Chegou com mais dois colegas e saiu sozinho, depois de os ver morrer. Ao olhar para trás, Serhii Krynitskyi percebe porque é que "muitos soldados perderam a cabeça"
Serhii Krynitskyi e um camarada estiveram quase um ano numa trincheira na linha da frente. Juntos mataram soldados russos e fizeram o possível e o impossível para sobreviver, incluindo escavar entre mortos para encontrar comida.
Quando podiam conversavam, às vezes em acesos debates, noutras simplesmente em momentos com a descontração possível para quem está num cenário de terror.
Em conversa com a agência Reuters, e lembrando os dias de resistência, Serhii Krynitskyi confirmou o pior: no fim já estava sozinho e ao lado tinha apenas o corpo do homem que o ajudou a resistir.
A morte chegou àquela trincheira através de uma bomba largada por um drone. O soldado sangrou até à morte, enquanto o colega fez de tudo para evitar o desfecho, mas não conseguiu.
Era o dia 326 da dupla no local e “nessa manhã estávamos a brincar em conjunto”, lembra o soldado de 42 anos. “Ao fim da tarde tínhamos as portas do céu a chamar.”
A última posição de Serhii Krynitskyi foi a consequência da forma como a guerra eletrónica está a moldar o campo de batalha, nomeadamente através dos drones. A tecnologia forçou ambos os lados a abandonarem as tradicionais táticas de acumulação de tropas ou filas de artilharia e veículos. Isso seria um alvo demasiado fácil para os pequenos dispositivos, pelo que a resistência ucraniana teve de se reinventar, tal como a ofensiva russa.
Ambos os lados têm agora pequenas equipas, por vezes de apenas dois ou três soldados, como era o caso, que se colocam em esconderijos que por vezes têm um espaçamento de até 30 quilómetros. É aquilo a que chamam de “zona de morte”, já que a ameaça de drones é constante e nunca se sabe quando um enxame vai surgir para atormentar o silêncio da linha da frente.
Estes grupos procuram evitar a deteção e infiltram-se nas linhas defensivas dos inimigos, muitas vezes com riscos colossais para os pequenos ganhos que conseguem. É normal que estejam presos durante meses na mesma posição, já que a rotação de soldados é igualmente perigosa.
Para se perceber, Serhii Krynitskyi foi destacado para uma localidade nos arredores de Chasiv Yar a 20 de abril de 2025. Esteve lá até 31 de março e foi durante esse período que decidiu fazer um registo diário de vídeos com o seu telemóvel, que por vezes só tinha bateria por causa dos dispositivos recolhidos junto dos drones russos que iam sendo abatidos.
A Reuters viu 22 desses vídeos, que foram fornecidos pela unidade de Serhii Krynitskyi, na tentativa de contar os 346 dias do homem naquela zona. Vinte dos quais, já percebemos, totalmente sozinho.
Entre autênticos ciclos de violência, chegou a ver grupos de soldados russos a apenas 20 metros. A resistência valeu-lhe a condecoração com o mérito militar mais alto da Ucrânia, em grande parte porque conseguiu matar 23 inimigos durante a sua missão.
Do primeiro ainda se recorda. Era um soldado que ficou ferido após a explosão de uma granada e que fingiu a rendição, mas que depois apontou a arma a Serhii Krynitskyi. “Eu reagi”, recorda, e depois o inimigo baixou a arma, acabando por morrer.
Uma história tanto mais impressionante se pensarmos que estamos a falar não de um militar de carreira, mas de um homem habituado a trabalhar na agricultura e na construção. Uma lesão acabou por atirá-lo para um coma de um mês que lhe mudou a vida.
Em 2024 foi recrutado durante uma passagem das Forças Armadas por Bilohir’ya, no oeste da Ucrânia, e entrou num autocarro com destino a Rivne, onde recebeu um treino rápido que o preparou para tudo o que havia de vir.
Foi destacado para a 24.ª Brigada Mecanizada e enviado para a linha da frente a este, onde a Rússia tentava, e ainda tenta, conquistar as várias cidades-fortaleza que ainda resistem na região de Donetsk.
Foi então em Chasiv Yar que começou a história de resistência. Junto com outros dois colegas começou por cavar uma trincheira. Sabiam que quanto mais fundo escavassem, melhores seriam as suas chances de sobrevivência, sendo que tinham de fazer tudo outra vez sempre que o abrigo era atingido por drones.
Um dos soldados foi morto pouco depois de o grupo de três ter chegado, num ataque que deixou Serhii Krynitskyi com uma ferida na cabeça e perda temporária de audição. Sozinho com apenas outro colega, continuou o trabalho, por vezes entre a dificuldade de encontrar comida ou água, até porque nem sempre os drones de reabastecimento conseguem furar as miras da Rússia.
A dupla resistiu, resistiu e resistiu, mas a 11 de março chegou um ataque fatal. Serhii Krynitskyi ouviu uma explosão lá fora e foi ver o que se passava, acabando por encontrar o camarada ferido numa perna por um drone. Arrastou-o para o buraco e colocou um torniquete para ter mais tempo para achar a ferida, mas era tarde demais.
Sozinho, acabou por receber uma ordem de cima para sair do local. Deixou o corpo do colega para trás e rastejou durante a noite até encontrar um outro grupo de soldados ucranianos que o ajudaram.
Serhii Krynitskyi regressou a casa e, em maio, recebeu das mãos do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a medalha de Herói do país por bravura.
Olhando para trás, o soldado percebe agora porque é que “muitos soldados perderam a cabeça” enquanto estavam na linha da frente.
