Este artigo inclui uma comparação entre Bryan Cranston e João Catarré, dois dos melhores atores a fazerem aquilo que fazem
Quando é que somos mais felizes? Quando é que somos intrinsecamente e inconscientemente felizes? É mais ou menos fácil de admitir que isso acontece na infância, ou naquela fase em que já percebemos tudo, mas não temos praticamente responsabilidade de nada.
É provavelmente por isso que ver as temporadas “originais” de Morangos com Açúçar, por mais cringe que seja - e é -, se torna tão bom. Leva-nos de volta a um lugar onde não há problemas. E isso é único de uma franja da sociedade que hoje terá ali entre os 24 e os 40 anos, mais coisa, menos coisa.
Os que estavam a deixar de ser jovens adultos e os que o começavam a ser à medida que se surgia aquele que terá sido o maior fenómeno da televisão portuguesa este século.
Pois bem. Os Morangos com Açúçar não são propriamente a melhor obra de sempre da ficção portuguesa, e isso é fácil de perceber.
É muito estranho que existam tantas falhas no argumento. Coisas simples e engraçadas para quem não leva a sério - e também não é para levar -, como o facto de os filhos tanto tratarem os pais por tu, como por você. A Joana interpretada pela Benedita Pereira esquece-se várias vezes disso com a mãe e o pai. Se calhar porque a beta da Foz do Porto de vez em quando se esquece que ali tem de fazer de beta de Cascais, onde os tios são mais tios e o pai já tem de ser tratado por você. Não a palavra, que isso é "estrabaria" - já dizia a minha avó -, mas o pronome. É como diz o Ciberdúvidas: "É uma forma de tratamento muito comum num sociolecto, o conhecido sociolecto das 'Tias de Cascais' onde se generalizou o uso desta forma, quer se trate de indivíduos com muito ou pouco grau de intimidade".
Mas dão exatamente o mesmo conforto que outras pessoas têm ao ver Anatomia de Grey ou Friends. Ou até o mesmo conforto que gerações anteriores tinham em ver Cheers. Invariavelmente, são coisas que remetem para outros tempos e que, ao recordá-las, trazem também de volta as melhores recordações dessas vivências.
Provavelmente acontecerá mais à frente e talvez até já aconteça hoje com How I Met Your Mother ou Modern Family. Muitas vezes, mais do que ser bom ou mau, é um conforto. É uma coisa que dá para estar ali a passar enquanto estamos a fazer outra coisa e não precisamos de 100% de atenção para nenhuma delas. Ninguém vai ver Breaking Bad, Sopranos ou The Wire desta forma.
E também é uma espécie de banda sonora de uma fase da vida, de uma geração. É o guilty pleasure dentro do guilty pleasure. “Pictures of My Own”, dos Fingertips; “Gasolina”, de Daddy Yankee; “Paranormal Sun”, de Paranormal. Nenhuma delas é propriamente uma música de culto, mas são músicas de culto para uma geração muito específica. No caso são todas da temporada 2 - entre nós a melhor, que a história Ana Luísa/Simão e o confronto betos/dreads foi demasiado marcante.
Se a medição do que é bom ou mau for uma escala de felicidade e conforto, então Morangos com Açúcar é muito melhor que Breaking Bad ou The Wire, digam o que disserem. Nunca fui propriamente feliz a ver nenhuma das duas e duvido que alguém tenha sido, dado o lado negro das duas séries, por muita comédia que tenham nas entrelinhas.
São séries incomparavelmente mais bem feitas e Bryan Cranston é um bocadinho melhor ator que o João Catarré, mas quem é que define o que é o melhor? É o mais bem feito, ou é o que nos deixa mais felizes? Fica a questão.
O João Catarré nunca faria o Walter White, mas também não vejo o Bryan Cranston a gerir o Bar dos Rebeldes. À sua maneira, cada um fez bem o que lhe pediram.