Presidente dos Estados Unidos canta vitória com o acordo dos minerais, mas talvez não vá ganhar assim tanto segundo os analistas
Donald Trump confirmou que se vai encontrar com o líder ucraniano Volodymyr Zelensky em Washington, esta sexta-feira, para assinar o acordo de minerais. “Estamos a trabalhar muito bem com a Rússia e a Ucrânia”, disse o presidente dos EUA durante a sua primeira reunião de gabinete, esta quarta-feira, na Casa Branca. "O presidente Zelensky virá na sexta-feira, está agora confirmado." E Trump disse também que ele e Zelensky vão “assinar um acordo, que será um acordo muito grande”.
Um resultado que deixa Trump “feliz”. "Conseguimos chegar a um acordo em que vamos receber o nosso dinheiro de volta e vamos receber muito dinheiro no futuro, e penso que isso é o certo", sublinhou o presidente dos Estados Unidos.
Menos feliz estava Zelensky. O presidente ucraniano disse esperar que este acordo de minerais com os EUA “conduza a outros acordos”, mas confirmou que ainda não foram acordadas quaisquer garantias de segurança americanas e referiu-se ao texto como sendo mais uma "base de trabalho”. O acordo tem 12 pontos mas os ucranianos esperam conseguir um 13.º: a equipa de Zelensky pressionou os americanos para que incluíssem uma linha sobre o apoio às garantias de segurança, embora ainda não tenha sido decidido nada em concreto. “Queria que fosse incluída uma frase sobre garantias de segurança para a Ucrânia e é importante que esteja lá”, reiterou Zelensky, acrescentando que "ainda é muito cedo para falar de valores". O sucesso do acordo "depende da conversa com o presidente Trump", indicou.
"Se não obtivermos garantias de segurança, não teremos um cessar-fogo, nada funcionará, nada”, acrescentou Zelensky depois à BBC. A esperança do presidente ucraniano é que se o acordo sobre os minerais for assinado, as duas partes possam iniciar "imediatamente" novas negociações sobre o que está a ser chamado "Acordo de Fundo".
Já Trump não parece considerar que seja necessário dar qualquer garantia. "Estaremos lá, dessa forma, haverá segurança automática, porque ninguém se vai meter com o nosso pessoal quando lá estivermos", disse, na resposta a um jornalista que lhe perguntou que tipo de garantias de segurança estaria disposto a dar como parte do acordo com a Ucrânia. E acrescentou: "Não vou dar garantias de segurança. Vamos pedir à Europa que o faça, porque a Europa é o vizinho do lado."
"Isto é o clássico modelo diplomático de Trump: extrair vantagens de aliados e não aliados sem oferecer garantias reais", considera Manuel Serrano, especialista em relações internacionais. Na sua opinião, o presidente norte-americano está a operar "uma mudança radical em relação ao que eram as relações entre os EUA, a Europa e a Ucrânia". "É tudo em função do meu interesse. Está disposto a fazer mas só se for benéfico para ele", explica.
"Isto é diplomacia transacional por excelência", diz o analista à CNN Portugal.
"Zelensky lamentou o facto de não haver garantias de segurança robustas por parte dos EUA, e sublinhou que o apoio económico é uma coisa, o apoio militar é outra. O objetivo de Zelensky é garantir um apoio contínuo dos EUA, para garantir que o envolvimentos do Estados Unidos na região é real e não apenas económico", analisa Manuel Serrano. "Mas os EUA querem só ficar pela parte económica. Em Washington argumentam que o interesse financeiro nos recursos da Ucrânia já é um compromisso militar claro."
"A primeira versão era maximalista. Era uma submissão total da Ucrânia. E essa também é uma estratégia usada por Trump: apresentar um primeiro texto com muitas exigências, para depois poder dizer que fez cedências. Esta segunda versão é mais aceitável", esclarece Manuel Serrano.
Afonso Azevedo Neves, especialista em comunicação política, concorda que esta é "uma estratégia natural em Trump: ele considera que um bom negócio é aquele em que ele ganha e a outra parte perde. A maioria de nós quando negoceia tenta encontrar formas de compensarmos e cedermos de forma a ambos sairmos gloriosos. Ele quer sempre sair a ganhar", disse no CNN Arena. "Não existe uma visão de médio e longo prazo. É muito difícil estabelecer relações comerciais com aliados históricos ou com novos aliados com base numa estratégia de negociação em que só uma das partes ganha."
André Júdice Glória duvida, no entanto, que este acordo represente uma verdadeira vitória para os EUA: "Mais importante do que o dinheiro é a aparência de vitória. Ninguém acredita que existam 500 mil milhões de dólares de reservas minerais em terras raras na Ucrânia, o próprio Geological Survey não lista a Ucrânia como tendo reservas minerais em terras raras. E o mercado global de terras raras no ano passado foi um pouco abaixo de 7 mil milhões de dólares, portanto, o número que ele atirou para cima da mesa de 500 mil milhões é para consumo interno dos Estados Unidos, para dar uma aparência de que está a conseguir algo de volta", disse o advogado no CNN Arena. "Para Zelensky, parte da resistência inicial era pensar que a Ucrânia poderia ter de pagar 500 mil milhões de dólares durante 50, 60, 70 anos. Sem isso, Zelensky pode dar uma vitória a Trump sem ceder verdadeiramente nada de essencial para a Ucrânia."
Ainda há muito por esclarecer sobre o que o acordo de minerais envolve efetivamente e onde poderá conduzir. Segundo Manuel Serrano, o acordo de minerais "está na linha do interesse crescente que a administração norte-americana revelou em recursos estratégicos". "Só que existem duas questões: 40% das reservas da minerais da Ucrânia estão em territórios ocupados pela Rússia, e, por outro lado, o acordo não tem em conta a a disputa comercial com a China, que domina o comércio destes materiais." Estes são dois pontos que poderão atrapalhar as contas de Donald Trump. O que vai acontecer aos minerais que estão nos territórios ocupados pelos russos? Isso depende do está no acordo de minerais, mas também das negociações de paz que ainda não começaram.
A Rússia ainda não se pronunciou. O Kremlin disse que só comentaria quando houvesse informação oficial sobre este acordo.
