Estudo financiado pela UE deteta em auscultadores substâncias químicas que perturbam o sistema hormonal

16 mar, 12:30
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Estudo foi realizado pelo projeto ToxFree LIFE for All, que recebeu uma subvenção de cerca de dois milhões de euros da União Europeia. As empresas visadas pelo estudo questionam a metodologia usada

Um estudo que analisou 81 tipos diferentes de auscultadores concluiu que todos continham pelo menos vestígios de substâncias prejudiciais à saúde - como bisfenóis, ftalatos e retardadores de chama, que são químicos que perturbam o sistema endócrino. Estas substâncias estão associadas a problemas de saúde reprodutiva, problemas neurocomportamentais e outros riscos para a saúde.

“Acreditamos sinceramente que uma abordagem sistémica para proibir e eliminar gradualmente os produtos químicos mais nocivos - que têm efeitos que se estendem por várias gerações - é o caminho a seguir”, defende Karolína Brabcová, responsável pela campanha sobre produtos químicos tóxicos em produtos de consumo na organização sem fins lucrativos checa Arnika (que integra o ToxFree LIFE for All) e coautora do relatório (que pode ser consultado na íntegra AQUI).

Karolína Brabcová e os colegas elaboraram o relatório no âmbito do ToxFree LIFE for All, em colaboração com outras quatro associações de defesa dos consumidores - sediadas na Chéquia, Eslovénia, Hungria e Áustria.

Para conduzir o estudo, o site The Verge explica que os investigadores desmontaram os auscultadores e recolheram 180 amostras de plásticos rígidos e flexíveis dos produtos - usados por adultos, jovens e crianças. As amostras foram enviadas para um laboratório para que fossem analisadas e se detetasse a presença ou não destas substâncias químicas que perturbam o sistema hormonal.

O estudo classificou cada auscultador em três pontuações, referentes às partes que entram em contacto com a pele, partes que não ficam em contacto e uma avaliação global. Para cada categoria, os auscultadores foram classificados como verde para “risco mais baixo”, amarelo para “em conformidade com a legislação, mas excedendo limites voluntários mais rigorosos” ou vermelho para “elevado risco”.

A revista especialista em tecnologia dá como bons exemplos os AirPods Pro 2, da Apple, e os fones de ouvido Tune 720BT, da JBL, que obtiveram classificação verde em todas as categorias. No entanto, mesmo dentro da mesma marca pode haver classificações diferentes: os fones de ouvido Wave Beam e JR310BT, também da JBL - e voltados para o público infantil -, receberam classificação vermelha em relação às partes que não entram em contato com a pele e na avaliação geral do produto. Outro exemplo são os casos de headsets destinados aos videojogos em que os HyperX Cloud III, da HP, e os Razer Kraken V3 receberam classificação vermelha em todas as três categorias.

O The Verge explica que tentou entrar em contacto com 11 das principais marcas fabricantes de auscultadores, mas apenas a Bose, Sennheiser e Marshall responderam, sendo que todas elas reafirmaram que seus produtos atendem aos requisitos legais de segurança.

As empresas visadas pelo estudo questionam a metodologia utilizada. Joanne Berthiaume, porta-voz da Bose, garantiu que "não está claro quais dados o laboratório utilizou para chegar às suas conclusões"; Eric Palonen, porta-voz da Sennheiser, lembrou que a empresa contatou os autores do relatório "na esperança de obter os dados exatos dos produtos Sennheiser testados, a fim de verificar os dados e decidir os próximos passos", mas que a organização não forneceu os dados solicitados; e a Anna Forsgren, gerente de conformidade de produtos e sustentabilidade do Marshall Group, realça que “o estudo utilizou seus próprios critérios de teste e sinalizou o produto com base em limites para substâncias relacionadas ao BPA que são mais rigorosos do que os normalmente aplicados aos plásticos usados ​​em produtos eletrônicos”.

Karolína Brabcová afirma que vários fabricantes entraram em contato com a Arnika para perguntar sobre como o estudo foi conduzido. O The Verge destaca ainda que o grupo recusou confirmar quais a empresas que pediram esclarecimentos.

A autora do estudo assegura que objetivo não era classificar os fones de ouvido nem dissuadir os consumidores de comprar certos produtos mencionados. Brabcová afirma que os produtos químicos foram encontrados em baixos níveis nas amostras e "não há perigo iminente no uso desses [fones de ouvido] e, novamente, essas concentrações são mínimas".

Os responsáveis pelo estudo dizem que o objetivo era e sempre foi chamar a atenção para as diversas maneiras como os consumidores são expostos a esses produtos químicos no dia a dia e para o risco cumulativo que isso acarreta: “Mesmo num produto pequeno como fones de ouvido, existe um coquetel de substâncias químicas às quais as pessoas podem ser expostas e, agora, multipliquem isso por 100 porque usamos centenas de produtos por dia”.

De acordo com a emissora neerlandesa RTL, alguns retalhistas europeus estão a retirar do mercado certos headphones depois deste estudo. O Guardian escreve que Bose, Panasonic, Samsung e Sennheiser não responderam aos pedidos de reação feitos pelo jornal.

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