Há uma "nova versão da República Islâmica" e esta é "muito mais zangada"
“Não se esqueçam de mim.” Este é o apelo desesperado da fotojornalista iraniana Yalda Moaiery, que passou mais de duas décadas a documentar a vida sob o regime iraniano, incluindo, mais recentemente, a sangrenta repressão dos protestos em janeiro, a guerra com os Estados Unidos e uma nova campanha de repressão em curso.
Moaiery, cujas histórias e fotografias foram publicadas em todo o mundo, tornou-se agora um alvo e foi condenada a 15 anos de prisão no início deste mês por um tribunal iraniano por “atividades em defesa dos interesses do regime sionista contra a segurança nacional”. A profissional espera recorrer da decisão.
Mesmo enquanto se prepara para a perspetiva alarmante de anos dentro do notório sistema prisional do Irão, Moaiery disse-me que continuará a testemunhar enquanto puder. “Não estou disposta a trabalhar como pessoa neste contexto de propaganda”, afirma. “Esse é o principal problema, mas todas as minhas entrevistas, todas as minhas fotos… tudo o que fiz como fotojornalista… é como um crime para eles, e estas são todas as minhas acusações, incluindo falar consigo.”
Entrevistei Moaiery pela primeira vez para a CNN em fevereiro, após os protestos antigovernamentais que se espalharam por mais de 100 cidades, impulsionados pela raiva em relação à crise económica do Irão e à repressão do governo.
A jornalista forneceu um raro relato em primeira mão a partir do interior do Irão, mesmo enquanto o regime tentava bloquear as comunicações com o exterior. Através de uma ligação à internet instável, disse-me que a dimensão dos protestos era algo que nunca tinha visto.
"Nunca vi uma multidão assim nestes 25 anos que trabalho como fotojornalista", disse na altura. "Foi incrível. Um número enorme de pessoas, centenas de milhares, estavam nas ruas, e grupos de pessoas como membros da família, todos os membros da família, até as crianças, os bebés, os idosos, todos estavam lá."
Mas, à medida que o governo reprimia as manifestações, matando milhares de pessoas, segundo estimativas de grupos de defesa dos direitos humanos, Moaiery disse-me que a esperança do povo tinha desaparecido.
“Péssimo – um dos momentos mais tristes da nossa história”, garantiu na altura. “Tenho 44 anos. Nunca senti nada assim. Nunca me senti tão desesperançada. E todas as pessoas com quem falo, as pessoas nas ruas… os meus amigos, toda a gente. As pessoas estão tão desesperançadas, tão tristes. E essa é a principal pergunta que fazem umas às outras… o que podemos fazer?”
Depois de os EUA e Israel terem declarado guerra ao Irão, em fevereiro, voltei a falar com Moaiery. Embora o governo continuasse a bloquear o acesso à internet, ela conseguiu dizer-me que muitos iranianos com quem falou esperavam que o conflito pudesse derrubar o regime.
“As pessoas apoiam a guerra”, contou-me. “Tenho de ser honesta… as pessoas querem que a guerra continue porque tentaram muitas formas pacíficas de mudar este regime.”
Seis meses depois, porém, com a guerra a arrastar-se sem fim à vista e a pressão económica e política a intensificar-se, perguntei a Moaiery se aquela esperança inicial de mudança ainda existia. “Não, de todo”, admitiu já esta semana. “Durante a guerra… conheci muitas pessoas que queriam que ela continuasse, mas a situação mudou muito e as pessoas já não pensam assim.”
“A maioria delas está a pensar na situação económica”, continuou. “As pessoas não conseguem satisfazer as necessidades básicas… a verdadeira guerra está aqui. A verdadeira guerra é a economia agora.”
De uma forma mais abrangente, disse-me que ela e muitas pessoas que entrevistou acreditam que a guerra fortaleceu o regime. "Mais forte, infelizmente", explicou. "Estamos perante... a pior versão da República Islâmica que já vi... Sou filha da República Islâmica. Nasci poucos anos depois de o regime ter assumido o poder, mas nunca vi nada assim em toda a minha vida."
"A nova versão da República Islâmica é muito mais zangada, muito mais agressiva", reiterou.
Moaiery estava a sentir essa agressividade enquanto conversávamos. Contou que, horas antes da nossa última entrevista, as autoridades iranianas ameaçaram invadir a sua casa caso voltasse a falar com a imprensa internacional.
"Ameaçaram-me horas antes, dizendo que se voltasse a falar com alguém – claro que não mencionaram o meu nome –, se falasse com alguém sobre este caso, iriam novamente a minha casa, invadiriam a minha casa novamente e confiscariam os meus telemóveis", contou.
Contudo, demonstrando mais uma vez a coragem e a determinação que já lhe são familiares, insistiu: “Não me importo. Quer dizer, claro que tenho medo do que vai acontecer. Quinze anos é uma vida inteira, mas… este é o risco que assumi durante toda a minha vida para dizer a verdade, para mostrar a verdade, para ser uma jornalista e fotojornalista independente.”
“Não vou desistir. Não me arrependo de nada”, acrescentou.
Nós, na CNN, levamos as acusações contra Moaiery muito a sério. Antes da nossa mais recente entrevista, perguntei-lhe se temia que falar comigo pudesse piorar a sua situação. Ela disse que, pelo contrário, acreditava que “com certeza ajudaria”, acrescentando: “Temos de fazer esta entrevista.”
A opinião de Moaiery não é incomum. Outros detidos pelo regime iraniano, incluindo os jornalistas Jason Rezaian e Roxana Saberi e o empresário Siamak Namazi, afirmaram que a atenção pública dada aos seus casos, incluindo a cobertura e as entrevistas nos meios de comunicação internacionais, ajudou a pressionar para que conseguissem finalmente a sua libertação.
Essa continua a ser a sua esperança, agora que enfrenta a assustadora perspetiva de uma longa pena de prisão.
“Como jornalista, como jornalista independente, não temos qualquer arma”, disse-me. “Temos apenas os media e a verdade, e é isso que tento sempre preservar. Acredito que, ao informar as pessoas sobre o que se passa no meu país, sobre o que se passa comigo ou sobre o meu caso, isso será muito importante.”
“Isto ajudará outros jornalistas em todo o mundo que vivem sob regimes autoritários”, continuou. “Penso que é uma solução global para todos nós e, com certeza, será útil.”
Foi então que ela acrescentou aquelas palavras impactantes: “Não se esqueçam de mim”, ao que respondi: “Não nos esqueceremos de ti”.
