A gripe A também pode causar sequelas a longo prazo como a covid-19. Saiba quais

9 abr, 08:00
uanto às consequências da infecção, sejam a curto, médio ou longo prazo, estas tendem a ser mais comuns grupos de risco - pessoas com doenças crónicas e idosos -, que ficam sempre mais à mercê da ação do vírus. (Pexels)

Ansiedade, dores de cabeça e cansaço são alguns dos problemas que podem surgir a quem é infetado com o vírus influenza. Segundo os especialistas, tudo depende do estado de saúde, da idade, da proteção de quem é infetado e também do subtipo do agente

À semelhança do que acontece com o SARS-CoV-2, também o vírus Influenza, responsável pela gripe, pode deixar danos a médio e longo prazo.

Um estudo recente da Universidade de Oxford, publicado na PLOS Medicine, que compara doentes infetados com SARS Cov-2 e Influenza dá conta de que as pessoas que adoeçem com este último podem ter igualmente sintomas de longa duração, tal como acontece com a covid-19.

Quase 43% dos pacientes após a gripe tiveram pelo menos um sintoma idêntico aos de long covid, incluindo 29,7% durante o período de 90 a 180 dias (três a seis meses), concluiu a investigação. Entre os sintomas que persistem ou aparecem estão problemas como ansiedade, respiração anormal, fadiga e dores de cabeça nas mulheres, por exemplo.

O impacto da gripe a curto, médio e longo prazo depende de vários fatores, como o estado de saúde da pessoa que contrai o vírus, a sua idade e a sua proteção, isto é, se está vacinada ou não. 

Outra das situações que influencia a existência dos sintomas a longo prazo é o subtipo de Influenza que circula. Este pode ser mais transmissível e mais mortal, por exemplo, um pouco à semelhança do SARS-CoV-2, cujas variantes se mostraram mais ou menos nocivas para a saúde.

Segundo os especialistas, a persistência de sintomas ou sequelas  resultantes da gripe varia muito com a condição de saúde prévia da pessoa. E, no que diz respeito ao H3N2  - um dos dois tipos de gripe A e aquele que circula em Portugal  -, o maior risco está nas pessoas mais velhas, que têm a “imunidade comprometida” ou doenças crónicas, como “hepáticas, pulmonares e diabetes”, exemplifica Luís Rocha, pneumologista no Hospital Lusíadas e também dirigente da Fundação Portuguesa do Pulmão. 

Um risco para obesos, diabéticos e grávidas

Além destas doenças crónicas correrem o risco de se agravarem após a gripe, também o SNS destaca que esta doença, por ter origem num vírus que impacta o sistema imunitário, “é particularmente grave em pessoas imunodeprimidas”, incluindo as que têm infeção VIH/SIDA, as diabéticas, as grávidas, as pessoas com “obesidade extrema” e as portadoras de “doenças crónicas do foro cardíaco, pulmonar ou renal”.   

Por outro lado, os doentes considerados mais ‘frágeis’, uma ‘simples’ gripe pode causar “complicações e resultar em sub infecções, como pneumonia”, que por si só pode deixar danos, diz o especialista, embora não hesite em destacar que tal tende a acontecer em situações em que “há um maior compromisso” de saúde e resistência, mas que tal compromisso pode levar a um agravamento da sua condição de saúde, tornando-a mais debilitada. 

A idade é também um fator a ter em conta. Mesmo sendo elegíveis para a vacinação contra a gripe, que acaba por ser o melhor escudo-protetor contra a infecção e complicações, os mais velhos estão mais vulneráveis a complicações porque o sistema imunitário enfraquece à medida que os anos passam, perdendo pujança na luta contra infecções e aumentando o risco do aparecimento de outras infecções, explica o Instituto Nacional de Envelhecimento dos Estados Unidos. 

Nas pessoas que fazem parte do grupo de risco, “a recuperação pode ser mais longa e o risco de problemas e complicações é maior, nomeadamente, pneumonia ou descompensação da doença de base (asma, diabetes, doença cardíaca, pulmonar ou renal)”, esclarece o Serviço Nacional de Saúde (SNS) no seu site.

Uma investigação alemã, publicada na Frontiers in Cellular Neuroscience e ainda apenas com dados de experiências em animais, vai mais longe associa o vírus da gripe (cepa maHK68 - H3N2 - do vírus influenza A humano) à doença de Alzheimer.

Ciência de olho no impacto da gripe a longo prazo

A ciência tem estudado o impacto deste vírus já com características sazonais e mostra que, em alguns casos, a sua ação pode deixar rasto, havendo estirpes mais propensas a isso do que outras. E cada estirpe parece ter efeitos diferentes. 

Em 2017, um estudo publicado na Nature dava conta de que “os pacientes que sobrevivem à infecção pelo vírus influenza A (H7N9) [em 2013] correm o risco de complicações físicas e psicológicas de lesão pulmonar e disfunção de múltiplos órgãos”. As conclusões surgiram depois de avaliarem os pacientes dois anos após a infeção aguda. “O nosso estudo constatou que mais da metade dos sobreviventes da infecção pelo vírus H7N9 apresentou manifestações do trato respiratório após a alta hospitalar. A maioria dos sintomas melhorou num mês. Seis meses após a alta, mais de 80% dos pacientes voltaram ao trabalho e a percentagem de difusão anormal dos pulmões para monóxido de carbono (DLCO) foi menor. O compromisso psicológico persistiu durante todo o período de acompanhamento”, lê-se na investigação da Zhejiang University, na China.

No caso do H1N1, a gripe A que “foi pandémica em 2009”, como destaca Luís Rocha, os sintomas podem evoluir rapidamente e o risco de morte é maior em pacientes com doenças pulmonares, obesidade ou doenças neurológicas subjacentes, como concluiu um artigo publicado no National Center for Biotechnology Information.

No caso dos jovens, diz o médico Luís Rocha, “como não estão vacinados”, com a estirpe H1N1, por exemplo, surgem sintomas como “febre mais alta, tosse, dor de garganta, dor de cabeça e até sintomas digestivos e é isso o que faz a distinção entre a gripe A e gripe clássica e o que impacta o serviço de urgência” e levar a uma maior dificuldade de recuperação.

Sinusite, otite e bronquite são também algumas complicações que podem surgir após uma infecção pelo vírus Influenza e agravar o quadro clínico da pessoa ou persistir durante algum tempo, alerta o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, que revela ainda que “a gripe pode piorar condições médicas de longo prazo, como insuficiência cardíaca congestiva , asma ou diabetes” e causar também “inflamação muscular (miosite), problemas com o sistema nervoso central e problemas cardíacos, inflamação do órgão (miocardite) e inflamação do saco ao redor (pericardite)”.

Em determinados casos, a gripe pode até levar à morte. Segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos ao período pré-pandemia (2019), morreram 334 pessoas à boleia da gripe.

Para o médico Luís Rocha, “a melhor forma de proteção é a vacinação e as medidas contra o SARS-CoV-2, como a higienização das mãos, a limpeza de superfícies, o afastamento social e uso de máscara”.

Os casos de gripe em Portugal estão com tendência crescente em todo o país, segundo o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), que revelou que na semana passada foram detetados três casos de gripe A (subtipo AH3). De acordo com a Rede Portuguesa de Laboratórios para o Diagnóstico da Gripe foram identificados 643 casos positivos para o vírus da gripe, dos quais 637 do tipo A e 2 do tipo B. E há o relato de 65 casos de coinfecção de gripe e covid-19.

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