"Voltaram as grandes guerras": como a invasão da Ucrânia está a revolucionar o conceito de guerra

4 jan, 08:00
Guerra na Ucrânia (AP Photos)

De drones que atuam como autênticas "bombas assassinas" à logística no campo de batalha que pode ditar conquistas e reconquistas, eis o que a guerra na Ucrânia nos tem ensinado sobre a forma de fazer guerra no século XXI

A guerra na Ucrânia já se tornou numa autêntica "escola de guerra", surpreendendo mesmo quem já acompanha conflitos há vários anos, como é o caso dos major-generais Isidro de Morais Pereira e Agostinho Costa. À CNN Portugal, os analistas revelam quais têm sido os grandes ensinamentos deste conflito que trouxe de volta "as grandes guerras" como as conhecemos, além de outros fatores revolucionários que têm sido cruciais no campo de batalha.

Uma das grandes novidades desta guerra é a utilização de “armas tecnologicamente muito evoluídas”, aponta o major-general Isidro de Morais Pereira, destacando os lançadores de mísseis antitanque Javelin, que são capazes de “perfurar qualquer blindagem conhecida no mundo”.

Mas foram os drones que vieram revolucionar o campo de batalha, sublinha o especialista militar, que salienta o papel dos drones kamikaze, autênticas “bombas assassinas que mergulham sobre os alvos para os quais foram programados para atingir”. Também os drones bayraktar, da Turquia, e os norte-americanos switchblade têm sido “cruciais” na defesa ucraniana, a par com os N-LAW (Next Generation Light Anti-tank Weapon, Arma Antitanque Leve de Nova Geração, em português), acrescenta. 

O major-general Agostinho Costa concorda que “a grande novidade desta guerra é a utilização de drones em larga escala”, quer para combater, como para vigilância. 

Neste aspeto, a Ucrânia parece estar muito mais avançada do que a Rússia, que tem apresentado no campo de batalha alguns drones de reconhecimento, como os Orlan, e drones de fabrico iraniano. “Admira-me como a Rússia está tão atrasada neste tipo de armamento”, admite Isidro de Morais Pereira.

Mas não é só no emprego de armas tecnologicamente avançadas que as tropas de Moscovo parecem mais distantes das de Kiev - também na campanha terrestre as forças russas têm deixado muito a desejar, indica também o major-general: “Estávamos à espera que a Rússia tivesse evoluído de alguma forma na maneira de conduzir as campanhas militares, mas o que estamos a ver é que continua como no tempo de Estaline.”

De acordo com o especialista militar, já desde o tempo do antigo líder soviético que a Rússia prioriza o fogo à manobra, ou seja, a sua estratégia de guerra resume-se a abrir fogo sobre os territórios que quer ocupar tendo como finalidade apenas “destruir” (como, aliás, o tem feito agora em Bakhmut). Pelo contrário, na “forma ocidental de fazer a guerra”, que a Ucrânia tem reproduzido no campo de batalha, a estratégia passa essencialmente pela “ação conjugada do fogo e do movimento”, ou seja, “o fogo é utilizado para preparar o terreno, seguindo-se depois um movimento de tropas para conquistar o terreno”.

A importância da logística - e da visão noturna

É neste contexto que Isidro de Morais Pereira salienta “a importância da logística na batalha” e que, mais uma vez, tem sido desvalorizada pela Rússia. “Não há nenhuma guerra que se ganhe sem o apoio logístico, sem se fazer chegar à frente as munições necessárias, o equipamento necessário, sem equipas capazes de resolverem as avarias dos equipamentos no campo de batalha, sem apoio hospitalar e sanitário, sem um conjunto de helicópteros e ambulâncias e helicópteros para retirar os feridos.”

Exemplo disso é o facto de as forças russas não conseguirem combater de noite, algo que era frequente em guerras anteriores, como explica o major-general Isidro de Morais Pereira: “Eu fiquei completamente estarrecido com o facto de os militares serem incapazes de combater de noite. Por exemplo, na guerra das Malvinas ou Falkland [em 1982], quando os batalhões ingleses atacaram em desproporção os militares argentinos, os ataques eram feitos de noite. Já nesse tempo o exército inglês tinha capacidade de combater de noite, porque todos os soldados estavam equipados com dispositivos de visão noturna, quer fossem night goggles [óculos de visão noturna], quer fossem intensificadores de imagem.”

“Segundo se sabia, o exército soviético tinha essa capacidade, mas, neste momento, a Rússia não é capaz de combater no terreno de noite. Por outro lado, já vimos isso acontecer do lado ucraniano, que conta com a ajuda do Ocidente nesse sentido”, acrescenta.

O "erro de cálculo" que pode levar a nova mobilização - desta vez geral

Para Isidro de Morais Pereira, o grande erro da Rússia foi cometido logo no início, quando decidiu invadir a Ucrânia com um contingente militar insuficiente que contrastou desde logo com um país determinado a fazer vencer a sua independência. “A Rússia não tinha um exército suficientemente grande para poder lançar-se numa aventura desta natureza. Houve um erro de cálculo logo de início”, analisa.

Talvez por isso Vladimir Putin tenha decretado a mobilização parcial de 300.000 reservistas russos e que já estão no terreno. Ainda assim, este esforço não deverá ser suficiente e Isidro de Morais Pereira acredita que o presidente russo vai mesmo decretar uma “mobilização geral”. “Aquilo que se pensa é que face à incapacidade com o atual conjunto de militares russos presentes no teatro de operações, a Rússia venha a decretar uma mobilização geral, de forma explícita ou encoberta, para poder prosseguir com os seus objetivos, dos quais ainda não desistiu”, prevê o especialista militar. 

Caso venha a ser decretada uma mobilização geral, o major-general admite que “não serão de esperar efeitos no imediato”, uma vez que é necessário tempo para formar militares e unidades. “No mínimo dos mínimos, para se formar uma unidade com capacidade para combater, são necessários pelo menos seis meses, e o ideal seria um ano”, aponta.

Agostinho Costa lembra igualmente que "nenhuma das partes estava preparada para uma longa guerra". Isto porque, até aqui, vivia-se "um período de exércitos pequenos, funcionais, flexíveis e expedicionários", descreve o especialista militar.

"Agora estamos numa guerra que se está a transformar numa guerra total (...) e temos dois exércitos que estão a combater pela sua sobrevivência, o que até pode escalar para um conflito de maior risco", problematiza o major-general.

Agostinho Costa conclui, por isso, que "voltaram as grandes guerras, as guerras clássicas, para as quais são determinantes a base tecnológica industrial de defesa, os recursos e as reservas de guerra".

O apoio do Ocidente

O apoio do Ocidente também tem sido crucial para a resistência ucraniana, salienta Isidro de Morais Pereira, que não tem dúvidas de que “a Ucrânia não teria resistido como tem resistido até agora sem o apoio do Ocidente”, nomeadamente ao nível do fornecimento de armamento e munições, alimentação, entre outros.

Aqui igualmente se destaca o envolvimento da União Europeia, dos países do G7, e dos EUA em particular, na implementação de sanções contra a Rússia, e que o major-general assegura que têm “causado mossa” na economia de Moscovo. “As informações que tenho é que, de facto, a Rússia está com dificuldades em obter um número de chips eletrónicos suficiente para repor os stocks dos mísseis de precisão, principalmente os iskanders, os Kalibr, os KH-101 e os KH-595. São estes os quatro mísseis de precisão que a Rússia tem utilizado.”

Por sua vez, Agostinho Costa garante que, “não obstante todo o esforço dos EUA e restantes aliados da Ucrânia”, a Rússia está longe do isolamento que as sanções ocidentais prometiam. Prova disso mesmo, diz o major-general, são os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) publicados num relatório em julho do ano passado e que revelavam que “as exportações de petróleo bruto e produtos não energéticos se mantiveram melhor do que o esperado”.

“A Rússia consegue contornar as sanções e o seu isolamento através da Organização de Cooperação de Xangai (SCO). Por exemplo, continua a vender hidrocarbonetos para a China e Índia”, aponta ainda o especialista militar.

Uma coisa é certa para Isidro de Morais Pereira e Agostinho Costa: esta guerra na Ucrânia está para durar e os ensinamentos com certeza não vão ficar por aqui.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados