Numa longa entrevista à Hollywood Reporter, o produtor condenado por agressão e assédio sexual pede desculpa às mulheres com quem se relacionou por as ter enganado, mas não admite que tenha cometido qualquer crime: "Acho que tentei ser sedutor e fui longe demais. Foi constrangedor e patético". Detido numa das prisões mais violentas dos EUA, Weinstein diz que leva uma vida solitária e até já foi agredido por um dos prisioneiros
"A prisão é um inferno", diz Harvey Weinstein, sobre a ilha de Rikers, a maior prisão de Nova Iorque, onde o produtor de cinema está a cumprir pena após ter sido condenado por violação e abuso sexual. Na sua primeira entrevista desde que está na prisão, Weinstein admite ao jornalista Maer Roshan, da Hollywood Reporter, que teve um "comportamento estúpido" e que "usou o poder de forma arrogante", mas garante que nunca usou força física sobre uma mulher e que o seu único crime foi ter traído a mulher.
Na prisão, tem tido muito tempo para refletir sobre as escolhas que fez ao longo da vida. "Todos os Óscares e os grandes filmes - ainda me orgulho muito deles. Mas de que me servem agora? Se pudesse fazer tudo de novo, trocava esta ideia sem pensar duas vezes. Uma vida longe dos holofotes, a criar os meus filhos e a estar com a minha família - essa teria sido uma vida muito melhor."
No final de tudo, Harvey Weinstein gostaria de ser lembrado pelos filmes que produziu, embora receie que isso não vá acontecer. Sobretudo "Pulp Fiction" e "Shakespeare in Love" - "Foram os filmes mais icónicos que fiz. Representam os meus dois lados. 'Shakespeare in Love' representa todos os filmes de época; 'Pulp Fiction' representa todos os filmes cool."
Weinstein está a apresentar recursos das penas e ainda não perdeu a esperança de ver a sua condenação alterada. Morrer na prisão é algo que o apavora e que considera "frio e cruel": "É inacreditável que, com a vida que tive e tudo o que fiz pela sociedade, não tenham a clemência de me tratar com mais benevolência. Seja o que for que achem que eu tenha feito de errado na vida, não recebi a pena de morte. Vou fazer 74 anos em março. Não quero morrer aqui."
"Estou na cela 23 horas por dia"
Nos últimos anos, o produtor de 73 anos foi hospitalizado por uma longa lista de doenças: diabetes, uma cirurgia cardíaca e cancro. A estenose espinal mantém-no numa cadeira de rodas a maior parte do tempo. Devido às suas enfermidades, encontra-se alojado numa unidade médica da prisão de Rikers, separado da população prisional em geral.
"Passo quase todo o meu tempo na cela. Às vezes, saio na cadeira de rodas só para apanhar ar, mas é apenas meia hora. Estou na cela 23 horas por dia. Não tenho qualquer contacto humano para além dos guardas", conta Weinstein. Na prisão só fala com os guardas e com os enfermeiros. Para além disso, fala ao telefone regularmente com três dos seus filhos, com os advogados e alguns amigos.
"A maioria das pessoas que conhecia excluiu-me", conta. "Amigos próximos. Familiares. Pessoas que devem as suas carreiras inteiras a mim. Todas elas simplesmente desapareceram da noite para o dia. Tenho medo de ligar às pessoas porque não quero que sejam canceladas por falarem comigo. Esta é uma cultura insana. (...) Sinto falta dessas pessoas não apenas profissionalmente - havia mais do que isso. Mas estou com síndrome de cancelamento. Tóxico. Se atender as minhas chamadas, é cancelado. Eu compreendo."
"Outros reclusos podem ir para o pátio. Mas cada vez que estou lá fora, sinto-me sitiado. Vêm ter comigo e dizem: "Weinstein, dá-me dinheiro." "Weinstein, dê-me o seu advogado." "Weinstein, faça-o." "Weinstein, faz aquilo." Sou constantemente ameaçado e humilhado. Eu não duraria muito tempo lá fora", explica. "Uma vez, enquanto esperava para usar o telefone, perguntei ao rapaz à minha frente se já tinha terminado. Levantou-se e deu-me um soco forte no rosto. Caí no chão, a sangrar por todo o lado. Fiquei muito magoado. Os polícias perguntaram-me quem tinha feito aquilo, mas eu não consegui dizer. Não dá para fazer queixar. Essa é a lei da selva."
Weinstein pediu ajuda a um "consultor prisional" que o ajudou a "navegar no sistema": "Todas as pequenas regras não ditas, os "faz isto" e os "não faças aquilo" a que devo ter cuidado. Ele salvou-me a vida. Quando fiquei doente no ano passado, estava a congelar na minha cela. Durante dias, não me conseguia mexer. Não há aqui médico. Estamos em Rikers Island - todos estes prisioneiros e nenhum médico. Por fim, telefonei a Craig Rothfeld e implorei: "Por favor, ajude-me. Estou doente. Não sei o que fazer". Transferiram-me para Bellevue, fui submetido a uma cirurgia cardíaca no dia seguinte. Um dia depois e eu teria morrido. Tenho cancro na medula óssea. Estou aqui a morrer."
Na prisão, Weinstein tem direito a um tablet para aceder a uma plataforma de aluguer de filmes. E também encomenda muitos livros, passa grande parte do dia a ler. Além disso, continua a ler notícias sobre Hollywood e gosta de estar a par de todas as novidades do meio cinematográfico.
Ali, muitos sabem quem ele é, mas poucos conhecem de facto os seus filmes. "Só querem falar sobre Quentin Tarantino. Não é bem o tipo de público que aprecia 'Shakespeare in Love´'. Recebo guiões, sim, mas a maioria é de estudantes universitários que me enviam pelo correio. Querem saber a minha opinião sobre os filmes deles."
"Acho que tentei ser sedutor e fui longe demais. Foi constrangedor e patético"
Desde que as primeiras notícias, quase 100 mulheres vieram a público acusar Weinstein de má conduta sexual, desencadeando uma avalanche de processos judiciais cíveis e criminais, alguns dos quais ainda correm nos sistemas judiciais de Nova Iorque e da Califórnia. O seu primeiro julgamento em Nova Iorque, em 2020, terminou com a condenação por acusações que incluíam violação em terceiro grau, com uma pena de 23 anos de prisão. Mas esta condenação foi anulada em 2024 - não por inocência, mas por uma questão processual - e um novo julgamento em 2025 terminou com um veredito misto: condenação numa acusação, absolvição noutra e anulação do julgamento na terceira. Em 2023, recebeu uma sentença de 16 anos por violação e outros crimes, após um longo julgamento com júri em Los Angeles. O juiz determinou que a sua pena seria cumprida consecutivamente, e não simultaneamente, à sua sentença em Nova Iorque.
Harvey Weinstein garante que nunca conheceu Jeffrey Epstein e volta a afirmar que não violou nenhuma mulher e que as que o acusaram de tal apenas o fizeram para conseguir dinheiro - dos seguros e da Disney, uma vez que a empresa fez vários acordos para evitar mais polémicas à volta de Weinstein.
"O que eu estava a fazer de errado não era agressão sexual. Era trair a minha mulher. Eu estava desesperado para manter este segredo dela. Não queria que a Disney descobrisse. Fiz tudo para me proteger deste tipo de escândalo", diz. Weinstein recusa também as acusações de que, como retaliação, tenha prejudicado a carreira das mulheres que se recusaram a ter relações com ele.
"Sim, houve um desequilíbrio de poder. Sei que posso ser assustador e difícil. Mas isso ainda está muito longe de ser um assédio sexual. Flirts excessivos, situações ridículas. Mau comportamento e estúpido. Sim. Mas não empurrei ninguém. Não forcei ninguém fisicamente. Eu não fiz isso. E fiz testes de polígrafo para o provar."
"Quando um homem te convida para o seu quarto de hotel a meio da noite, tu sabes o que está na sua cabeça", insiste. "Algumas mulheres sabiam exatamente o que se esperava delas. Talvez se sentissem mal depois ou se arrependessem. Talvez vissem uma oportunidade de ganhar dinheiro. Mas nem todas eram tão ingénuas como fingiram ser."
"Acho que tentei ser sedutor e fui longe demais. Foi constrangedor e patético", admite em relação a Ambra Gutierrez. Também se diz magoado com Gwyneth Paltrow, que acusa de ter inventado algo que nunca aconteceu, assim como Rosanna Arquette e Angelina Jolie.
"Tentei assediar algumas dessas mulheres sem sucesso? Exagerei? Sim. Fui insistente ou excessivamente sedutor? Sim, para tudo isso. Veja bem, eu nunca deveria ter saído com as pessoas com quem saí. Eu era casado com uma mulher fantástica que não fazia ideia do que eu estava a fazer. Mentia o tempo todo. Usei a minha equipa de forma indevida para esconder estas coisas. Mas será que cheguei a assediar sexualmente alguma mulher? Não. Nunca fiz isso."
"Tenho vergonha deste comportamento e agora vejo-o de formas que não conseguia antes"
"Obviamente, era autodestrutivo. Mas estes casos aliviavam um pouco a pressão da vida que levava. Era uma tentação sempre presente, e eu cedia sempre. Foi estúpido e errado", assume. "Ultrapassei os limites. Isso é certo. Eu conseguia ser uma pessoa horrível e agressiva. Usei o poder de forma arrogante. Fui insistente e agressivo, e sinto-me péssimo. Tenho vergonha deste comportamento e agora vejo-o de formas que não conseguia antes."
Se soubesse na altura o que sabe hoje, diz que nunca se teria envolvido com aquelas mulheres: "Fui um tolo. Admito".
"Pedi-lhes desculpa de forma geral. Não podia ligar-lhes quando estava em julgamento. Mas vou dizê-lo aqui hoje: peço desculpa àquelas mulheres. Sinto muito. Não me deveria ter envolvido com elas desde o início. Eu enganei-as. (...) Traí as minhas duas esposas. Isso é imoral. Mas eu não as agredi. Essa é a grande mentira de tudo isto. Não vou pedir desculpa por algo que não fiz. Provarei que sou inocente. Isso eu garanto".