Será que a União Europeia conseguirá encontrar o seu lugar no mundo Trump 2.0 ou está destinada a perder relevância no tabuleiro geopolítico dominado por potências estrangeiras?
Vulnerável militarmente, cada vez mais distante economicamente da maior potência mundial e com a sombra do populismo pronta para minar a coesão do continente, a União Europeia está a ficar para trás e o regresso de Donald Trump ameaça aprofundar ainda mais uma relação que já era desequilibrada. Com uma guerra no seu quintal e a incerteza do apoio da nova administração americana, os especialistas acreditam que o bloco dos 27 está à beira de um precipício estratégico que “pode representar o seu fim”, no entanto, sublinham que esta “tempestade perfeita” também abre a porta para “uma grande oportunidade”.
“A Europa é um continente absolutamente dependente de terceiros para quase tudo. Quando um grupo de países [...] desiste de serem potências militares, cedo ou tarde eles vão pagar o preço. E o preço em relações internacionais é não poder decidir internacionalmente. Se a Europa for afastada por Trump de um processo de paz na Ucrânia, é o fim de uma era europeia [...], é o fim das oportunidades da Europa de se tornar um ator internacional com alguma preponderância no novo sistema internacional que está a surgir", alerta Diana Soller, especialista em Relações Internacionais.
Quando na madrugada de 24 de fevereiro de 2022 os militares russos invadiram a Ucrânia, a Europa acordou em choque. Não só a guerra em larga escala estava de regresso ao continente, como anos de desinvestimento nas forças armadas deixavam à vista de todos que algumas das principais potências europeias pouco podiam fazer para travar a situação. As suas reservas eram limitadas e qualquer apoio à Ucrânia colocava em causa a prontidão das suas próprias forças armadas, com reservas que durariam apenas “dias” em caso de um ataque.
A “salvação” foi o gigante militar norte-americano. Desde os primeiros dias da guerra, a administração Biden enviou 65 mil milhões de dólares em ajuda militar para a Ucrânia, que foram fundamentais para manter viva a resistência de Kiev. Só que a fatura dessa dependência pode estar prestes a chegar com a nova administração americana. Ao longo dos anos, o futuro presidente norte-americano, Donald Trump, acusou os países europeus da NATO de “viver à custa” do exército americano, sugeriu que deixaria a Rússia “fazer o que quisesse” com os países que não gastam suficiente e insistiu para que estes países aumentassem os seus investimentos na defesa da aliança para 5% do PIB - a atual exigência é de 2%, mas há nove países, incluindo Portugal, que nem a esse valor chegam.
Agora, de regresso à Casa Branca, eleito com a promessa de colocar um fim na guerra - primeiro em "24 horas", agora em "meses" -, Donald Trump tem nas suas mãos não só o destino da Ucrânia, mas o destino do continente e do projeto europeu. E esse perigo pode chegar logo nos primeiros dias da sua administração, caso os Estados Unidos optem por seguir a sugestão do ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, e negociar diretamente com a Rússia, sem a presença da Ucrânia e das principais potências europeias. Um cenário que poderá ter consequências muito graves para a União Europeia.
“A Rússia expressou o seu ponto de vista em relação à posição de Donald Trump e deu um novo dado: que gostaria de se sentar à mesa de negociações sem a presença da Europa, ou seja, apenas com os Estados Unidos como único interlocutor. Isto coloca a União Europeia numa encruzilhada histórica, num momento de afirmação ou negação da Europa. Se o regresso de Donald Trump à Casa Branca vai ser bom ou mau para a Europa? A resposta depende da Europa”, defende o professor catedrático José Filipe Pinto, especialista em Relações Internacionais.
Autonomia estratégica - a que preço?
Por outras palavras, a Europa precisa de recuperar a sua “autonomia estratégica” nas áreas da Defesa, da Economia e da Tecnologia o quanto antes para poder tentar inverter o caminho de que outras potências, como os Estados Unidos e a Rússia, possam tomar decisões acerca do seu futuro sem consultar a Europa. As mais recentes palavras de Donald Trump acerca da aquisição de territórios de países aliados, como o caso do território autónomo dinamarquês da Gronelândia, onde o presidente norte-americano não exclui a utilização de força militar para a sua anexação são o mais recente exemplo disso.
Mas três anos depois de ter começado a invasão, a União Europeia continua atrasada nas suas tentativas de rearmamento. Apesar de um número cada vez maior estar mais perto do compromisso de investimento de 2% do PIB em defesa - os gastos em Defesa dos Estados-membros aumentaram 30% desde o início da guerra, para 326 mil milhões de euros, o que representa 1,9% do PIB da União - esse número é muito pequeno quando comparado com o rival russo, que está a investir cerca de 40% do PIB em segurança e defesa, quase metade de todo o seu orçamento. De acordo com o think tank belga Bruegel, com os custos ajustados aos salários, a Rússia gasta mais em defesa que as quatro principais potências militares europeias, Reino Unido, França, Alemanha e Polónia, juntas. Estima-se que a cada 12 meses a Rússia produza equipamentos militares equivalentes à totalidade do material utilizado pelo exército alemão.
Alguns líderes como Emmanuel Macron têm, ao longo dos anos, defendido que, para seguir um caminho de independência, a União Europeia deve criar um exército comum para se tornar independente militarmente dos Estados Unidos da América. A pressão é grande, mas o futuro do continente e da qualidade de vida dos seus cidadãos depende de os líderes europeus conseguirem esquivar-se ao “grande risco” de ser “apanhado em crises que não são nossas”, insistiu Macron em 2023. Só que esta ideia encontra a resistência de alguns dos principais membros da União. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, sugere que o caminho é mesmo um aumento conjunto dos gastos da Defesa acima dos 2%. Em teoria, se todos os países da NATO gastassem tanto como a Polónia em Defesa, os exércitos europeus seriam dez vezes superiores ao russo.
“A ideia de um exército europeu não é nova, mas depois levanta-se sempre uma questão: vamos construir um exército europeu à custa do quê? Das forças de cada país europeu da NATO ou vamos criar outras forças paralelas? Esse debate só faz sentido no dia em que a União Europeia for uma federação, que não é o caso”, admite o major-general Isidro de Morais Pereira.
É reconhecido por quase todos os países na Europa que as forças armadas de cada país precisam de mais dinheiro para que o continente consiga alcançar autonomia estratégica na área da Defesa. Idealmente fá-lo-ia comprando equipamento militar de empresas europeias de forma a estimular uma indústria que precisa de ser reavivada, mas em algumas áreas - como é o caso dos aviões de combate de sexta geração - isso é simplesmente impossível.
Anos de desinvestimento levaram a que as empresas de armamento europeias simplesmente ficassem para trás tecnologicamente em alguns setores-chave. E isso coloca a Europa numa posição em que está obrigada a comprar aos norte-americanos se quiser estar na vanguarda tecnológica. Um exemplo disso é a compra de caças F-35. Treze países europeus já compraram o avião de combate furtivo e outros, como Portugal e Espanha, estão a estudar fazê-lo.
Nos últimos dois anos, 78% do equipamento militar comprado pelos Estados-membros foram adquiridos fora do bloco. Por isso, países como França estão a utilizar todos os seus instrumentos diplomáticos para convencer os restantes membros da União Europeia de que os 27 precisam de focar as suas compras militares em empresas da indústria europeia, de forma a recuperar independência de países como os Estados Unidos. Mas nem todos concordam. Berlim e Varsóvia argumentam que a urgência da ameaça russa faz com que seja necessário adquirir armamento, independentemente da origem.
Em março, a Comissão Europeia lançou a Estratégia Industrial de Defesa Europeia para impulsionar o fabrico de armamento que a Europa precisa para reconstruir as suas forças armadas através de subsídios. O plano pretende que os países europeus gastem 50% do seu orçamento de Defesa em fornecedores europeus, até 2030, e 60%, até 2035, num esforço de criar novas linhas de produção e novas fábricas que fortaleçam a rede logística europeia, para reduzir significativamente a necessidade de importar componentes e matérias-primas do exterior.
“A Europa precisa acelerar a reindustrialização do setor de defesa para garantir a sua autonomia estratégica, especialmente diante de potenciais cortes no apoio dos Estados Unidos. Nós já estamos a ver países europeus começarem a colocar o complexo industrial-militar a funcionar, porque não há outro caminho para garantir uma resposta eficiente a ameaças crescentes. Se a Europa quiser ter uma defesa a sério, tem de ir além do compromisso de 2% com a NATO”, afirma o major-general Isidro de Morais Pereira.
Só que tudo isto é mais fácil dito do que feito. As regras europeias proíbem a utilização de fundos europeus para a compra de armamento, obrigando os Estados-membros a fazerem as compras a partir do seu próprio orçamento. E isso, neste momento, pode ser um fator limitador para uma parte significativa dos países, uma vez que a União Europeia encontra-se hoje no meio de “uma tempestade perfeita”, com países como a França, Espanha e Itália a atingir rácios de endividamento em relação ao PIB que ultrapassam os 100%, impedindo-os de contrair dívida para comprar armamento. Em simultâneo, a maior economia europeia, a Alemanha, está a sofrer com o aumento dos custos da energia e uma quebra das exportações para China.
A sombra da democracia
A economia europeia, que no início do século tinha uma dimensão semelhante à dos Estados Unidos da América, está a ficar cada vez mais para trás. Ao mesmo tempo, Washington e Pequim estão a “despejar” centenas de milhares de milhões para expandir áreas críticas que vão dominar a indústria nas próximas décadas, como a indústria dos semicondutores, a indústria automóvel e o setor tecnológico. Em resposta, a Comissão Europeia encomendou um relatório ao antigo líder do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que pedia um forte investimento em energia limpa, tecnologias de ponta e resiliência, com um investimento anual de 800 mil milhões de euros.
Para encontrar o dinheiro necessário, Draghi argumenta que a Europa deve quebrar o tabu do endividamento coletivo, à semelhança do que foi feito de forma excecional durante a pandemia de covid-19. Só que nações como a Alemanha e os Países Baixos não aparentam estar disponíveis para dar esse passo, nem mesmo com a urgência da ameaça russa, condenando o plano a um fracasso anunciado.
“Se nada mudou depois da anexação da Crimeia, da primeira administração Trump, da invasão da Rússia à Ucrânia e da segunda administração Trump, eu não sei o que é preciso acontecer para mudar”, frisa Diana Soller.
Mas mesmo que o debate político em torno da necessidade de reformar seja capaz de convencer países como a Alemanha e os Países Baixos, a União Europeia enfrenta problemas internos difíceis de resolver. Um pouco por toda a Europa, os partidos populistas de ambos os espectros políticos têm vindo a ganhar força entre os eleitores europeus. Pelo menos três países já elegeram líderes populistas pró-Putin, que ameaçam travar medidas importantes do bloco. Hungria, Eslováquia e agora Áustria têm governos que defendem o reaproximamento a Moscovo, e a Roménia pode estar perto de seguir o mesmo caminho.
A eleição de governos que são contra o envio de apoio militar à Ucrânia e que são contra o esforço de rearmamento europeu acabam por tornar ainda mais difícil qualquer entendimento coletivo para reformar a União Europeia no sentido de ganhar autonomia estratégica, abrindo a porta ao veto de medidas cruciais para estes esforços. José Filipe Pinto defende que a Europa deve equacionar evocar o artigo 7.º e retirar o direito de voto no Conselho Europeu aos Estados que colhem os benefícios da União Europeia, mas que rejeitam os seus valores.
Lidar com os problemas estruturais internos de cada um destes países pode ser um dos principais problemas que a União Europeia enfrenta. Um pouco por toda a região, políticos e partidos eurocéticos ou soberanistas estão a ganhar cada vez mais espaço. Os movimentos populistas de direita e de esquerda estão a cavalgar o descontentamento da população com a imigração e com a economia, que não veem nos partidos tradicionais as respostas para as suas ansiedades. A única forma de contrariar estes movimentos é ter os partidos tradicionais a responder a esses temas sem rodeios.
“O populismo acompanha a democracia como uma sombra. A democracia representativa só pode vingar, só pode controlar o populismo, se entrar numa perspectiva de não ter questões tabu e de afastar os partidos populistas das suas bandeiras. Todos estes fatores colocam a Europa em risco mortal”, insiste José Filipe Pinto.
A União Europeia encontra-se numa bifurcação histórica. Entre a ameaça externa representada pela guerra na Ucrânia e a imprevisibilidade de um possível regresso de Donald Trump à presidência dos EUA, o bloco europeu precisa urgentemente de definir o seu próprio rumo em matéria de Defesa, Economia e coesão política. O dilema é claro: sem mudanças profundas a Europa corre o risco de se tornar um mero espetador no tabuleiro geopolítico dominado por potências estrangeiras. Mas em todas as crises, a oportunidade continua à espreita.
“Ainda não é a hora da missa do 7.º dia da União Europeia. A Europa enfrenta uma ‘tempestade perfeita’, cercada por crises externas e internas, mas o impacto de um segundo mandato de Donald Trump dependerá menos dele e mais da capacidade europeia de adaptar-se e assumir o controle do seu destino. Apesar de tudo, ainda há tempo. Isso exigirá enfrentar decisões difíceis, mas a União Europeia precisa de se transformar num protagonista global, sem subserviência, construindo um caminho próprio no mundo de múltiplas ordens”, defende José Filipe Pinto.
