Na Ucrânia a noite ganhou uma nova vida e dança-se com um objetivo final: "Festejar no túmulo de Putin"

CNN , Jasmin Sykes e Kosta Gak
8 mar, 17:23
Discoteca ucraniana (CNN)

A Rússia só quer uma coisa: "Que todas as pessoas vão embora". Em vez disto, estes jovens reúnem-se para dançar e ainda chamam soldados para se juntarem a eles no meio das batalhas

Silhuetas movem-se por entre ruelas escuras cobertas de neve e gelo, em direção à batida abafada que vem de um edifício de betão no centro de Kiev. Lá dentro, uma luz vermelha ténue desfoca os rostos de uma multidão dançante, os seus corpos suados pressionados uns contra os outros.

O brilho vermelho evoca as lanternas de baixa intensidade utilizadas pelos soldados nas linhas da frente contra a Rússia, a centenas de quilómetros a leste, enquanto tentam evitar ser detetados pelo inimigo. Mas para os frequentadores habituais da Closer, uma das discotecas mais famosas de Kiev, festejar é uma forma de esquecer a guerra - nem que seja por uma noite.

“É o que nos ajuda a manter a sanidade mental”, diz à CNN Valeriia Shablii, de 32 anos, que participou num evento da Closer realizado para celebrar a Maslenytsia - um festival eslavo que celebra o início da primavera. “Dizemos que é como um equilíbrio entre a vida na guerra e a vida normal.”

A guerra interrompeu grande parte da vida cultural da Ucrânia. Muitas salas de espetáculos fecharam desde a invasão em grande escala da Rússia, em fevereiro de 2022, e alguns artistas fugiram enquanto outros se juntaram às Forças Armadas.

Os frequentadores de uma discoteca dançam num evento realizado na Closer, uma discoteca em Kiev, a 21 de fevereiro, em comemoração de um festival eslavo que marca o início da primavera (Quinta Thomson/CNN)
Os frequentadores de uma discoteca dançam num evento realizado na Closer, uma discoteca em Kiev, a 21 de fevereiro, em comemoração de um festival eslavo que marca o início da primavera (Quinta Thomson/CNN)

Apesar disso, os ucranianos ainda se reúnem para festejar. A Closer, que ocupa uma antiga fábrica de fitas, fechou quando a guerra começou, mas reabriu apenas oito meses depois e, desde então, tem promovido eventos musicais quase todos os fins de semana.

Sob a constante ameaça de ataques com mísseis e drones, e após um inverno rigoroso agravado por repetidos apagões, a dança tornou-se uma válvula de escape emocional para a turbulência da guerra, garante Shablii.

“As pessoas estão realmente cansadas”, acrescenta. “Vir aqui e passar tempo com os amigos… isso une as pessoas.”

A mulher afirma que a cultura rave está viva, ainda que transformada, nas principais cidades da Ucrânia e emergiu como uma poderosa forma de resistência durante os quatro anos de guerra brutal com a Rússia.

“Não morreu”, vinca. “Vamos festejar no túmulo de Putin.”

Rave e resistência na Ucrânia

Mesmo antes da guerra, o cenário da música eletrónica na Ucrânia já estava intimamente ligado a ideias de resistência.

Após o colapso do Império Soviético na década de 1990, uma nova era de independência incentivou uma abertura às influências culturais ocidentais - em paralelo com outros pólos europeus de música eletrónica, hoje famosos, como Berlim.

Festas de grande escala, raves em espaços ocupados e festivais surgiram por toda a Ucrânia e Península da Crimeia, tornando-se espaços de liberdade de expressão e experimentação musical.

O surgimento da cultura rave na Ucrânia culminou em meados da década de 2010, com a formação das festas de culto Cxema de Kiev - raves gigantescas realizadas em armazéns urbanos ou debaixo de pontes - que viriam a alcançar reconhecimento internacional.

Um casal beija-se numa festa da Cxema em 2015. O fundador Slava Lepsheiev diz à CNN que as raves da Cxema eram espaços para a liberdade de expressão (Slava Lepsheiev/Cxema)
Um casal beija-se numa festa da Cxema em 2015. O fundador Slava Lepsheiev diz à CNN que as raves da Cxema eram espaços para a liberdade de expressão (Slava Lepsheiev/Cxema)

Os eventos tinham como objetivo “criar um espaço seguro e democrático” e “construir uma comunidade” para jovens descontentes que sofriam de insegurança económica após a Revolução Ucraniana de 2014, quando os manifestantes depuseram o então presidente Viktor Yanukovych devido ao que consideravam ser corrupção generalizada e abuso de poder, lembra Slava Lepsheiev, fundador da Cxema, à CNN.

“A resistência era dirigida contra o antigo sistema e a inércia soviética”, acrescenta Lepsheiev. “Após a invasão em grande escala, o vetor da resistência mudou e é agora dirigido contra o inimigo. Reunimo-nos e dançamos para nos mantermos fortes."

“Perante os horrores desta guerra, é especialmente importante para nós termos a oportunidade e o desejo de continuar a divertir-nos”, reforça Lepsheiev, acrescentando que as festas se tornaram um refúgio.

Mas organizar raves em tempo de guerra é difícil. Devido ao recolher obrigatório noturno, Lepsheiev nota que os eventos da Cxema decorrem durante o dia e são de menor dimensão por questões de segurança relacionadas com grandes aglomerações.

"Uma energia muito selvagem"

Os organizadores de eventos em clubes de outras partes da Ucrânia concordam que a guerra influenciou a cultura rave. “A festa tem mais energia”, diz Anton Nazarko, cofundador da Some People, um grupo que gere uma discoteca em Kharkiv. “[É] uma energia muito selvagem.”

Kharkiv fica apenas a 30 quilómetros da fronteira com a Rússia, e Nazarko explica à CNN que os soldados ucranianos por vezes assistem aos eventos do clube, que geralmente acontecem a cada duas semanas.

“De manhã, os amigos da nossa comunidade estão a lutar nas trincheiras. E à noite, vêm à nossa festa”, afirma. “Dançam como se fosse o último dia das suas vidas.”

Anton Nazarko, proprietário de uma discoteca em Kharkiv, na Ucrânia, diz à CNN que a guerra influenciou a cultura rave. "A festa tem mais energia", afirmou. "[É] uma energia muito selvagem" (Anton Nazarko)
Anton Nazarko, proprietário de uma discoteca em Kharkiv, na Ucrânia, diz à CNN que a guerra influenciou a cultura rave. "A festa tem mais energia", afirmou. "[É] uma energia muito selvagem" (Anton Nazarko)

A sede original da Some People em Kharkiv foi bombardeada poucos dias após o início da guerra, recorda Nazarko, embora ninguém tenha morrido. Conta também que membros da sua equipa venderam os seus pertences e pediram dinheiro emprestado para desenvolver a sua atual sede - o Centro da Nova Cultura - em 2023.

Nazarko sente que garantir a continuidade da vida cultural em Kharkiv é um contributo para o esforço de guerra.

“Isto é muito importante para a Ucrânia e muito importante para a cidade. Porque o exército russo quer uma coisa: que todas as pessoas se vão embora”, afirma. “É por isso que bombardeiam as infraestruturas elétricas, para que não tenhamos uma vida normal.”

A discoteca - que ocupa uma antiga fábrica de frigoríficos da era soviética - tem um gerador que permite que as festas continuem durante os apagões, e Nazarko afirma que o local também serve de abrigo antibombas para os residentes.

Nazarko e a sua equipa planeiam expandir o centro construindo um salão de exposições e um cinema. “Se a guerra não tivesse começado, talvez nunca tivéssemos iniciado este grande projeto”, nota. “Não sabemos quanto tempo vamos viver… não temos tempo para sonhar.”

Ucranianos dançam numa festa rave numa discoteca durante a guerra, em Kharkiv, a apenas 30 quilómetros da fronteira com a Rússia (Vyacheslav Prokhorov)

DJ's na linha da frente

Mas, para outros, a dura realidade da guerra afastou-os dos clubes da Ucrânia.

Daniel Detcom é agora sargento júnior nas Forças Armadas ucranianas e anteriormente serviu como fuzileiro e operador de drones. Mas antes da guerra, era um DJ e produtor de música techno bastante conhecido.

O seu conjunto de música eletrónica, Dots, sediado em Kiev, organizava festas populares que recebiam DJ's de todo o mundo, conta Detcom à CNN, que muitas vezes se surpreendiam com o quanto os ravers ucranianos gostavam de festejar. “Esses tipos diziam: ‘Qual é a dessa tua bailarina? Ela dança como uma louca!’”

Mas, à medida que a tensão entre a Ucrânia e a Rússia aumentava na preparação para a invasão em grande escala, Detcom começou a preparar-se para o conflito. Praticava numa carreira de tiro local e fazia aulas de medicina tática.

Apesar da sua carreira de DJ em ascensão, alistou-se no exército imediatamente quando a guerra começou. "Não pensei nisso como uma opção ou escolha", afirma Detcom à CNN. "Simplesmente pareceu certo".

Enquanto aguardava o regresso à linha da frente, Detcom admite à CNN que sente falta da "vibrante" cena rave que existia na Ucrânia antes da guerra. "Eram dias felizes e despreocupados", recorda. "A vida nunca mais será a mesma".

Antes da guerra, Daniel Detcom era um DJ e produtor de música techno bastante conhecido. Agora, é sargento júnior nas Forças Armadas ucranianas (Daniel Detcom)
Antes da guerra, Daniel Detcom era um DJ e produtor de música techno bastante conhecido. Agora, é sargento júnior nas Forças Armadas ucranianas (Daniel Detcom)

Detcom conseguiu continuar a produzir música no seu portátil enquanto servia no exército e até organizou várias festas Dots durante os seus períodos de folga da linha da frente - mas a cultura rave já não é tão despreocupada.

Embora os organizadores agora garantam geralmente a presença de equipas médicas, o DJ leva sempre dois kits de primeiros socorros quando vai a raves por causa da ameaça de ataques russos e geralmente mantém-se sóbrio.

A cultura rave evoluiu. “Agora são festas diurnas”, vinca Detcom. “Esta nova geração de frequentadores de discotecas, ravers e DJs nunca festejou à noite.”

Novas oportunidades

Mas, por outro lado, a guerra proporcionou oportunidades para os DJ e produtores de música eletrónica ucranianos.

“Sinto que há um grande impulso para os jovens artistas agora. Vejo caras novas todos os dias”, afirma Denys Yurchenko, diretor de arte da Kultura Zvuku, uma escola de DJ e produção musical em Kiev.

À CNN diz que, devido ao conflito em curso, menos artistas internacionais estão dispostos a viajar para a Ucrânia para tocar em discotecas, o que significa mais espaço nas programações de eventos para os produtores ucranianos de música eletrónica, que se sentem inspirados a experimentar.

Devido ao recolher obrigatório noturno, as raves decorrem agora durante o dia (Slava Lepsheiev/Cxema)
Devido ao recolher obrigatório noturno, as raves decorrem agora durante o dia (Slava Lepsheiev/Cxema)

As editoras discográficas têm demonstrado grande interesse em promover os artistas ucranianos durante a guerra do país com a Rússia, acrescenta Yurchenko, e os fundos angariados com a venda de algumas compilações de música eletrónica ucraniana, bem como de eventos em discotecas, têm sido utilizados para apoiar o esforço de guerra.

Detcom, Nazarko e Yurchenko já se apresentaram ou organizaram raves em apoio do esforço de guerra. "É absolutamente, 100% sobre resistência e ajudar o nosso país", garante Yurchenko.

Na discoteca Closer, em Kiev, esta resistência é acompanhada de esperança. "Estamos à espera da primavera", reforça Shablii.

Na pista de dança, os amigos abraçam-se; um jovem casal beija-se num sofá, num canto escuro. Apesar do frio no ar, grupos de amigos riem juntos no pátio exterior da discoteca, partilhando cigarros de palha.

Depois de um inverno rigoroso e quatro anos de guerra, os ucranianos ainda estão a desfrutar de raves.

Quinta Thomson e Clarissa Ward, da CNN, contribuíram para esta reportagem

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