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OMS admite cenário de transmissão entre humanos do vírus raro que paralisou um cruzeiro em Cabo Verde

António Guimarães , com Lusa
5 mai, 11:02
Profissionais de saúde entram no MV Hondius, navio de cruzeiro que transporta cerca de 150 pessoas, e que permanece ao largo de Cabo Verde devido a um foco de hantavírus. (Qasem Elhato via AP)
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Foco principal é tratar os dois pacientes a bordo e garantir proteção individual para todos os outros

A Organização Mundial de Saúde (OMS) admite um cenário de transmissão de hantavírus entre humanos no navio Hondius, que continua ao largo de Cabo Verde.

De acordo com aquela agência da Organização das Nações Unidas (ONU), a transmissão pode ter-se dado entre contactos próximos dentro do cruzeiro, que tem cerca de 150 pessoas, incluindo um português entre a tripulação.

“Sabemos que alguns dos casos tiveram contacto muito próximo entre si e, certamente, a transmissão de pessoa para pessoa não pode ser descartada, por isso, por precaução, é isso que estamos a considerar”, disse Maria Van Kerhove, diretora de Preparação e Prevenção de Epidemias e Pandemias da OMS, aos jornalistas.

Os dois mais recentes a serem confirmados são o de uma mulher que teve contacto próximo com o passageiro que morreu no dia 11 de abril e o de um passageiro que foi retirado do navio e transportado para Joanesburgo, onde está em estado grave nos cuidados intensivos.

Há ainda cinco casos suspeitos, não confirmados em laboratório, que são os dois passageiros que morreram a 11 de abril (um homem) e a 2 de maio (uma mulher) e os três casos que estão a bordo com sintomas gastrointestinais e/ou febre alta, dois deles elementos da tripulação.

Para a OMS o foco atual está na retirada dos dois pacientes que estão infetados e ainda estão a bordo do navio, num surto que já provocou a morte a três pessoas.

Depois disso a embarcação poderá zarpar de Cabo Verde para seguir rumo às Ilhas Canárias, o seu destino final depois de ter partido da Argentina num cruzeiro para observação de vida selvagem.

A OMS garante ainda que o risco de transmissão ao público é reduzido, já que o vírus está contido a poucas pessoas.

Toda esta avaliação foi possível depois de pessoal médico ter entrado no navio para avaliar a situação, tendo aproveitado também para levar equipamento adicional de proteção pessoal.

Sem certezas totais do que se passou, a OMS admite que as pessoas infetadas apanharam o vírus ainda fora do barco, tendo depois ficado doentes já a bordo do cruzeiro.

A prioridade continua em garantir que todas as pessoas continuam assintomáticas, havendo um pedido claro para que todos a bordo utilizem equipamento de proteção, evitando assim a propagação do vírus.

O filme do caso

O navio, com 149 pessoas (88 passageiros) de 23 nacionalidades fazia a rota entre Ushuaia, na Argentina, de onde saiu a 20 de março, e as ilhas Canárias, com paragens no Atlântico Sul para turismo de observação da vida selvagem. A viagem deveria ter terminado a 4 de maio.

Segundo a OMS, os relatos de doença a bordo foram recebidos entre 6 e 28 de abril, sobretudo febre e sintomas gastrointestinais, com rápida progressão para pneumonia, síndrome respiratória aguda e choque.

Em 11 de abril morreu o primeiro passageiro a bordo do cruzeiro. A causa da morte não pôde ser determinada durante a viagem e o corpo foi desembarcado no dia 24 de abril, em Santa Helena, para repatriamento. A mulher acompanhou o corpo do marido.

Dias depois, a companhia de cruzeiros foi informada de que a mulher, que já apresentava sintomas, tinha piorado durante a viagem de regresso e falecido a 26 de abril. No dia 4 de maio foi confirmado que tinha contraído uma variante do hantavírus.

Entretanto, a OMS anunciou que está a tentar localizar e contactar os passageiros do voo em que viajou esta mulher, uma cidadã neerlandesa.

Também em 27 de abril, outro passageiro, um cidadão britânico, adoeceu gravemente e foi retirado para a África do Sul, onde permanece nos cuidados intensivos em Joanesburgo em estado crítico, porém estável, também com uma variante do hantavírus confirmada.

O terceiro óbito, de uma mulher, foi registado em 2 de maio, depois de ter começado a registar sintomas no dia 28 de abril. A causa da morte ainda não foi determinada.

Os hantavírus podem passar de animais para humanos, geralmente quando as pessoas inalam poeira ou minúsculas partículas expelidas pela urina, fezes ou saliva de roedores infetados, particularmente em locais fechados ou mal ventilados.

Nas Américas, alguns hantavírus podem causar a síndrome pulmonar por hantavírus, uma doença grave caraterizada por febre e sintomas gerais, seguidos por insuficiência respiratória aguda.

A maioria dos hantavírus não se transmite de pessoa para pessoa. A exceção é o vírus Andes, relatado principalmente em partes da América do Sul e que já mostrou conseguir espalhar-se entre humanos.

Ainda não se sabe se a transmissão no surto atual ocorreu por exposição ambiental ou entre pessoas e qual a origem da infeção. O hantavírus específico envolvido também ainda não foi identificado.

A OMS avalia atualmente como baixo o risco para a população global decorrente deste surto e diz que continuará a monitorizar a situação epidemiológica e a atualizar a avaliação de risco.

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