China: acidente mortal com autocarro de quarentena de covid causa revolta nas redes sociais

20 set, 06:31
Guiyang (Associated Press)

27 pessoas morreram quando eram transportadas de madrugada para um centro de quarentena de covid-19. A cidade de Guiyang registou apenas 2 vítimas da pandemia, mas chora a morte das vítimas das políticas de controlo da pandemia

A morte de 27 pessoas devido ao despiste do autocarro que as estava a transportar para um centro de quarentena de covid-19, no sudoeste da China, está a provocar uma onda de revolta nas redes sociais chinesas contra a continuação da política de “covid zero” no país. Apesar do rigoroso controlo estatal sobre as redes sociais, e a permanente censura de quaisquer críticas às políticas públicas, milhares de utilizadores de plataformas como o Weibo (a versão chinesa do Twitter) mostraram nos últimos dois dias a sua revolta pela perpetuação de medidas altamente restritivas em relação à pandemia, nomeadamente a prática de isolar pessoas em centros de quarentena a grande distância dos respetivos locais de residência.

Era esse o caso em relação aos 47 passageiros que seguiam no autocarro que, na madrugada de domingo, se despistou matando 27 pessoas e ferindo as outras vinte.

Eram todos residentes de Guiyang, a capital da província de Guizhou, que nas últimas semanas tem estado sob fortes medidas restritivas devido aos casos de covid-19. O autocarro, ao serviço do governo local, despistou-se às primeiras horas da madrugada de domingo numa auto-estrada, a cerca de 170 km da capital provincial. Tinha feito pouco mais de metade do caminho até ao seu destino, uma instalação de quarentena para covid-19 em Libo, uma região montanhosa a cerca de 280 km de distância da capital provincial.

Não se sabe quantas das pessoas que iam a bordo teriam sido diagnosticadas com covid, e quantas estariam a ser deslocadas apenas por terem tido contactos - ou supostos contactos - com pessoas que testaram positivo. Imagens divulgadas após o acidente mostram o que parece ser o autocarro malogrado, com todos os passageiros e o condutor a usar fatos brancos de proteção individual.

A prática agressiva de internamento compulsivo de doentes covid, mas também de quem vive no mesmo prédio ou no mesmo bairro dos casos confirmados, continua a ser regra na China, apesar dos protestos de milhões de pessoas. O lockdown de Xangai ao longo de dois meses foi um dos momentos mais notórios dessa prática radical de evacuação de edifícios e até de bairros inteiros.

Com a agravante - como se verificou neste caso - de os deslocados terem de percorrer centenas de quilómetros até ao local de isolamento, muitas vezes fora da cidade e até da província onde vivem.

A insistência das autoridades chinesas nesta política radical de isolamento e de evacuação voltou a ser alvo de milhares de críticas nas redes sociais chinesas após o acidente de domingo. A agência Reuters escreve que a notícia das 27 mortes provocou uma erupção de raiva contra as políticas rigorosas de Covid da China e contra a falta de transparência por parte das autoridades. "Todos nós estamos neste autocarro", foi um comentário popular a ser publicado na aplicação WeChat. "Quando é que tudo isto vai parar?" perguntou outro utilizador. 

Comentários com 400 milhões de visualizações

Todos estes comentários acabaram por ser apagados pelas autoridades que controlam as redes sociais. Mas a censura de Pequim não chegou para esconder o nível de revolta dos internautas.

Segundo o jornal de Hong Kong South China Morning Post, nas 24 horas após o acidente, surgiram mais de 69 mil comentários sobre o caso nas redes sociais. Apenas na plataforma Weibo, os comentários sobre este tópico foram vistos mais de 400 milhões de vezes. Um nível de engajamento e de revolta que, escreve o jornal, não se via desde os primeiros tempos da pandemia.
Alguns familiares de vítimas partilharam no Weibo a frustração com o que se passou. "[A minha mãe] vive em casa há meio mês e só saiu para fazer os testes de covid-19", escreveu uma mulher. "Ela tinha um código de saúde verde e um resultado negativo nos testes. Depois, foi arrastada para a quarentena e morreu no caminho. Não posso aceitar um final destes".
Segundo as autoridades, todos os passageiros estavam a ser transportados para o local de quarentena por terem sido "afetados pelos controlos de surtos de covid-19".

2 vítimas de covid; 27 vítimas da “covid zero”

"O que é que o governo irá dizer às pessoas?" escreveu outro utilizador do Weibo - "a covid não matou estas pessoas, elas foram mortas no caminho para serem colocadas em quarentena. Isso é realmente ridículo".

Um comentário que evidencia o contraste entre o número de vítimas da pandemia na província de Guizhou e a quantidade de vítimas deste acidente. Segundo os dados oficiais, toda a província registou apenas duas mortes relacionadas com covid desde o início da pandemia. "Esta é a maior tragédia resultante de medidas não científicas de controlo da covid", comentou outro utilizador do Weibo.

Guiyang, uma cidade de quase 6 milhões de habitantes, foi subitamente colocada sob lockdown no início deste mês, e muitos residentes têm enfrentado grandes dificuldades para obter comida e medicamentos, tal como está a acontecer um pouco por todas as regiões da China que continuam a ser colocadas sob medidas radicais de restrição de mobilidade. Medidas semelhantes têm sido aplicadas noutros locais da província de Guizhou.

Autoridades pedem desculpas e abrem inquérito

Perante a revolta nas redes sociais, as autoridades de Guiyang pediram desculpas às população e decretaram um inquérito para apurar o que aconteceu. O vice-presidente da autarquia prometeu também que seriam inspecionados os “riscos de segurança no transporte de pessoas para quarentena” - mas não há sinal de que esta prática venha a ser suspensa. Pelo contrário.

Entretanto, três funcionários públicos do distrito de Yunyan, de onde eram as vítimas que seguiam no autocarro, foram suspensos das suas funções enquanto são esperadas as conclusões da investigação, informou ontem o governo provincial.

Uma das causas do acidente poderá ser a hora tardia a que estava a ser feito o transporte, para um local distante numa zona montanhosa. Muitos utilizadores da Internet assinalaram a violação óbvia das regras nacionais de transporte, que proíbem a circulação de autocarros de longo curso nas auto-estradas entre as 2h e as 5h da madrugada, para evitar acidentes provocados por fadiga.

A prática de deslocar pessoas para centros de quarentena - ainda por cima tão distantes - também tem sido zurzida nos comentários online, até porque não há evidências de que esta opção seja mais eficaz do que o isolamento em casa. Pelo contrário, muitos comentários chamam a atenção para o óbvio: o transporte de dezenas de pessoas, ao longo de horas, num autocarro, pode ter como consequência a infeção de quem não estava infetado.

Contra todos estes argumentos, Hu Xijin, antigo editor-chefe do jornal estatal Global Times e habitual porta-voz informal dos argumentos do Partido Comunista Chinês, escreveu que o acidente deve ser visto apenas como uma questão de segurança rodoviária, e não como uma consequência das políticas estatais de prevenção da covid-19. Um comentário que ainda inflamou mais os ânimos dos internautas.

Nie Riming, investigador do Instituto de Finanças e Direito de Xangai, escreveu que as autoridades de Guiyang estão mais preocupadas com a propagação da covid-19 do que com os riscos de segurança do transporte noturno de pessoas para locais a grande distância. "Em Guiyang, as medidas contra a pandemia ultrapassam claramente todas as outras políticas de gestão de segurança, essa é a causa do acidente", escreveu o investigador.

Segundo as autoridades da cidade, entre quinta-feira e sábado não foi detetado qualquer novo caso de contágio nas rondas de testes feitas pela autarquia, pelo que o risco de transmissão comunitária terá sido “efetivamente travado”. O que torna ainda mais difícil de explicar por que razão este autocarro com 47 pessoas foi enviado para um centro de quarentena no domingo à noite.

Ásia

Mais Ásia

Patrocinados