"Todos queriam uma selfie" com o prisioneiro norte-coreano, um dos dois que não conseguiu cumprir a ordem de Pyongyang. No bolso de outro encontraram um iPad com propaganda do regime de Kim Jong-un
Depois de meses às escuras sobre o que se passava realmente em Kursk, enquanto Rússia e Coreia do Norte mantinham o mistério da cada vez mais notória presença de soldados norte-coreanos naquela região, a Ucrânia conseguiu capturar dois destes militares, abrindo uma caixa de Pandora que agora explica muito melhor o papel dos homens que viajaram de tão longe para combater uma guerra que não é deles.
A captura desses dois homens, que não conseguiram ou não tiveram coragem de cumprir a ordem dada ainda em Pyongyang - Kim Jong-un instruiu os seus soldados a suicidarem-se para evitar a captura -, foi vista como uma grande vitória no seio do exército ucraniano.
Vitalii Ovcharenko soube “de um amigo de um amigo”. O militar, que falou ao jornal The Guardian sobre o momento em soube da captura dos dois soldados norte-americanos, revelou que esse foi um momento importante.
“Foi logo meia hora depois de acontecer. O meu amigo disse: ‘Temos um prisioneiro norte-coreano! Ele está em choque, mas bem’. Eu disse ‘wow’”, revela o militar, acrescentando uma declaração que mostra o inusitado deste momento: “Todos queriam uma selfie. Embrulharam-no num cobertor e deram-lhe chá”.
Uma das primeiras descobertas feitas no interrogatório aos prisioneiros foi como entraram na guerra. Ninguém lhes disse o que ou quem estavam a combater, sendo que muitos pensaram tratar-se de um treino. Chegados de Pyongyang à Rússia, foram-lhes dadas identidades falsas, muitas delas de pessoas registadas na região russa de Tuva, já no lado asiático do gigante território russo. Deram-lhes também uniformes e espingardas, embora muitos destes militares, provavelmente todos, não tenham praticamente nenhuma experiência de combate.
Alocados às equipas da marinha e de assalto da Rússia, os militares norte-coreanos viajaram depois milhares de quilómetros para o Ocidente, até chegarem à região de Kursk, onde a Ucrânia continua a manter presença em algumas das zonas conquistadas em agosto, depois de uma impressionante incursão por território russo adentro.
Uma máscara que caiu na semana passada, depois do tal anúncio em que se confirmava a captura de dois soldados norte-coreanos. A tremer do frio que passaram durante dias, foram levados para Kiev, onde os serviços secretos ucranianos os interrogaram, com a ajuda das secretas sul-coreanas, que também têm partilhado uma série de informação, até porque em Seul se teme que o objetivo do rival do norte seja treinar as tropas para uma eventual invasão.
Um dos soldados é Lee Jong-nam, jovem de 25 anos natural de Pyongyang. Está no exército desde 2016 e pertencia ao pelotão de reconhecimento de atiradores, uma das unidades das forças armadas da Coreia do Norte. Agora ferido no maxilar, foi o único que sobreviveu do grupo de oito soldados em que se inseria, e que entrou em combate a 8 de janeiro.
Quanto ao outro soldado, ainda não identificado, a partilha da presidência ucraniana mostrou-o a falar a partir de uma cama de hospital, onde confirmou que este “três, quatro ou cinco dias” sozinho. Sobre a identidade que lhe deram não se lembra, mas sabe que não é sua. Até chegar a Kiev, onde está a ser tratado a um ferimento na perna, pensava que fazia parte de um exercício de treino.
“As agências ocidentais sabem que a Coreia do Norte está na guerra da Rússia. Isto é a prova dos factos, é a prova”, afirma Vitalii Ovcharenko, que descreve os dois prisioneiros como “preciosos”.
“Temos uma pessoa real à nossa frente. Podemos fazer-lhe questões. Pyongyang está a enviar infantaria para Moscovo, mas também armas”, acrescenta.
Lee Jong-nam e o seu companheiro nada sabiam da Ucrânia. Estão num “vácuo de informação”, descreveu Volodymyr Zelensky, acusando a Rússia de utilizar os cerca de 11 mil soldados norte-coreanos “apenas para prolongar e escalar a guerra”.
Sem preparação ou sequer conhecimento do que estão a fazer – muitos não sabem sequer onde estão – os norte-coreanos acabam por ser presas fáceis para os ucranianos. Por isso mesmo as secretas sul-coreanas se referiram aos militares de Pyongyang como “carne para canhão”. Também por isso já morreram ou ficaram feridos cerca de três mil soldados.
Enquanto para a Rússia nos norte-coreanos são mais homens para pôr no terreno, para a Coreia do Norte esta experiência serve para treinar o seu exército, composto por cerca de 1,5 milhões de militares, o que faz dos 11 mil enviados uma pequeníssima parte.
“Para começar avançaram em grandes grupos nos campos cheios de neve. Os próximos já não o vão fazer”, afirma o major-general Vadym Skybytskyi, dos serviços de informação da Ucrânia, em declarações citadas pelo The Guardian.
O militar acredita, por isso, que os norte-coreanos foram enviados para aprender a combater: “Estão a aprener novas táticas e como combater num ambiente de drones”, reforça, explicando que aqueles que sobreviverem vão regressar a casa para treinar os restantes.
Isto porque, como também avançaram as secretas sul-coreanas, os militares de Pyongyang simplesmente não estão preparados para uma guerra moderna, onde os veículos não tripulados são essenciais. E o cenário da Ucrânia é o melhor exemplo disso.
Nos bolsos, além das identificações falsas, alguns soldados norte-coreanos traziam mais informação importante. Um iPad encontrado num dos militares mortos revelou 67 gigabytes de propaganda: “O meu colega viu-o. Depois de duas horas disse: ‘A Coreia do Norte é o melhor país do mundo’”, explica Vadym Skybytskyi.
Apesar da clara falta de conhecimento tecnológico, os soldados norte-coreanos podem ter valor. É assim que Vitalii Ovcharenko os vê, preferindo não desvalorizar um inimigo que não escolheu sê-lo. “Os russos escondem-se quando veem drones. Os norte-coreanos tentam e conseguem abatê-los. Compreendem a guerra combinada, com infantaria, aviões e tanques”, acrescenta, sublinhando que essas são caraterísticas que podem ser importantes numa eventual guerra entre Coreias.
Vendo a importância de manter a presença na região de Kursk numa lógica de negociação territorial, a Ucrânia vai continuar a tentar capturar inimigos, incluindo os norte-coreanos, o que espera que lhe dê uma vantagem na hora de ambos os lados se sentarem à mesa.