Zelenska ❤️ Zelensky na Vogue: uma “mensagem de força” que também é vista como “enorme futilidade” (e vice-versa)

28 jul, 09:00

Como uma sessão fotográfica serve para "conquistar mentes e corações". Mas como isso também é polémico

Em plena guerra, uma sessão na Vogue: Olena Zelenska e Volodymyr Zelensky posam, sorriem, aparecem a solo (ela) entre soldados - as fotos de Annie Leibovitz são cuidadas, tratadas, bonitas mesmo. 

Beleza no meio da guerra. A sessão causou polémica nas redes sociais: é fútil fazer-se isto, há um guerra em curso, não há beleza na guerra, há só fealdade. É o que foi escrito.

Beleza no meio da guerra. A sessão causou palavras de apoio nas mesmas redes sociais: a guerra combate-se com força e há força em ter o homem que Putin quer matar a sorrir ao lado da mulher com quem Zelensky quer viver, é a humanização de uns diante da desumanidade de outros. É o que também foi escrito.

Para o major-general Agostinho Costa, a principal intenção da publicação das fotografias "é procurar humanizar ainda mais a pessoa - e já toda a gente tem uma imagem simpática do presidente Zelensky". "Esta é fundamentalmente uma guerra de perceções, uma guerra de comunicação. É um conflito híbrido em o que se pretende fundamentalmente é conquistar as mentes e os corações."

Entendimento semelhante tem a comentadora da CNN Portugal Helena Ferro Gouveia, que destaca o laço entre Olena Zelenska e Volodymyr Zelensky. “As fotografias pretendem demonstrar a união familiar do casal Zelensky. Há aqui uma humanização do presidente ucraniano, mesmo em circunstâncias de guerra. Estamos perante uma família que não abandonou o país apesar dos riscos diários. Quer também demonstrar serenidade, quer para dentro como para fora.”

Helena Ferro Gouveia vinca também que a sessão fotográfica pode pretender relevar o papel das mulheres neste conflito. “A Ucrânia tem milhares de mulheres a combater nas linhas da frente, cerca de 36 mil só no exército. Ainda é discussão no Ocidente se as mulheres podem ou não combater. Estas fotografias são também uma homenagem a todas as mulheres que estão na linha da frente a defender o seu país. Temos a primeira-dama a dar uma mensagem de força às mulheres, de que não será a destruição infligida pela guerra que lhes quebra a resiliência. Parece-me ser muitíssimo forte, como é habitual nas fotografias da Annie Leibovitz.”

Mencionando a necessidade de lançar uma campanha de imagem, em virtude da “fadiga” e do risco da opinião pública ocidental se “desligar” do conflito, o major-general Agostinho Costa diz também que as fotografias pretendem transmitir a ideia de que Zelensky é um “presidente civilizado”. “As fotografias pretendem dar a ideia de que a Ucrânia tem um presidente civilizado, com uma esposa com boa imagem mas, sobretudo, para transmitir que são ocidentais. Quem lê a Vogue? São as Karens, uma população mais feminina. A Vogue é a grande revista de moda, ser capa da Vogue dá muito prestígio.”

No entanto, Agostinho Costa hesita em considerar que a campanha foi bem pensada. “Entrámos quase numa esquizofrenia. Ontem vi imagens absolutamente escabrosas de um militar decapitado e sem mãos. Por um lado temos imagens de terror, do terror mais abjeto e execrável, e por outro temos estas imagens tipo revista cor-de-rosa, como se não se passasse nada. É uma incongruência desta guerra. Quem está a conduzir esta campanha de imagem do presidente Zelensky não sei se fez bem em ter autorizado esta sessão. Há gente a morrer de ambos os lados de uma forma escandalosa. Já perdemos o norte, estamos a entrar em encenação”, aponta, antes de elogiar a capacidade de comunicação do Kremlin.

“Os russos têm feito uma campanha comunicacional boa. Pretendem demonstrar que em Kiev se vive uma balbúrdia, que aquilo é uma espécie de rave, que Zelensky é inapto, o que não é verdade. Querem fazer ver que na Ucrânia há um desprezo enorme pela vida dos cidadãos. Aí, creio que a Ucrânia deu o flanco com esta sessão. Os seus cidadãos morrem de uma forma absolutamente escandalosa e o presidente e a primeira-dama fazem sessões fotográficas para a Vogue, o que dá uma ideia de enorme futilidade.”

Por seu turno, Helena Ferro Gouveia descarta que Olena Zelenska e o marido tenham pensado na Rússia antes da sessão fotográfica. “Quando a primeira-dama decidiu fazer esta sessão, não estava preocupada com a interpretação do Kremlin. Sei que estas fotografias estão a ser muito criticadas, mas por um lado temos aqui uma tentativa de normalização. Uma das fotografias, a do avião Antonov An-225 Mriya, que era o maior avião do mundo e um motivo de orgulho nacional e que foi destruído pela Rússia, pode querer transmitir que se destruiu algo físico mas que a vontade, a resiliência ucraniana, essa não foi destruída”, afirma. “Consigo compreender as críticas, mas penso que há uma outra leitura além do que é criticado. Não é a primeira vez que se fazem fotografias de guerra, nem que se fotografam mulheres durante uma guerra. Não é algo inédito e faz parte de todo o mecanismo comunicacional, que constitui um dos patamares da guerra.”

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