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Este médico achava que ia numas férias de sonho e acabou preso no navio Hondius a tratar doentes com hantavírus

CNN , Lex Harvey
8 mai, 12:50
Profissionais de saúde com equipamento de proteção individual retiram doentes do navio de cruzeiro MV Hondius para uma ambulância no porto de Praia, Cabo Verde, na quarta-feira, 6 de maio de 2026 (Misper Apawu/AP via CNN Newsource)
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O médico da embarcação é uma das pessoas infetadas a bordo. Stephen Kornfeld descreve à CNN, a partir do MV Hondius, tudo o que está a acontecer

Stephen Kornfeld embarcou no MV Hondius, no extremo sul da Argentina, no mês passado, antecipando uma aventura única na vida: explorar vastas extensões geladas e ilhas remotas, e observar de perto animais selvagens como baleias, golfinhos e pinguins.

Mas algumas semanas após o início das suas férias no Oceano Atlântico, o médico do Oregon teve de entrar em ação para cuidar dos passageiros depois de um surto mortal de hantavírus ter começado a espalhar-se pelo navio, infetando o médico da embarcação.

"Acabei por assumir o papel de médico do navio", conta Kornfeld à CNN a bordo da embarcação afetada pelo vírus, que se dirige atualmente para Tenerife, nas Canárias, um arquipélago espanhol na costa sudoeste de Marrocos.

Uma pessoa que usa um fato de proteção contra materiais perigosos (2R) é escoltada até uma ambulância vinda de uma aeronave médica que alegadamente transportava alguns dos passageiros do navio de cruzeiro MV Hondius, que se acredita estarem infetados com hantavírus, no aeroporto de Schiphol, perto de Amesterdão, a 6 de maio de 2026 (Lina Selg/AFP/Getty Images via CNN Newsource)
Uma pessoa que usa um fato de proteção contra materiais perigosos (2R) é escoltada até uma ambulância vinda de uma aeronave médica que alegadamente transportava alguns dos passageiros do navio de cruzeiro MV Hondius, que se acredita estarem infetados com hantavírus, no aeroporto de Schiphol, perto de Amesterdão, a 6 de maio de 2026 (Lina Selg/AFP/Getty Images via CNN Newsource)

Foram identificadas cinco infeções por hantavírus entre pessoas ligadas ao navio e vários outros casos são suspeitos, informou a Organização Mundial de Saúde (OMS) esta quinta-feira, admitindo que espera que surjam mais casos.

A Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido (HSA) informou já esta sexta-feira que identificou um caso suspeito adicional num cidadão britânico que se encontra em Tristão da Cunha, parte do remoto território de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde o Hondius tinha feito uma escala anteriormente.

Três pessoas que seguiam no navio morreram, incluindo um casal de idosos neerlandeses que se acredita terem contraído o vírus durante um passeio turístico na Argentina antes de embarcarem no cruzeiro.

Os cerca de 146 passageiros e tripulantes que ainda se encontram a bordo, incluindo um português, que passaram vários dias ancorados perto de Praia, em Cabo Verde, na costa ocidental de África, deverão chegar a Tenerife este domingo, onde desembarcarão e seguirão para os respetivos países.

O surto desencadeou um enorme esforço global de rastreio de contactos, à medida que as autoridades de saúde trabalham para identificar aqueles que possam ter sido expostos ao raro vírus transmitido por roedores, que pode causar insuficiência respiratória grave. Mas a OMS afirmou que não prevê uma epidemia semelhante à covid-19 em lado nenhum, sublinhando que não há evidências de risco de transmissão generalizada.

Kornfeld contou à jornalista Erin Burnett, da CNN, que perguntou se o médico do navio precisava de ajuda depois de saber que um dos passageiros do Hondius tinha adoecido. Esse passageiro, um homem de 70 anos dos Países Baixos, viria a falecer no navio no dia 11 de abril.

"Ao longo de 12 a 24 horas, tornou-se claro que havia várias pessoas doentes e que as suas condições estavam a agravar-se", recorda.

A mulher do neerlandês que morreu apresentava "sintomas inespecíficos", acrescenta Kornfeld, "muita confusão mental e muita fraqueza". Foi retirada do navio e morreu num hospital em Joanesburgo, na África do Sul, quando tentava regressar a casa.

Outros dois pacientes, incluindo o médico do navio, “apresentaram muitos sintomas virais comuns”, refere Kornfeld. “Febre alta, fadiga, rubor, alguns problemas gastrointestinais e falta de ar.”

“Na altura, nenhum deles parecia estar em estado crítico. Mas o receio com o hantavírus é que a pessoa possa passar de gravemente doente para gravemente doente muito rapidamente”.

O médico do navio foi transferido para um hospital em Joanesburgo no mês passado, onde permanece nos cuidados intensivos, mas o seu estado está a melhorar, segundo a OMS.

Três outros passageiros do navio foram retirados para os Países Baixos para tratamento. Um passageiro que aterrou antes do previsto testou positivo para hantavírus e está a ser tratado em Zurique.

O surto foi associado à estirpe Andes do hantavírus, um vírus raro, mas potencialmente grave, que em alguns casos pode propagar-se entre humanos através de contacto próximo.

Cerca de 30 passageiros desembarcaram do navio no final do mês passado, antes de o surto ser totalmente compreendido, o que dificultou os esforços para conter o vírus.

As autoridades de saúde de diversos países, incluindo os Estados Unidos, o Reino Unido e o Canadá, estão a monitorizar os passageiros do Hondius para detetar uma possível infeção. O hantavírus tem geralmente um período de incubação de uma a seis semanas antes do início dos sintomas.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou esta quinta-feira que o surto de hantavírus está "muito bem, esperamos, sob controlo" e indicou que o governo iria divulgar mais informações esta sexta-feira. "Muitas pessoas excelentes estão a estudar o assunto. Deve correr tudo bem."

Mas a deputada estadual do Oregon, Janelle Bynum, disse num vídeo publicado na rede social X que o governo federal está a "falhar com os cidadãos daquele navio".

Bynum garantiu que falou com Kornfeld, seu eleitor, e que nenhum dos americanos a bordo recebeu orientações sobre como regressar a casa em segurança.

A deputada pediu ao CDC (Centro de Controlo e Prevenção de Doenças) e ao secretário de Estado, Marco Rubio, que "elaborem um plano concreto" para os trazer de volta para casa.

Kornfeld afirma estar aliviado por os passageiros doentes terem deixado o navio e estarem a receber cuidados médicos num hospital.

"No caso do hantavírus, a taxa de sobrevivência depende muito da capacidade de receber cuidados médicos essenciais no momento certo. No navio, isso não seria possível."

A jornalista Aleena Fayaz, da CNN, contribuiu para esta reportagem

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