Os habitantes de Kiev já se habituaram a ter de descer para o metro em vez de poderem dormir descansados, mas o ataque mais recente da Rússia ameaça vir agarrado a um mudança de paradigma
Há mais de quatro anos que os ucranianos se habituaram a viver num vaivém entre o conforto das suas casas e a segurança de bunkers ou estações de metro.
Esta madrugada, porém, foi diferente, com um grande ataque da Rússia a espalhar o terror durante várias horas em quase todo o território, incluindo na capital, Kiev, que às primeiras horas desta terça-feira foi fortemente atingida por um ataque combinado que levou até à Ucrânia mais de 700 mísseis e drones.
Até ao momento há a contabilizar seis mortos em Kiev e 16 em Dnipro, mas as autoridades admitem que este número vai subir, até porque há pessoas dadas como desaparecidas e mais de 100 feridos a receber tratamento nos hospitais.
O terror também chegou ao apartamento de Olha Mudra, uma mulher que viu de perto a grande explosão que atingiu um bloco de apartamentos em Kiev. Para esta cidadã ucraniana, que falou à agência Reuters, aqueles minutos pareceram o fim do mundo.
“Havia fumo por todo o lado, não se conseguia ver nada”, conta, com a filha de seis anos, Natalia, a assistir à conversa.
“Não percebíamos o que estava a acontecer, uma espécie de apocalipse”, recorda.
Enquanto Olha Mudra falava, atrás corriam para um lado e para o outro os moradores daquela zona e os trabalhadores dos serviços de emergência, os últimos atarefados com um mar de destroços que se verificou em várias cidades. Foi num desses cenários que encontraram uma criança de apenas três anos em Dnipro.
Olha Mudra não sabe se o que atingiu o seu prédio foi um drone, um míssil ou apenas destroços de uma interceção, mas a confusão instalou-se rapidamente. “Estávamos a chamar as outras pessoas, não conseguíamos ver nada. As pessoas estavam a usar lanternas, porque estava escuro. Não conseguíamos perceber onde estávamos”, descreve a mulher.
Ao contrário da compatriota, Anna Krzhypenska conseguiu encontrar abrigo no metro, algo a que até já está habituada. A estudante de 21 anos admite que “é difícil, física e mentalmente”, passar por este tipo de situações.
“Gostávamos de acordar pacificamente pela manhã, com uma chávena de café, mas, em vez disso, temos de ir lá para baixo [para o metro]”, conta.
E as manhãs pacíficas que a jovem pede não devem mesmo chegar tão cedo, já que a Rússia justificou este ataque como uma retaliação ao que diz ter sido um atentado contra uma residência universitária de Lugansk, onde morreram 21 estudantes, sendo que a Ucrânia nega quaisquer responsabilidades.
Ignorando isso, Moscovo prometeu que os ataques vão continuar de forma sistemática, esperando-se que o ritmo e a violência da guerra possa intensificar-se nos próximos dias. Se dúvidas existissem, o porta-voz do Kremlin tratou de as resolver, falando num "novo paradigma" daqui para a frente.
