BookTok tem algum impacto, que ainda vai crescer. Temos, enquanto editora, estabelecido essa relação com os influenciadores. Passam muito tempo online, conversam com muitas pessoas, têm as suas comunidades. E é ótimo quando me passam indicações, do género “vi este livro, a versão em inglês está a ser falada pela minha comunidade, não queres dar um olhinho?”. Aquilo que influencia mais diretamente é o BookTok em língua inglesa. É um fenómeno gigantesco, tem a capacidade de alavancar livros que são publicados de forma independente, que, de repente, ganham uma atenção gigante. É uma consequência da globalização e dos altos níveis de literacia em língua inglesa nos países desenvolvidos.

O que também temos vindo a ver é que alguns destes jovens acabam por se gabar de lerem livros em poucas horas. É uma leitura de consumo rápido. Este tipo de leitura só para mostrar produtividade não é preocupante?

É um tema extremamente complexo, dava para uma grande resposta. Na literatura, infelizmente, ainda somos, muitas vezes, muito elitistas. Ainda temos muitos preconceitos e muitas conceções, queremos que a literatura seja uma coisa altamente intelectualizada. Existe espaço para isso, obviamente, mas também há espaço para outras interpretações. Vemos uma pessoa que vai correr todos os dias, que publica histórias no seu Instagram, e não achamos que se está a gabar. Pelo mesmo motivo, não tem de ser esse o nosso pensamento na literatura. O importante é os jovens estarem a ler mais, independentemente do que estão a ler e da forma como estão a ler. O importante é o contato com o livro. Depois, naturalmente, o gosto pela literatura vai surgir.

Como já referimos, a saga “Heated Rivalry” traz-nos histórias de amor entre pessoas do mesmo género. Enquanto editor de livros Young Adult, tem essa preocupação constante em relação à diversidade, não só de género, mas em todas as suas formas?

É uma coisa bastante importante, especialmente para a Secret Society. Sempre esteve na base da marca essa questão da pertença, da diversidade, de acolher várias histórias e tradições e perspetivas de representação, seja ela queer, racial, de autores de várias nacionalidades, uma vez que estamos muito presos à cultura que vem dos países anglo-saxónicos. Há um nicho de pessoas que precisam de ter histórias que falem também sobre elas. No caso do “Heated Rivalry”, uma das coisas que disse à nossa diretora editorial era que tínhamos de ser nós a publicar este livro em Portugal. Temos um catálogo onde 40% dos nossos livros têm protagonismo queer. Portanto, é efetivamente uma preocupação grande.

Publicar literatura queer não é também uma forma de provocação num mundo que parece estar cada vez mais conservador, ou pelo menos a alimentar esse tipo de discursos?

Sim, é uma provocação, mas propositada. Não é uma coincidência que seja assim. É justamente isso que queremos fazer, trazer estes outros temas para a mesa. Num cenário polarizado, é muito importante termos estas outras histórias, que contrabalançam outras perspetivas, muitas vezes de extrema-direita e homofóbicas. Damos espaço a outras histórias porque acredito piamente que isso pode levar a mais empatia no mundo..

Universo "Heated Rivalry" tem uma legião de fãs também em Portugal (DR)

Mas essa representação queer não pode ser vista apenas como uma estratégia comercial?

Esta é a melhor forma de responder: na generalidade, os livros queer não representam a maioria da nossa faturação e dos nossos lucros. Há muitos deles que vêm porque acreditamos, enquanto grande grupo editorial, que temos uma responsabilidade social de trazer histórias para toda a gente, de ter livros com todas as perspetivas.

O sucesso do género Young Adult não dá azo a fórmulas repetidas?

Há sempre esse risco, de começar a haver muitas coisas que parecem iguais. É algo que comentamos nos bastidores da indústria, mesmo a nível internacional. O nosso papel enquanto editores passa por perceber se determinado livro tem um apelo diferente daquilo que já publicámos, se tem algo a dizer ou a acrescentar. Só assim conseguimos ter um catálogo mais diverso. Podemos ter uma fórmula e, ainda assim, acrescentar qualquer coisa de novo.

A verdade é que, apesar de haver um público-alvo definido, há cada vez mais adultos, não tão jovens assim, interessados neste género. É a prova de que os próprios adultos estão à procura de histórias positivas, que poderão não ter tido nas suas adolescências?

Acredito que sim. Aí joga muitas vezes a questão da diversidade, porque muitas pessoas cresceram em ambiente não tão representativos ou abertos e querem agora esse conforto. Acima de tudo, é uma prova da universalidade das histórias. É a maior prova de que, mesmo sendo uma indústria, não deixa de ser arte, não deixa de tocar várias pessoas.

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