Henrique Lopes, perito da OMS e diretor da NOVA Center for Global Health, partilha da ideia de que não há motivos para alarme por causa do surto no cruzeiro. Mas alerta para outros riscos que se podem tornar graves a qualquer momento.
Apesar de a Organização Mundial de Saúde (OMS) estar ainda a tentar construir o rasto do foco de Hantavírus que afetou os passageiros de um navio cruzeiro, a comunidade médica e cientifica acredita tratar-se de uma situação de baixo risco. Aliás, a própria OMS garante que não é comparável com a covid 19.
À CNN Portugal, Henrique Lopes, perito da OMS e diretor da NOVA Center for Global Health confirma que, “pelos dados que existem”, este foco de Hantavírus não representa grande perigo. “Conhece-se o vírus há 50 anos, mas apenas costuma atingir os muito pobres. Nesses casos ninguém falava, mas agora aconteceu a turistas ocidentais e ricos e teve outro impacto”, diz o especialista em políticas de saúde pública, adiantando que os diretores e responsáveis das escolas médicas da Europa se reuniram na semana passada para debater o tema. Tratou-se de uma reunião da task-force de emergência da Associação Europeia de Escolas de Saúde Pública, que integra 140 instituições.
Aliás, esta semana, os responsáveis das escolas de saúde pública da região europeia preparam-se para publicar um documento onde explicam porque é que este Hantavírus não é um risco para a saúde pública mundial. Além disso, vão ainda elaborar "uma ferramenta pedagógica" para enviar para todas as escolas sobre este vírus.
No entanto, Henrique Lopes assegura que, ao contrário deste vírus, há atualmente problemas que são verdadeiros riscos para a população mundial: “Há neste momento, pelo menos, 20 outras ameaças bem maiores do que este vírus”.
Uma delas, garante, é a resistência aos medicamentos, que tem fortalecido os vírus e bactérias que não conseguem tratar as doenças. “Esta resistência mata por minuto mais pessoas do que todas as vítimas de Hantavírus”, avisa, dando números. É “comparar os 100 a 300 mortos documentados em 30 anos por Hantavirus dos Andes versus os 9,5 milhões de mortos por ano devido à resistência anti-microbiana”.
O perito lembra que só há ano e meio há "programas em força à escala mundial para combater o flagelo", tendo a OMS considerado-a umas das maiores “ameaças à saúde global” da atualidade.
Poluição ligada a enfartes e AVC
Outro dos grandes perigos é, neste momento, segundo Henrique Lopes, a “poluição atmosférica” que está “ligada a um terço dos enfartes do miocárdio e dos AVC que ocorrem no mundo".
Na lista das grandes ameaças o especialista coloca ainda os vírus, bactérias e outros agentes que estão congelados na tundra (bioma mais frio e seco da Terra). Henrique Lopes avisa que ali estão “milhões de microrganismos congelados há mais de 12 mil anos” e sublinha que “as alterações climáticas” estão a levar ao descongelamento do solo, libertando milhares desses agentes. “E não se sabe como é que reagem no contacto com o ser humano. Podem ser uma grande ameaça”, argumenta.
O sarampo é outro dos problemas que as autoridades consideram mais alarmantes, de acordo com o especialista. “Há cada vez mais casos desta doença e tornou-se um perigo muito sério na atualidade”, alerta, contando que se trata de uma consequência dos movimentos anti-vacinas que ganharam algum terreno no mundo: “Está a a ressurgir explosivamente nos EUA e em comunidades que começaram a rejeitar vacinas e é preciso ver que o sarampo mata e lesiona para vida”. Os números, frisa, são esclarecedores: “Morrem 100 mil por ano com sarampo, mas podíamos estar perto dos zero mortes com as vacinas”.
Entre as grandes ameaças estão igualmente muitos outros vírus, entre eles os da gripe. “Algumas estirpes têm grande potencial pandémico, como o H5N1 ou até o H7N9 ou o H9N2”, adianta Henrique Lopes, frisando ainda que os grandes transmissores são quase sempre “os ratos e os porcos”.
Entre os receios da OMS conta-se ainda com o regresso do Sars-Cov 1 e o crescimento de filovírus de alta letalidade, como o Ébola.
“Todos estes são ameaças muito maiores do que o Hantavírus”, defende o diretor da NOVA Center for Global Health, dizendo que a “única coisa” que o “preocupa neste caso é o facto de a Argentina ter saído da OMS e com isso o mundo ter sido privado de alguma informação inicial”. Além disso, “a própria Argentina não teve o apoio que teria se estivesse na OMS, uma vez que são postos automaticamente em prática mecanismos de ação que neste caso não foram por Javier Milei ter decidido deixar de fazer parte da organização em março passado.
O surto deverá ser eliminado em breve, dizem especialistas
"Não podemos perder de vista que há 100 casos por ano [oficialmente] na Argentina . Até prova em contrário é só mais um surto dos que lá acontecem. Só haveria mudança de risco se a análise genética ao vírus mostrasse alguma alteração significativa que tivesse consequências na transmissão", afirma o especialista.
Segundo Henrique Lopes, "o ponto central da ação agora é o chamado rastreamento de contactos que terá de ser feito para perceber por onde circulou a passagem do vírus e garantir que não criou novos depósitos que possam vir a ser origem de novos surtos". E o "segundo ponto", acrescenta, "é garantir que durante um período de seis semanas as pessoas que estavam no navio são seguidas de perto". E em principio, acredita, "isso eliminará o surto".
