Com a economia russa a escorregar, o novo presidente dos Estados Unidos ameaça em diferentes direções: sanções, tarifas e baixar o preço do petróleo são alguns dos pesadelos do Kremlin
Donald Trump mudou abruptamente a retórica em relação às negociações de paz na Ucrânia, depois de vários meses a pressionar Kiev a fazer concessões, antes da tomada de posse. Após meses a sugerir que seria capaz de fazer a paz em tempo recorde - 24 horas foi a primeira promessa -, o novo presidente norte-americano fez um ultimato ao Kremlin e os especialistas acreditam que a Ucrânia pode acabar por ver a sua posição reforçada por causa disso.
“Putin é um homem firmemente apostado em reconstruir um império e não mostra sinais de querer abdicar disso. Por isso, os Estados Unidos vão ter de fortalecer a posição ucraniana até poder começar a pensar-se em chegar a um acordo de paz. Trump começa a perceber isso, é inevitável. Vladimir Putin só conhece uma linguagem, que é a da força. Por isso, a Ucrânia pode vir a receber muito mais ajuda militar do que recebeu com Joe Biden”, afirma o major-general Isidro de Morais Pereira.
O novo presidente norte-americano não perdeu tempo a endurecer a retórica para com o Kremlin. Poucos dias depois de tomar posse, Donald Trump anunciou aquilo que, na prática, é um ultimato para o Kremlin. Ou Vladimir Putin cede e aceita negociar um acordo de paz com a Ucrânia, ou os Estados Unidos “não terão outra escolha” senão aumentar significativamente “taxas, tarifas e sanções” contra a Rússia. “Podemos fazer isto de uma maneira fácil ou de uma maneira difícil - e a maneira fácil é sempre a melhor”, afirmou o presidente na sua rede social Truth Social.
Moscovo mostrou uma pouco usual falta de vontade em reagir. A primeira voz a responder a Trump foi o vice-embaixador nas Nações Unidas, Dmitry Polyanskiy, que disse que “não se trata meramente de acabar a guerra” e que é preciso perceber o que significa “o acordo” sugerido pelo presidente americano. Pouco depois foi a vez de Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, que disse não ver “nada de novo” na retórica de Trump, recordando que durante o primeiro mandato as “sanções foram um método usado” pelo presidente americano contra a Rússia.
Quem gostou do que ouviu foi a Ucrânia. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrii Sybiha, disse que as palavras de Trump foram um “forte sinal” de que o presidente Trump será capaz de criar “uma nova dinâmica” diplomática que permita a Kiev colocar um fim à guerra. No entanto, os especialistas sugerem que é preciso ser cauteloso em relação à posição de Trump, sendo necessário aguardar até que a administração americana tome medidas concretas.
“Toda a gente dava por adquirido que Donald Trump iria obrigar a Ucrânia a um cessar-fogo pouco favorável à Ucrânia e o que aconteceu parece ter sido o contrário. Talvez sentindo a fraqueza de Putin, que tem problemas internos, Donald Trump terá sentido que não poderá deixar cair a Ucrânia. Temos de ver o que Trump vai fazer”, afirma Manuel Serrano, especialista em assuntos europeus e política internacional.
Logo no primeiro dia de mandato, enquanto assinava uma “avalanche” de ordens executivas, Donald Trump tinha feito as primeiras considerações críticas do lado russo, sublinhando que não sabia se Putin realmente queria saltar para a mesa de negociações. “Ele não pode estar muito entusiasmado, não está a ir muito bem”, disse aos jornalistas, referindo-se à guerra de Putin. “A Rússia é maior, tem mais soldados a perder, mas isso não é forma de governar um país”, até porque a economia do país “está a cair”.
“Trump fala com muitos exageros, hiperboliza, mostra-se sempre como sendo muito capaz. Acontece a todas as oposições, mostrar-se melhor que o próprio governo. Neste momento, aquilo que temos é Trump a alterar o estilo de linguagem e a falar de Putin como alguém que também poderá ser sancionado”, refere Orlando Samões, especialista em relações internacionais.
E há sinais de que o principal foco de pressão da nova administração americana vai ser mesmo através de um ataque mais focado na economia russa. O presidente russo tem mostrado estar cada vez mais preocupado com o estado da sua economia. As sanções impostas pelo Ocidente continuam a dificultar o acesso russo a diferentes componentes, intensificando significativamente a inflação no país, numa altura em que há cada vez menos trabalhadores e uma procura grande no mercado de trabalho. Tudo isto num momento em que o Banco Central Russo tenta travar o aumento do custo de vida através de uma taxa de juro de 21%, que torna o crédito cada vez mais difícil de pagar para os empresários russos.
Segundo o think tank de Defesa Instituto para o Estudo da Guerra, o Kremlin lançou uma campanha de informação para “criar uma falsa impressão” de que a economia russa está a ter um desempenho melhor do que a realidade. Os dados macroeconómicos “contradizem diretamente as afirmações” do Kremlin de que a economia russa está a ter “um bom desempenho”.
De acordo com notícias recentes, Putin tem expressado o seu descontentamento com a queda do investimento privado, devido ao elevado custo de crédito. Isto numa altura em que o país está a gastar 6,3% do PIB em Defesa. Um aumento das sanções económicas norte-americanas poderia ter um impacto ainda mais grave na economia russa, caso seja focado numa das principais fontes de receita do orçamento russo: a indústria dos hidrocarbonetos.
“Donald Trump já foi claro: ou Putin concorda com sentar-se à mesa ou vai levar com mais sanções. As sanções começam a preocupar a Rússia, de tal forma que o Kremlin já pôs em circulação uma campanha para dissimular a situação má em que se encontra a economia Rússia. As taxas de juro estão a 21% e a inflação está com mais de dois dígitos”, insiste o major-general.
Donald Trump aproveitou o encontro de Davos para ameaçar um forte ataque contra a indústria petrolífera russa. A discursar perante alguns dos homens mais poderosos do mundo, Donald Trump afirmou que se os países da OPEC baixassem o preço do petróleo “a guerra acabava imediatamente”, sublinhando que a Rússia apenas é capaz de manter o seu esforço de guerra devido ao elevado preço a que o barril de petróleo está a ser comercializado. Os países da OPEC, um grupo de 12 nações produtores de petróleo, são responsáveis por 30% do petróleo no mercado.
“Trump está a começar a perceber que não tem o poder de influência que pensava que tinha sob Vladimir Putin. Donald Trump tinha a perceção de que a sua palavra junto do Kremlin podia ser decisiva, mas esbarrou com a realidade. A Rússia está a sinalizar que não desiste dos objetivos maximalistas que tem na Ucrânia e isso vai resultar numa tentativa de fortalecer a posição ucraniana, por parte da nova administração. Trump pode mesmo abrir caminho para o envio de armas de longo alcance como os mísseis Tomahawk”, afirma o major-general Isidro de Morais Pereira.
