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"Um novo modelo de guerra". Ucrânia conquista posição russa só com drones aéreos e terrestres e cria "um dilema"

19 abr, 08:00
Drones terrestres ucranianos (AP Photos)

Pela primeira vez na história do conflito, a Ucrânia conquistou uma posição militar russa utilizando exclusivamente uma frota combinada de drones aéreos e terrestres, sem enviar infantaria para o terreno. Este sucesso tático inédito marca um ponto de viragem na frente de combate, mas esconde um dilema

O que até há bem pouco tempo estava confinado aos melhores livros de ficção científica pode ter acabado de se tornar realidade e mudar o mundo da guerra para sempre. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, anunciou que a Ucrânia conseguiu, pela primeira vez, conquistar posições inimigas sem utilizar infantaria no terreno. Através de uma coordenação inédita de drones aéreos e terrestres, as forças ucranianas forçaram a rendição de militares russos, sem arriscar a vida de um único soldado ucraniano. Só que esta revolução, embora entusiasme a liderança militar pela sua eficácia, abre a porta a um caminho sem retorno. 

"Nós estamos a assistir, efetivamente, a uma mudança da própria natureza da guerra. Não é só a forma de combater que está a mudar. Em breve, teremos de lidar com questões éticas muito profundas. Uma máquina, de forma autónoma, a matar um humano. Isto é lícito? É eticamente aceitável?", questiona o major-general Jorge Saramago, especialista em assuntos militares.

Os detalhes da operação são escassos. As forças armadas ucranianas, que geralmente são rápidas a partilhar imagens de operações militares com sucesso, desta vez não o fizeram. A única fonte de informação é o próprio presidente ucraniano, que revelou que, pela primeira vez na história da guerra, "uma posição inimiga foi capturada exclusivamente por plataformas não tripuladas". Ao contrário de outras operações, onde drones aéreos atacaram posições inimigas e levaram soldados russos a renderem-se, esta missão contou com o apoio de vários veículos terrestres não tripulados equipados com metralhadoras. 

"Os ocupantes renderam-se e a operação decorreu sem a intervenção da infantaria e sem baixas do nosso lado. (...) Trata-se de alta tecnologia a proteger o bem mais precioso: a vida humana", afirmou Volodymyr Zelensky, nas redes sociais. 

Soldado ucraniano experimenta drone terrestre equipado com arma antitanque na região de Zaporizhzhia. (AP Photos)

Para os planeadores militares, a guerra na Ucrânia é vista como um verdadeiro laboratório de novas tecnologias militares. Desde o início do conflito que a Ucrânia recorreu ao uso de drones, através de modificações e inovações, para tentar equilibrar o campo de batalha. A evolução tecnológica neste campo acontece a uma velocidade estonteante, com os fabricantes de drones a aplicarem alterações em poucos dias, em resposta aos pedidos dos soldados que estão no terreno. Isto levou à criação de diversos tipos de drones, desde reconhecimento, a bombardeiros, a drones kamikazes. 

Mas um novo tipo de drone começa a entrar lentamente em cena: o drone terrestre. De acordo com o presidente ucraniano, há mais de seis tipos de drones terrestres a operar na Ucrânia e estes já cumpriram mais de 22 mil missões em apenas três meses. Alguns modelos destes drones são especializados no transporte de feridos, outros no transporte de mercadorias, mas outros, como os que foram utilizados nesta operação, são focados em missões de combate e equipados com armas pesadas. 

Apesar de a utilização de drones terrestres estar ligeiramente mais atrasada do que a dos drones aéreos, isso pode estar prestes a mudar. O jovem ministro da Defesa ucraniano, Mikhailo Fedorov, anunciou no dia 15 de abril que o país vai criar unidades de assalto de drones. Estas novas formações militares vão combinar o poder de drones aéreos com drones terrestres para tentar "saturar" as defesas dos inimigos numa determinada área.

"Está a ser introduzido um novo modelo de guerra — unidades de assalto com drones, que combinam drones aéreos e terrestres com infantaria num único sistema", afirmou o Ministério da Defesa.

Militar ucraniano comanda drone a partir do interior de um bunker, junto à linha da frente, em Kostiantynivka. (AP Photos)

"Aquilo que a Ucrânia está a fazer (...) é atribuir a cada unidade de manobra, no campo de batalha, drones para serem operados. Um drone é uma arma adicional que, no limite, cada combatente na linha da frente pode operar efetivamente", refere o major-general Jorge Saramago.

Apesar de o cenário aparentemente futurista, a criação destas unidades não significa que as máquinas já combatam sozinhas. Neste momento, o atual modelo obedece estritamente ao princípio do human in the loop, com o humano no controlo da decisão. Segundo o major-general Jorge Saramago, o que acontece agora é que "não se poupam pessoas, poupam-se vidas, porque cada um destes drones tem que ser operado por um piloto humano". 

Na prática, assistimos apenas a "cada vez mais humanos a usarem mais máquinas", aumentando exponencialmente a letalidade de cada soldado. O problema é que esta saturação robótica no terreno pode trazer uma tentação perigosa. Com a velocidade alucinante a que o combate moderno se desenrola, a porta fica agora definitivamente entreaberta para o passo seguinte: retirar o humano do loop para acelerar o tempo de reação, entregando à inteligência artificial a autonomia total para ditar, por si mesma, quem vive e quem morre no campo de batalha.

"Mudará substancialmente a forma de fazer a guerra quando se introduzir inteligência artificial nas máquinas e as máquinas controlarem por elas próprias outras máquinas. O domínio da inteligência artificial conferirá vantagens significativas ao Estado que melhor a dominar. (...) E assim mesmo, há efetivamente uma tentação de, tendo uma grande vantagem (...), impor a vontade à força porque tem um diferencial muito maior", admite o general. 

Esta nova mudança tecnológica no campo militar deixa a porta entreaberta para uma nova corrida armamentista. Esta realidade coloca um dilema à comunidade internacional para conseguir evitar conjuntamente o desenvolvimento de armas e exércitos autónomos. Para o major-general Jorge Saramago, é necessário um consenso internacional, à semelhança do que aconteceu com os tratados internacionais que proibiram o uso de gases químicos durante a guerra. No entanto, o sucesso de uma medida dessa natureza está dependente da aplicação por parte de todos.

Militares ucranianos da 65.ª Brigada Mecanizada testam um drone com uma metralhadora junto à linha da frente, em Zaporizhzhia. (AP Photos)

"E eu, quando for atacado por drones autónomos, limito-me a mim próprio para não responder? Para evitar que este cenário distópico se torne irreversível, a única esperança reside na capacidade de reformar as instituições e criar novos fóruns de entendimento diplomático", defende o major-general Jorge Saramago, antes que a decisão final de carregar no gatilho deixe de pertencer à humanidade.

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