Um batalhão de extrema-direita tem um papel fundamental na resistência da Ucrânia. A sua história neonazi foi explorada por Putin

CNN , Análise de Tara John e Tim Lister
31 mar, 09:00
Membros do regimento Azov e veteranos marcham com tochas para celebrar o Dia do Defensor da Ucrânia, em Kiev, a 14 de outubro de 2016. Foto: GENYA SAVILOV/AFP via Getty Images

No seu auge como milícia autónoma, o Batalhão Azov estava associado a supremacistas brancos e a ideologias e insígnias neonazis. Um histórico que não foi totalmente extinto pela integração nas forças armadas ucranianas.

O presidente Vladimir Putin enquadrou a invasão russa da Ucrânia como uma “missão especial” para proteger os falantes de russo do genocídio às mãos dos “neonazis”.

Num discurso transmitido na televisão minutos antes do início da invasão a 24 de fevereiro, Putin disse: “Vamos tentar desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia”, ignorando o facto de o presidente do país, Volodymyr Zelensky, ser judeu.

Para o Kremlin, a principal prova que valida esta missão especial é o movimento de extrema-direita Azov, que faz parte do cenário militar e político da Ucrânia há quase uma década.

As alas militar e política do Azov separaram-se formalmente em 2016, quando foi fundado o partido de extrema-direita Corpo Nacional. O Batalhão Azov já tinha, na altura, sido integrado na Guarda Nacional Ucraniana.

Sendo uma força de combate eficaz e muito envolvida no conflito atual, o batalhão tem um histórico de tendências neonazis, que não foram totalmente extintas pela integração nas forças armadas ucranianas.

No seu auge como milícia autónoma, o Batalhão Azov estava associado a supremacistas brancos e a ideologias e insígnias neonazis. Esteve especialmente ativo em Mariupol e nos arredores da cidade, em 2014 e 2015. As equipas da CNN na região, na época, relataram a adoção de emblemas e parafernálias neonazis pelo Azov.

Após a integração na Guarda Nacional Ucraniana, enquanto se discutia no Congresso dos EUA se o Movimento Azov seria designado como uma organização terrorista estrangeira, o então Ministro da Administração Interna da Ucrânia, Arsen Avakov, defendeu a unidade. “A vergonhosa campanha de informação sobre a alegada disseminação da ideologia nazi (entre membros do Azov) é uma tentativa deliberada de desacreditar a unidade 'Azov' e a Guarda Nacional da Ucrânia”, disse ele ao jornal online Ukrayinska Pravda, em 2019.

O batalhão ainda opera como uma entidade relativamente autónoma. Tem-se destacado na defesa de Mariupol, nas últimas semanas, e a resistência que oferece tem sido amplamente elogiada pelos membros do governo.

Para Putin, que afirmou erradamente que o governo da Ucrânia é dirigido por “viciados em drogas e neonazis”, o Azov continua a ser um alvo óbvio. Moscovo deu ao regimento um papel desproporcional no conflito, acusando-o repetidamente de abusos dos direitos humanos.

A 7 de março, o embaixador da Rússia nas Nações Unidas culpou o regimento Azov de bloquear um corredor de evacuação da cidade portuária sitiada, dizendo que os membros do regimento estavam a usar “os cidadãos como escudos humanos”. Essa afirmação foi repetida de forma consistente nos média russos.

No mesmo dia, o Major Denis Prokopenko do Batalhão Azov, disse num vídeo publicado no Twitter do regimento que as “tentativas de organizar um corredor seguro para a (transferência) de civis… falharam por causa das várias ações do inimigo (forças russas) na zona de atuação.”

Após o bombardeamento de um teatro em Mariupol que abrigava civis e tinha a palavra “crianças” escrita em russo em ambos os lados do edifício, o Ministério da Defesa russo acusou os “militantes do batalhão nacionalista 'Azov'" de realizar o ataque.

No manual russo da desinformação, o movimento Azov é um alvo tentador - um alvo onde os factos e a desinformação podem ser eliminados.

Cidadãos de Kiev participam num treino militar para civis conduzido por veteranos do regimento Azov a 12 de fevereiro de 2022.Foto: Sergei Chuzavkov/SOPA Images/LightRocket via Getty Images


A existência de um elemento Azov identificável dentro das Forças Armadas ucranianas - um elemento eficaz - coloca questões desconfortáveis ao governo ucraniano e aos seus aliados ocidentais, que continuam a enviar armas para o país.

A CNN entrou em contato com o Ministério da Defesa da Ucrânia para obter um comentário.

Num passado não muito distante, a liderança do Azov abraçou abertamente as visões da supremacia branca e cultivou ligações com grupos e indivíduos de mentalidade semelhante no Ocidente.

Em 2010, Andriy Biletsky, agora líder do Partido Corpo Nacional, o braço político do Azov, disse alegadamente que o seu objetivo era “liderar as raças brancas do mundo numa cruzada final”.

Em comunicado à CNN, o regimento Azov disse que “valoriza e respeita Andriy Biletsky como fundador e primeiro comandante do regimento, mas não tem nada que ver com as suas atividades políticas e o Partido Corpo Nacional” - acrescentando que o antigo comandante nunca teceu tal comentário.

A declaração dizia que a “motivação do Azov sempre irritou a Rússia. Portanto, os ataques de desinformação sobre o regimento Azov não pararam desde 2014”.

Acrescentou que o movimento “nega repetidamente alegações de fascismo, nazismo e racismo” e tem ucranianos de todas as origens, incluindo “gregos, judeus, tártaros da Crimeia e russos” que “continuam a servir no Azov”.

“A maioria fala russo e é ortodoxa. Mas há católicos e protestantes, pagãos e aqueles que professam o islamismo e o judaísmo, e há também ateus”, afirmou o Azov.

Observou que o papel do regimento Azov é “o de uma unidade especial da Guarda Nacional da Ucrânia, e está subordinado exclusivamente ao supremo Comandante-Chefe - o presidente da Ucrânia que, a propósito, é judeu”.

“Seria absurdo pensar que estamos unidos pela ideia de racismo branco ou nazismo”, acrescentava o comunicado do Azov.

Apesar da notoriedade internacional do movimento Azov, a Ucrânia “não é um escoadouro para os simpatizantes do nazismo”, segundo afirma Alexander Ritzmann, consultor sénior do Counter Extremism Project (Projeto Contra o Extremismo), com sede em Berlim.

Ele observou que, nas últimas eleições na Ucrânia em 2019, o braço político do Azov ganhou apenas 2,15% dos votos e Biletsky perdeu o seu assento no parlamento.

Além disso - diz Ritzmann - também há proeminentes atores de extrema-direita na Rússia. “Há um problema de extrema-direita em ambos os lados do conflito, mas parece haver alguma dualidade quando só se fala do problema da extrema-direita na Ucrânia”, disse ele.

As origens do Azov

O Batalhão Azov foi formado em 2014, no mesmo ano em que os rebeldes apoiados pela Rússia começaram a ocupar o território na região leste de Donbass, na Ucrânia, e em que a Rússia invadiu e anexou a Crimeia. Na altura, o Ministério da Defesa da Ucrânia encorajou os batalhões de voluntários a juntarem-se à campanha de resistência e a ajudarem o exército em dificuldades.

O papel do batalhão na recuperação de Mariupol, em junho de 2014, das forças apoiadas pela Rússia deu aos membros do batalhão um “estatuto de herói” na Ucrânia, disse Ritzmann.

Mas esse estatuto trazia bagagem - as visões de extrema-direita de alguns membros e as insígnias neonazis. Entre elas estavam o Sol negro, “um símbolo pagão usado pelos nazis para a sua pseudorreligião”, e o Wolfsangel, “um símbolo que os radicais de extrema-direita também adotaram”, disse Ritzmann.

Andriy Biletsky, líder do partido político Corpo Nacional, disse alegadamente que o seu objetivo era “liderar as raças brancas do mundo numa cruzada final”. Foto: Pavlo Gonchar/SOPA Images/LightRocket via Getty Images


Andriy Biletsky, líder do partido político Corpo Nacional, disse alegadamente que o seu objetivo era “liderar as raças brancas do mundo numa cruzada final”.

Os líderes do Azov negaram as ligações neonazis, dizendo que o “N” e o “I” do símbolo Wolfsangel significam “ideia nacional”.

Embora o Batalhão Azov tenha sido cofundado por Biletsky, que anteriormente liderou o grupo radical de direita Patriotas da Ucrânia, o grupo foi armado pelo Estado e parcialmente financiado por oligarcas locais do leste da Ucrânia. Esse financiamento incluiu dinheiro do magnata judeu Ihor Kolomoisky, disse Ritzmann. O Departamento de Estado dos EUA sancionou Kolomoisky em março de 2021. No ano anterior, o Departamento de Justiça dos EUA colocou-o sob investigação por acusações de peculato e fraude.

A CNN entrou em contacto com o advogado de Kolomoisky para obter um comentário.

Em 2016, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos acusou grupos armados de ambos os lados do conflito em Donbass, incluindo o Azov, de abusos dos direitos humanos.

Alcance internacional

Quando o Batalhão Azov foi colocado sob o comando do Ministério da Administração Interna como um regimento, em 2014, “combatentes politicamente motivados como (Andriy) Biletsky saíram e fundaram o movimento Azov para que pudessem fazer o seu trabalho ultranacionalista e de extrema-direita, que não eram autorizados a fazer nas Forças Armadas ucranianas”, disse Ritzmann.

O partido político formado por Biletsky, o Corpo Nacional, que o Departamento de Estado dos EUA descreveu em 2018 como um grupo nacionalista de ódio, “é essencialmente a espinha dorsal do que hoje chamamos movimento Azov”, disse à CNN Kacper Rekawek, investigador do Centro de Pesquisa sobre o Extremismo (C-REX) da Universidade de Oslo.

“O movimento Azov é um jogador-chave perigoso da extrema-direita transnacional e há vários anos que serve como um centro dessa rede, com fortes laços a radicais de extrema-direita em muitos países da União Europeia e nos Estados Unidos”, disse Ritzmann.

Olena Semenyaka, responsável pelo departamento internacional do Corpo Nacional, participou num festival em 2018 organizado por neonazis alemães; e, em 2019, falou no Scanza Forum de extrema-direita, na Suécia, ao lado do neonazi britânico Mark Collett.

Desde a sua criação em 2014, o movimento Azov cresceu e inclui uma milícia, colónias de verão para as crianças e centros de treino paramilitar. Realiza atividades, incluindo festivais de música, eventos políticos e torneios de artes marciais mistas, tal como se promove no espaço internacional da extrema-direita.

O Corpo Nacional demonstrou repetidamente o seu desdém pelos valores liberais no tratamento de minorias - com poucas repercussões.

Um relatório de 2018 do Departamento de Estado dos EUA descobriu que a milícia do movimento “atacou e destruiu um acampamento Romani em Kiev, depois de os moradores não terem respondido ao ultimato para deixarem a zona no prazo de 24 horas”, tudo à vista da polícia local.

A “Estrela da Morte”

Embora a perspetiva mundial da tendência de extrema-direita do movimento Azov seja clara, houve um intenso debate sobre se o Batalhão Azov devia ser classificado como uma “organização terrorista estrangeira” pelo Departamento de Estado dos EUA.

“As pessoas acham sempre que (o regimento Azov e o movimento Azov) são uma Estrela da Morte”, disse Rekawek. “A cada ano que passa, as ligações (entre o regimento e o movimento) vão sendo mais fracas”, disse ele, explicando que as fileiras do batalhão incluem agora ucranianos sem afinidade com o passado neonazi.

Ritzmann diz que o elemento de extrema-direita no exército ucraniano não é diferente do que foi detetado noutras Forças Armadas, como na Alemanha e nos EUA.

“Presumivelmente, há radicais de extrema-direita a servir nas Forças Armadas ucranianas como há em todas as outras Forças Armadas – embora não estejam disponíveis dados válidos sobre os números exatos”, disse ele.

“Em 2015, o próprio Regimento Azov afirmou ter entre 10% a 20% de radicais de extrema-direita nas suas fileiras”, mas esses números são possivelmente menores hoje, disse ele.

Mas o regimento continua a usar o símbolo Wolfsangel, e os líderes do movimento Azov, que costumavam ser comandantes da unidade, continuam a visitá-lo, disse Oleksiy Kuzmenko, jornalista de investigação ucraniano-americano dedicado à extrema-direita ucraniana.

“O atual líder do Regimento Azov, Denis 'Redis' Prokopenko, faz parte do núcleo duro do movimento Azov desde 2014 e serviu sob comandantes que passaram a liderar as alas políticas e de rua do movimento”, disse Kuzmenko à CNN.

O adjunto de Prokopenko, Svyatoslav "Kalyna" Palamar, elogiou explicitamente o fundador do movimento, Biletsky, dizendo que ele é “um líder que 'encontra patrocinadores que investem realmente dinheiro' no regimento”, disse Kuzmenko.

Kuzmenko sublinha que, a partir de 2021, o regimento estava “ativamente envolvido no treino dos líderes juvenis do movimento”, e o site do regimento tem um link para o canal do movimento no YouTube.

“A inação da Ucrânia e do Ocidente em relação a estas questões abriu caminho para que Putin literalmente os armasse contra a Ucrânia numa tentativa de justificar a sua agressão”, disse Kuzmenko.

“Embora seja correto afirmar que a extrema-direita da Ucrânia tem um apoio eleitoral mínimo, o Azov gozou de uma quase impunidade pela violência contra as minorias, não foi controlado nos seus esforços para ganhar influência nas forças militares e de segurança, e foi normalizado pelos líderes da Ucrânia”, disse ele.

Combatentes estrangeiros

Desde a sua formação que o movimento Azov tem recrutado combatentes estrangeiros motivados pela supremacia branca para lutar na Ucrânia, dizem os especialistas. A invasão em grande escala do país pela Rússia e o apelo de Zelensky para que voluntários estrangeiros se juntassem à luta, levantaram preocupações em relação à radicalização na guerra.

“A minha preocupação é que as pessoas, especialmente os radicais de extrema-direita na Europa, ganhem experiência de combate e treino no teatro de operações ucraniano e depois usem isso para levar a cabo ataques terroristas na Europa”, disse à CNN Colin P. Clarke, investigador do Centro Soufan, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa de política externa sediada em Nova Iorque.

Em 2020, o Buzzfeed informou que a Ucrânia deportou dois membros da Divisão Atomwaffen, o grupo neonazi com sede nos EUA, que estavam a tentar ganhar experiência de combate com o Azov.

Rekawek, especialista em combatentes estrangeiros do C-REX, disse que o Azov só conseguiu recrutar 20 combatentes estrangeiros desde o início da invasão de 2022. A CNN não conseguiu confirmar esses números de forma independente.

Por sua vez, a Rússia também tem um próspero ambiente ultranacionalista que é tolerado pelas autoridades.

O Movimento Imperial Russo (RIM), uma milícia de extrema-direita com sede em São Petersburgo, foi, em 2020, o primeiro grupo de supremacia branca a ser categorizado como “Terroristas Globais Especialmente Identificados” pelo Departamento de Estado dos EUA. Embora o RIM tenha trabalhado em oposição ao regime de Putin, apoiou o lado russo na guerra contra a Ucrânia - treinando militantes russos para se juntarem aos separatistas pró-Rússia no conflito, segundo o Centro de Segurança e Cooperação Internacional (CISAC) da Universidade de Stanford.

O presidente russo, Vladimir Putin, reúne-se com Marine Le Pen, líder do partido Frente Nacional, no Kremlin, em Moscovo, a 24 de março de 2017. Foto: MIKHAIL KLIMENTYEV/AFP via Getty Images

“Eles nunca confrontaram os seus próprios nacionalistas”, disse Rekawek. Os especialistas dizem que a Rússia também tem tido um papel no espaço de extrema-direita da Europa, com Marine Le Pen da França e Matteo Salvini da Itália a manterem laços estreitos com Putin antes da invasão de 2022.

E das “poucas centenas de indivíduos ocidentais com convicções de extrema-direita ou 'nacionalistas'” que viajaram para lutar no conflito da Ucrânia por volta de 2014, “a maioria desses voluntários extremistas lutou ao lado dos separatistas pró-Rússia”, segundo um relatório do CEP publicado em março.

Na sua pesquisa, Ritzmann encontrou grupos pró-russos a pedir voluntários. Isso inclui “a empresa de segurança russa Wagner Group, que tem um historial de exibir insígnias nazis”, disse ele no relatório do CEP.

Mas, entre a maré de milhões de refugiados e dos danos incalculáveis às cidades ucranianas, alguns especialistas dizem que a obsessão da Rússia num ator menor como o movimento Azov serve um propósito - permitir que o Kremlin enquadre o conflito como uma luta ideológica e até existencial. Por mais distante que isso esteja da realidade.

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