Enquanto degustam uma carpa de água doce num dos restaurantes flutuantes de Halfeti, os visitantes podem imaginar como seria a vida nas antigas ruas, agora abandonadas, abaixo da superfície da água, a vários metros de profundidade.
Halfeti é uma das várias localidades da província de Şanlıurfa, no sudeste da Turquia, que se situam nas margens do rio Eufrates, relativamente perto da sua nascente. Em 2000, duas cidades e dez aldeias foram completamente submersas pelo rio, após a construção da barragem de Birecik, com 60 metros de altura e 2,4 quilómetros de largura. Mais de seis mil habitantes tiveram de ser realojados.
Cerca de 40% de Halfeti — uma cidade que tinha cerca de 2.600 habitantes antes da construção da barragem — foi engolida pelas águas. Perderam-se muitas das suas casas de pedra, das suas lojas e uma parte significativa da sua mesquita central, datada do século XIX, na zona antiga. Foram poupadas algumas casas situadas em zonas mais altas da cidade, que ficam acima da linha de água. Muitas delas continuam a ser habitadas atualmente.
A barragem de Birecik foi uma das várias infraestruturas deste tipo a serem construídas ao longo dos rios Eufrates e Tigre, numa tentativa de desenvolver a região do sudeste da Anatólia. A barragem hidroelétrica gera cerca de 2.500 gigawatts-hora (GWh) de eletricidade por ano — ou seja, o suficiente para abastecer quase um milhão de lares turcos. Por sua vez, o reservatório de 52 quilómetros quadrados desta barragem foi planeado para irrigar 70 mil hectares de terrenos agrícolas. Apesar destes aparentes benefícios, a barragem de Birecik gerou, num primeiro momento, reações opostas na população local.
“É claro que não é algo fácil. Muitas casas, muitos cemitérios, ficaram debaixo de água”, refere Erhan Yildirim, investigador, historiador e guia intérprete profissional. “Não é possível recuperar a cultura. Fica tudo debaixo de água”.
Muslum Karaman, que opera barcos nesta área, conta que as pessoas em Halfeti viviam “da pastorícia e da agricultura”. Outrora, a cidade era conhecida pela produção de pistáchio.
“Foi algo que mudou completamente. Agora vive do turismo”, refere, acrescentando que muitos habitantes abraçaram essa mudança, convertendo “as casas em restaurantes e cafetarias”. Foi, diz, uma tentativa de melhorarem a sua qualidade de vida.
Atualmente, os visitantes procuram a “cidade submersa” para explorar – com recurso a barcos, motas de água ou mesmo em ‘flyboards’ – a arquitetura que ficou debaixo de água. Mergulha rem Halfeti também se tornou uma atividade popular entre os turistas. É promovida por Şahika Ercümen, uma mergulhadora turca com recordes mundiais, que tinha mergulhado em 2020 nesta cidade para chamar a atenção para a questão da poluição por plástico. “Sente-se a história”, resume Yildirim, para depois descrever a abundância de espécies de peixe que há no rio bem como a extensa rede de grutas naturais de calcário que se encontram mesmo debaixo da superfície.
Rosas negras. Serão mesmo?
Há vida acima… mas também debaixo de água. Halfeti também é muito famosa pelas suas rosas negras, que são cultivads nos arredores da cidade, nas margens do rio Eufrates. Diz a lenda que Halfeti é o único lugar do mundo onde as flores desabrocham verdadeiramente negras. “Se tentar cultivar a rosa negra noutro lugar qualquer, nunca vai conseguir a mesma cor”, garante Yildirim.
Os especialistas explicam que não é um preto puro – antes um vermelho muito escuro. “Apesar de serem chamadas negras, não creio que haja uma flor que seja verdadeiramente preta”, refere Michael Marriott, especialista em rosas, que é reconhecido em todo o mundo. Contudo, afirma que alguns tons muito escuros de carmesim podem parecer pretos, sobretudo quando ainda são botões, antes de clarearem enquanto florescem. Além disso, quanto mais escura for a pétala da rosa, maior é a probabilidade de a flor se queimar ao sol – isto significa que, em climas com muito sol, as flores podem parecer ainda mais escuras.
Guy Barter, horticultor-chefe da Royal Horticultural Society, no Reino Unido, concorda. “É raro que as rosas negras, e as flores negras em geral, sejam mesmo pretas; são antes de um tom muito forte da cor borgonha - ou, como neste caso, de um vermelho muito, muito escuro”, afirma.
Apesar de internautas considerarem que as rosas de Halfeti são “falsas, Barter deixa um aviso: “As flores de um tom intenso da cor borgonha ou mesmo de um tom vermelho-escuro são, em termos práticos, suficientemente pretas. Só as pessoas muitos exigentes é que se queixam destas flores lindas e intrigantes”.
Pensa-se que a cor escura destas rosas se deve às condições únicas do solo de Halfeti.
Embora a maioria das rosas seja enxertada de uma forma comum, preferindo um equilíbrio entre a acidez e a alcalinidade, Marriott afirma que é possível que os agricultores de Halfeti utilizem raízes originais, que podem sobreviver melhor em solos ácidos, que escurem as pétalas.
“É por causa das condições climáticas daqui”, diz Birsen Aşağı, funcionária da Floating Gift Shop, uma loja que vende produtos “à base de rosa negra”. Os locais disponibilizam uma vasta gama de produtos, como infusões de rosa negra, gelados ou sabonetes. Também as marcas internacionais exploram o fascínio gerado por esta flor. A perfumaria britânica Penhaligon’s chegou a dar o nome “Halfeti” à sua fragrância de rosa negra.
Aşağı partilha connosco uma lenda local para explicar o significado da rosa negra. A história começa com Adir, um famoso arquiteto da região, que terá construído a mesquita da cidade. A sua neta, chamada Vartuhi, era conhecida por cultivar as rosas mais bonitas da região. Vartuhi apaixonou-se por Firat, um rapaz órfão que vivia do outro lado do rio. Faltava o elemento trágico desta história: o avô de Vartuhi proibiu o romance. De coração partido, o casal lançou-se ao rio Eufrates, morrendo afogado. Segundo a lenda, a partir desse dia, todas as rosas de Halfeti passaram a florescer negras, não vermelhas.
Yildirim conta uma versão diferente: nela, a rosa negra pertencia ao Diabo, que, triste pelo assassinato de uma rapariga inocente, declarou que a flor só desabrocharia no local onde a jovem tinha morrido. Ou seja, serviria sempre como um símbolo de tristeza, de vingança e do amor marcado pela tragédia.
História acima da água
Quem visitar Halfeti poderá também optar por fazer uma viagem de barco, com a duração de uma hora, ao longo do rio, alcançando a Fortaleza de Rumkale. Trata-se de um local que reflete a complexa e, não raras vezes turbulenta, história daquela região.
De barco, podem ver-se as fundações da fortaleza a sobressair, com pompa e circunstância, acima do rio. Acredita-se que estas datem do Império Bizantino, nos séculos V e VI d.C. Contudo, há fontes que sugerem que podem ter existido naquele local estruturas ainda mais antigas.
Já a pé, os turistas podem explorar os vestígios de fortificações arménias construídas durante os séculos XII e XIII, altura em que Rumkale se tornou residência do líder espiritual da Igreja Arménia. A fortaleza acabou por cair, depois, em 1292, nas mãos dos Mamelucos, uma poderosa classe de cavaleiros islâmicos, antes de ser tomada pelo Império Otomano mais de dois séculos depois.
A impressionante arquitetura de Rumkale serve como uma poderosa recordação da história desta região, que é complexa, cheia de camadas e, muitas vezes, sangrenta – e que deixou marcas profundas tanto na religião como na cultura locais.
Em 2013, Halfeti foi reconhecida como parte da rede Cittaslow, que significa “cidade lenta”. Trata-se de uma homenagem ao seu compromisso com a qualidade de vida através da preservação da cultura e das tradições locais. “As pessoas em Halfeti sentem uma ligação profunda com a história da sua terra, que é muito rica”, remata Yildirim.
