Uma vida que fica para trás e a incerta pela frente: a realidade dos bebés, crianças e mulheres que chegam à Polónia

Agência Lusa , BMA
3 mar, 19:43

Não param de chegar refugiados e Veronika, grávida e com 20 anos, acaba de entrar na estatística de quase um milhão de pessoas fugidas da guerra para países vizinhos

O movimento é contínuo, estão sempre a chegar, em autocarros, automóveis ou simplesmente a pé, refugiados da guerra na Ucrânia à fronteira de Medyca, na Polónia, mas, em vários casos, a fuga também é um reencontro de famílias.

Como em todas as saídas para países vizinhos, são sobretudo mulheres de todas as idades e condições sociais, crianças e bebés, que, nuns poucos passos, abandonam a Ucrânia sem retorno previsível, em silêncio e indiferentes às câmaras dos jornalistas internacionais, circulando com curta bagagem por uma estrada em obras, e sem mais nada nas suas margens do que um pequeno hotel: o Mirage.

Esse curto momento é simbólico de uma vida que fica para trás e outra incerta pela frente nem sempre é solitário e pode ser até um alívio, como acontece com Vika, emigrada na Polónia, ao reencontrar os dois filhos, um menino de 7 anos e um adolescente de 16.

Ultrapassados os pórticos da fronteira, quando caem alguns flocos de neve, a viagem dos menores, iniciada em Poltava, no centro da Ucrânia, acompanhados por uma tia e dois primos pequenos, acaba por ser recompensada nos metros finais por esta reunião emocionada mais de um ano depois e a guerra era um fantasma distante. É nela que está agora a combater o marido de Vika.

No mesmo local, encontra-se Lyza, uma estudante de 18 anos, fugida de Zaporozhye, que após uma saga para chegar há quatro dias à Polónia, aguarda pelo irmão e irmã mais novos, que tinham ficado retidos naquela cidade no sudeste do país. Mais umas horas estarão juntos de novo.

Lyza levou quatro dias de comboio para a Lviv, onde permaneceu outros dois e, por fim, chegou a Przemyśl, no leste da Polónia, num percurso que demoraria duas horas e durou 17, descrevendo “uma viagem assustadora”, com compartimentos cheios e muito calor, crianças a chorar cães a ladrar e as mulheres sem os maridos.

“A guerra começou tão depressa que não sabíamos se seria na nossa região, na nossa cidade”, recordou, assinalando, por outro lado, várias áreas de abrigo subterrâneo para onde se dirigiu, com os vizinhos do bairro, que tentavam, com comida ou de algum modo, ajudar os militares. “Agora sou eu que tento ajudar daqui”.

Os russos estavam demasiado próximos e ficar em casa não era opção. A mesma hipótese não teve o pai de 58 anos, dentro da faixa etária impedida de sair do país, a que se seguiu a decisão da mãe de ficar com ele, numa guerra que ninguém entende.

“Todos os ucranianos dizem o mesmo: não vamos perdoar. Está no nosso sangue, lutamos com os russos há 800 anos e vamos continuar, em qualquer lugar, em qualquer momento, somos fortes e vamos sobreviver”, declarou.

À semelhança de outros locais de acolhimento de refugiados, em Medyca é visível um vasto movimento de solidariedade que chega de vários pontos da Polónia e do mundo.

A ajuda manifesta-se desde caixas de cartão e sacos com comida, roupas, sapatos, brinquedos e fraldas, depositados no local pelos próprios doadores anónimos, um polaco que grelha salsichas e as oferece a quem o deseje, uma menina que distribui gomas, a voluntários que oferecem transporte e acolhimento e organizações que prestam apoio médico.

A Rescue Without Borders está em Medyka há cinco dias com o objetivo de prestar apoio clínico e, segundo Malka, uma enfermeira israelita, na tenda da Organização Não Governamental (ONG) são sobretudo tratados casos de hipotermia, alguns traumas, mas também ataques de pânico e dores extremas.

“Neste momento não temos aqui nenhum, mas já tratámos casos de pessoas do Afeganistão e do Irão, que não puderam viajar nos autocarros, e chegaram aqui a pé, caminhando vários dias na neve, com sede e esfomeados”, descreveu.

Apesar dos momentos trágicos que se atravessam e da angústia que acompanha os refugiados, é ao mesmo tempo “muito bonito de ser ver” a generosidade que vem de todo o lado do mundo, comentou Malka, dando o exemplo de uma médica da Florida, EUA, que não pertence à organização e simplesmente apareceu e começou a trabalhar.

Foi também a recusa de ficar em casa que levou Alex, um condutor romeno de camionetas, e Kitija, uma letã que trabalha numa empresa de segurança, ambos residentes em Londres, a tirar uns dias de férias e recolherem donativos de amigos para se mudarem por um tempo para a Polónia e transportar refugiados da fronteira para várias cidades do país.

“A maioria das famílias quer ir para Varsóvia porque conhece lá alguém e das cinco viagens que fizemos só uma não tinha para onde ir e ficou num centro de acolhimento”, segundo Kitija, que justificou o seu voluntariado com a ideia insuportável de assistir a tudo pela TV. Mas também com as suas origens na Letónia e “o medo da proximidade da Rússia” e do alastramento do conflito.

Não param de chegar refugiados e Veronika, 20 anos, estudante de línguas estrangeiras, acaba de entrar na estatística de quase um milhão de pessoas fugidas da guerra para países vizinhos. Chegou de autocarro a Medyca com quatro irmãos, a mãe e uma tia, após uma semana de desespero, em que não conseguiam bilhetes de autocarro para abandonar Ivano-Frankivsk, no oeste da Ucrânia.

Veronika está grávida de oito meses e é também uma história de reencontro, aguardando sentada junto às paredes do supermercado Bledronka, pelo marido, que trabalha na construção civil na Polónia, enquanto pensa na sua nova condição.

Com “o coração em sangue”, não consegue entender, como no século XXI, “se ameace a paz na Terra” e muita gente morra, incluindo crianças, e pessoas, como ela e a sua família, que seguiam as suas vidas tenham perdido tudo de um dia para o outro.

“Agora sei como a vida é complicada e imprevisível”, desabafou, esperando, ao mesmo tempo, que a próxima incerteza a surpreenda no seu melhor e Sophia possa nascer na Ucrânia.

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