Cientista que criou bebés geneticamente modificados quer voltar à investigação para curar doenças raras. Comunidade científica reage: "É um pesadelo"

12 jan, 11:02
He Jiankui (Foto: Kin Cheung/AP)

He Jiankui, cientista chinês de 38 anos, cumpriu três anos de prisão depois de ter anunciado o nascimento de bebés geneticamente modificados, violando todas as práticas da ética e deontologia médica. Meses depois de ser libertado, já está a angariar financiamento para um novo laboratório onde quer dedicar-se a procurar a cura para doenças genéticas raras

O cientista chinês que criou os primeiros bebés geneticamente modificados quer voltar à investigação para curar doenças genéticas em crianças e adultos. He Jiankui,  de 38 anos, que cumpriu três anos de prisão depois de ter anunciado o nascimento de duas gémeas cujo genoma editou - quebrando regras éticas e deontológicas da medicina - foi libertado em abril do ano passado e disse ao jornal espanhol El País, em várias trocas de e-mails, que já arrendou um espaço de 100 metros quadrados em Pequim para voltar ao trabalho. 

Criou mesmo uma organização sem fins lucrativos, na qual conta com dois colaboradores, e a que deu o nome de "Instituto de Investigação de Doenças Raras", esperando agora financiamento privado para começar a fazer investigação neste laboratório. O objetivo, disse ao El País, é tratar "crianças e adultos, mas não embriões", que sofram de doenças raras como a distrofia muscular de Duchenne, por exemplo, uma doença hereditária potencialmente letal que afeta sobretudo o sexo masculino. 

"Muitas famílias afetadas já me contactaram para doar dinheiro, mas ainda não decidi se devo fazê-lo", explicou Jiankui. "O meu objetivo é conseguir 1.000 milhões de yuan (cerca de 137 milhões de euros) de Jack Ma (o fundador da plataforma de compras online Alibaba), Huateng Ma (fundador da gigante tecnológica Tencent) e outros multimilionários. O primeiro donativo que recebi chegou dos Estados Unidos", disse ao El País, assegurando que, se conseguir essa verba, conseguirá curar doenças genéticas dentro de três anos. Por agora, diz que vive "bastante bem" e passa tempo com a mulher e com os filhos, enquanto desenvolve os próximos projetos científicos. "Instalei-me em Pequim e comecei a jogar golfe".

O cientista chinês não se alongou, nas respostas que deu ao jornal espanhol, sobre as suas experiências de edição genética que resultaram no nascimento das crianças em 2018 - proibidas pelas questões que levantam ao nível da ética. Na altura, He Jiankui justificou a edição genética com a necessidade de tornar as crianças resistentes ao VIH, ainda que existam hoje outras técnicas na medicina reprodutiva, nomeadamente a lavagem de esperma infetado, que permitem evitar a infeção do feto sem necessitar de alterações de ADN.

A Technology Review, publicação do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) teve acesso a uma versão não publicada do estudo de Jiankui que descreve a criação dos primeiros bebés geneticamente modificados e que mostrava mesmo que uma das crianças que nasceu tinha erros indesejados no seu genoma. O nascimento das gémeas Lulu e Nana foi anunciado em novembro de 2018 pelo biofísico chinês, que se formou na China e Estados Unidos.

Soube-se mais tarde que Jiankui tinha consciência de que o genoma dos embriões tinha erros mas que, mesmo assim, prosseguiu com a fertilização in vitro que resultou na gravidez. O paradeiro e o estado de saúde das crianças é um dos segredos mais bem guardados da China - em 2019, nasceu ainda uma terceira menina, da qual também nada se sabe. Nesse mesmo ano, o investigador foi condenado por um tribunal chinês a três anos de prisão, bem como dois dos seus colaboradores. Mas foi público que vários cientistas em todo o mundo, chineses e norte-americanos, sabiam do projeto de Jiankui e incentivaram-no a continuar. 

O apoio ao biofísico chinês, porém, está longe de ser unânime. Kiran Musunuru, especialista norte-americano em edição genética, disse ao EL País que o regresso de Jiankui ao laboratório é uma má notícia, defendendo que os atos do chinês "são tão graves como os crimes de guerra cometidos por nazis durante a Segunda Guerra Mundial".

Jiankui limitou-se a dizer ao diário espanhol que aprendeu que "fez as coisas demasiado rápido" e assegurou que as suas próximas investigações serão "transparentes e abertas a todo o mundo". Garantiu que tornará públicos todos os avanços e que uma equipa internacional de especialistas irá rever todo o seu trabalho científico. 

Tornar terapias genéticas mais baratas

O biofísico chinês diz que o seu objetivo é também tornar mais baratas as terapias para doenças genéticas: os medicamentos disponíveis são extraordinariamente caros e são ainda muito poucos, numa área de investigação que tem apresentado mais fracassos do que sucessos. Os Estados Unidos aprovaram recentemente o Hemgenix, por exemplo, para tratar a hemofilia, mas cada tratamento custa 3,5 milhões de dólares - um valor equivalente em euros, à taxa de câmbio atual. 

He Jiankui tem 38 anos e esteve preso entre 2019 e 2022 (Foto: Mark Schiefelbein/AP)

"Não se pode ir por atalhos neste campo e isso foi o que fez He", acusa Musunuru. "É a última pessoa em quem confiaria para conseguir terapias mais baratas. O que mostra a atitude dele é que voltou a ir por atalhos em busca de fama".

O especialista pede mesmo que se trate o biofísico como um ex-recluso, negando-lhe a entrada em qualquer país e bloqueando eventuais participações em conferências internacionais. Recuperando a comparação com as experiências científicas nazis, que tinham como fim último a eugenia, a criação de um ser humano ideal, Musunuru acrescenta: "Não imagino que alguém agora aceitasse que aqueles médicos voltassem a exercer".

O El País contactou alguns dos maiores especialistas mundiais em edição genética e bioética, que participaram no debate internacional sobre as experiências do chinês com embriões humanos, e todos consideraram que as atuais ferramentas de edição de genes não são ainda adequadas para usar em espermatozoides, óvulos ou embriões. Nenhum dos peritos defende que Jiankui tenha uma nova oportunidade na investigação científica, pelo menos até publicar todos os detalhes da sua pesquisa que resultou no nascimento dos bebés geneticamente modificados.

David Baltimore, que foi laureado com o Nobel da Medicina em 1975, e é professor emérito de Biologia no Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), é contundente: "Toda a gente merece uma segunda oportunidade depois de cometer um erro, mas o erro de He foi tão descomunal que eu não aceitaria financiar as suas novas experiências em biomedicina", disse ao El País. 

Mas George Church, investigador da Universidade de Harvard e um dos pioneiros na aplicação da edição genética, tem menos certeza de que a comunidade científica vá ostracizar o biofísico chinês. "O mundo da ciência tende a dar segundas oportunidades", refere. "Mas precisamos de uma vigilância muito rigorosa de toda a terapia experimental. Há muitos ensaios clínicos e inclusivamente terapias já aprovadas que têm consequências negativas. É possível que as bebés cujo genoma foi editado não tenham sofrido consequências negativas e espero que a sua saúde esteja a ser monitorizada ao detalhe", assinala o investigador.

He Jiankui assegura, por seu lado, que dará explicações sobre o passado ao longo deste ano, em congressos na Europa e nos Estados Unidos. Recentemente, partilhou um artigo escrito no New York Times por Fyodor Urnov, especialista em edição genética da Universidade da Califórnia, que defendia uma maior aposta no desenvolvimento de medicamentos para curar doenças raras e letais usando editores genéticos como a ferramenta CRISPR - a mesma que o biofísico utilizou para modificar embriões. 

Confrontado pelo El País com o trabalho de Jiankui, que parece ir nessa mesma direção, Urnov foi muito crítico com as experiências do cientista chinês. "As pessoas com doenças genéticas raras e as suas famílias estão desesperadas por obter uma cura", declarou. "He Jiankui demonstrou que não consegue respeitar os padrões éticos e médicos mais básicos. Deveriam proibi-lo de fazer qualquer experiência que tenha a ver com a saúde humana", acrescentou.

Urnov admite, porém, que o biofísico chinês deixou marca no campo em que desenvolveu a sua atividade, mesmo que essa marca seja eminentemente negativa: "É um pesadelo. Já ninguém consegue ter uma conversa sobre terapia genética sem que o nome dele apareça", comentou.

Relacionados

Ciência

Mais Ciência

Patrocinados