Entrar na NATO está fora de questão, avisaram os Estados Unidos. A Rússia já avisou que não abdica do território que considera seu - que até mais do que aquele que ocupa. No meio disto, é nos pormenores que o "diabo" se esconde
A guerra com a Rússia tem levado a Ucrânia para uma posição delicada. A recente evolução nas negociações de paz, marcada por declarações de figuras-chave como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indica que a Ucrânia pode estar prestes a assinar um acordo de cessar-fogo que comprometeria a sua soberania e a sua integridade territorial.
“Estamos perante uma derrota anunciada da Ucrânia. Uma guerra ou se ganha ou se perde quando se atinge os objetivos políticos e não necessariamente militares”, defende o major-general Agostinho Costa, acrescentando que “o objetivo político da Ucrânia sempre foi declaradamente e empenhadamente a recuperação de territórios perdidos e o estabelecimento das fronteiras que tinha em 1991, algo que será muito difícil”.
Nas últimas horas, as declarações de Trump sobre a possível adesão da Ucrânia à NATO e a persistente resistência de Moscovo em ceder os territórios ocupados tornaram-se tema central na véspera de o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, se deslocar à Casa Branca para assinar um acordo de minerais, que trará como moeda de troca o apoio militar dos EUA.
Para Trump, a Ucrânia "pode esquecer" a adesão à NATO, até porque que a Aliança Atlântica “é, provavelmente, a razão porque tudo começou"- numa clara alusão ao início da guerra, que o presidente dos Estados Unidos já sugeriu ter sido provocada por Kiev.
O comentador da CNN Portugal José Azeredo Lopes reforça que a posição dos Estados Unidos, particularmente sob a liderança de Trump, nunca foi de compromisso com a adesão imediata da Ucrânia à NATO. “Tenho de reconhecer que não há qualquer alteração de opinião dos EUA sob a administração de Donald Trump. Nunca houve um compromisso, a curto ou médio prazo do país, em aceitar a Ucrânia na NATO, mesmo com Biden enquanto presidente”.
“Não nos podemos esquecer que há muitos países que são contra a admissão da Ucrânia na NATO, sobretudo num contexto desta natureza”, acrescenta.
Para além dos Estados Unidos, países como a Alemanha ou a Eslováquia já recusaram no passado dar permissão à entrada da Ucrânia enquanto durar o conflito com a Rússia, justificando a decisão com o receio que a integração arraste os seus países para um conflito direto com Moscovo, ao abrigo do artigo 5.º, que parte do princípio de que “um ataque contra um ou mais dos seus membros é considerado um ataque contra todos”. Significaria isso, neste momento, que a NATO seria obrigada a entrar em guerra direta com a Rússia.
“Quando o país que tutela a NATO diz que Ucrânia não entra na aliança, por si só já representa uma vitória para Putin”, defende Agostinho Costa.
Ucrânia ficou "entre a espada e a parede"
O segundo objetivo mais importante para a Ucrânia no conflito com Moscovo era a reconquista dos territórios que foi perdendo ao longo dos anos para a Rússia, entre os quais a Crimeia, logo em 2014, com a anexação de uma península que teve pouco mais que um clamor internacional. A meta de Zelensky ficou comprometida esta quinta-feira quando Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, afirmou aos meios de comunicação social da Rússia que o território ucraniano anexado "não é negociável".
É que, a fazer fé nas palavras do representante russo, Moscovo não entende apenas que deve ficar com o território que já tem, mas também com parte importante dos territórios de Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson. O caso da primeira daquelas regiões é particularmente importante, já que Donetsk faz parte do Donbass, zona ucraniana com grande influência russófona que Putin insiste em "libertar".
“Essa pode ser a posição da Rússia, mas ainda não sabemos se é uma posição partilhada pelos EUA. Trump afirmou anteriormente que Vladimir Putin teria de ceder em alguns pontos que poderão passar pela cedência de territórios conquistados à Ucrânia, acredito que a margem negocial passe por aí”, defende Azeredo Lopes.
A 30 de setembro de 2022, a Rússia proclamou a anexação do sul e leste da Ucrânia, através da assinatura de tratados de adesão às regiões de Kherson, Zaporizhzhia, Donetsk e Lugansk. A anexação, considerada “ilegal” pela Ucrânia e pelo Ocidente, representou uma perda de 15% do território ucraniano, embora as tropas russas ocupem apenas parcialmente cada uma das regiões, à exceção de Lugansk, que foi ocupada na sua totalidade.
A juntar-se às quatro regiões anexadas durante a invasão russa à Ucrânia está a Crimeia, que a 18 de março de 2014 foi oficializada como território de Moscovo, após a queda do então presidente pró-russo Víktor Yanukóvytch.
Ainda assim, o major-general Agostinho Costa acredita que esse não é o principal objetivo da Rússia por esta altura. “O objetivo político da Rússia neste momento não é a Ucrânia e a anexação dos quatro oblasts a que se propôs, mas sim a formação de uma nova arquitetura de segurança europeia. Aliás, é por isso que que a Europa está muito preocupada”, afirma.
Enquanto isso, Azeredo Lopes deixa um aviso: “O diabo está nos pormenores, que ainda não conhecemos, e é aqui que vamos perceber se a Ucrânia perde ou não a guerra”.
“Os EUA vão tentar que o território fique como está, por isso é muito importante que as negociações aconteçam rapidamente para que a Rússia não avance ainda mais em espaço ucraniano”, sublinha ainda.
Zelensky não quer ser "fantoche dos russos"
Sem vantagem na guerra e com cada vez menos condições para negociar com Putin, a Ucrânia vê-se agora obrigada a negociar perante alguns termos que não desejaria. Ainda assim, há fatores importantes que levam Kiev a assinar um acordo.
“A Ucrânia espera que um acordo de um cessar-fogo traga a viabilidade do seu próprio país, enquanto Estado, não com as fronteiras que pretenderiam, mas assegurando que permanecem independentes e sem tropas russas na fronteira. Dessa forma, evita permanecer como um fantoche dos russos, ao mesmo tempo que não perde o acesso ao mar por causa do constante avanço da Rússia no terreno”, sublinha o major-general Agostinho Costa, acrescentando que outros objetivos que pudesse ter "são manifestamente impossíveis".
Trump é por esta altura visto como o líder das negociações entre a Rússia e a Ucrânia, tendo encontro marcado com Volodymyr Zelensky e a intenção de se reunir com Vladimir Putin. Esse sentido de “liderança” foi reconhecido por Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, e Emmanuel Macron, presidente de França, que salientaram na terça-feira que “uma paz duradoura” deve estar “no centro de qualquer negociação”.
"É oportuna a liderança do presidente Trump no trabalho em prol de uma paz duradoura na Ucrânia", lê-se na nota divulgada pelo gabinete do chefe de governo britânico depois de uma conversa telefónica entre os dois líderes europeus.
Azeredo Lopes corrobora a importância de Trump na resolução do conflito. “Podemos discordar de Trump em muita coisa, mas, no meio de toda esta brutalidade, vai conseguir alcançar uma posição de ausência de guerra, algo que o antecessor não conseguiu”.
“Se os EUA concordam que a paz só pode ser efetivada nestes tempos, não vale a pena contrariarmos”, acrescenta o comentador da CNN Portugal.
