"Tudo o que possam imaginar que seja doloroso": o relato de quem esteve 1.183 dias preso pela Rússia

11 ago, 08:22
Troca de prisioneiros
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Testemunhos de prisioneiros de guerra foram ouvidos nas Nações Unidas, que continuam a notar uma grande diferença no tratamento dado pelos dois países

“Sim… fui torturado.” Foi de forma simples que Khuan Alberto Levya Garsiya se dirigiu aos jornalistas depois de uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas em que estiveram em cima da mesa eventuais crimes de guerra na Ucrânia.

Foi lá que vários ucranianos que estiveram detidos pela Rússia descreveram a sua passagem pelas mãos do inimigo, contando episódios de espancamentos, choques elétricos e até abusos sexuais.

Aconteceu-lhes a eles e, acreditam estas pessoas, está a acontecer às centenas de ucranianos que ainda são prisioneiros da Rússia.

Membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a Rússia recusou, sem surpresa, as acusações, rebatendo estas afirmações com as suas próprias alegações.

A vice-representante da Rússia nas Nações Unidas, Maria Zabolotskaya, garantiu que tudo não passa de uma “campanha de desinformação”, sendo que, segundo Moscovo, há prisioneiros russos que estão a ser sujeitos a “tortura e degradação e a abusos físicos e morais”.

Mas voltemos a Khuan Alberto Levya Garsiya, que ainda hoje faz parte das Forças Armadas da Ucrânia, e esteve 1.183 dias em cativeiro nas mãos do inimigo.

“Tudo o que possam imaginar que seja doloroso, humilhante para um homem, indigno”, começou por recordar, citado pela agência Reuters.

“Tudo o que vos venha à cabeça, não apenas verbal, abuso físico, espancamentos diários, eletrocussão, exercícios excessivos num frio gelado quando estavam temperaturas negativas, abuso sexual. Tudo o que possa ser aplicado a uma pessoa fazer outra quebrar mentalmente. Foi-me tudo aplicado a mim e à maioria dos meus camaradas”, acrescentou.

Olhando para trás, este soldado entende que até teve sorte. Está vivo, ao contrário de dois colegas que foram espancados até à morte num centro de detenção de Donetsk. Lá os prisioneiros são mantidos em “barracas sobrelotadas sem as condições adequadas”. É também lá que “quase todos os prisioneiros de guerra estão doentes com disenteria”, muitos deles à fome, de acordo com a sua descrição perante o painel da ONU.

Este ucraniano de pai cubano acredita que os guardas o visavam particularmente por causa do seu nome latino. Acusavam-no mesmo de ser um “mercenário e um espião americano”.

A experiência de Leniie Umerova não terá sido tão dura fisicamente, mas a nível psicológico também é difícil de apagar. Esta ativista de etnia tártara nascida na Crimeia foi libertada durante uma troca de prisioneiros ocorrida em 2024, depois de ter sido detida quando tentava visitar o seu pai, que estava doente na península que a Rússia anexou em 2014.

Durante o tempo em que esteve presa passou por sete prisões num “carrossel de repressão” em que viu práticas de tortura contra cidadãos ucranianos, de acordo com o relato fornecido pela agência Reuters.

Oleg Gushin, do Centro de Coordenação para o Tratamento de Prisioneiros de Guerra, refere que são “mais de 300 locais de detenção” os que existem na Rússia e na Ucrânia ocupada.

Lá são, segundo este responsável, “mortos e torturados” os ucranianos detidos. E se mais de nove mil já conseguiram regressar a casa, a maioria através das tais trocas, há “centenas” que ainda continuam perdidos nas malhas do cativeiro russo.

A assistente do secretário-geral das Nações Unidas para os Direitos Humanos confirmou que a primeira análise mostra “tortura generalizada e sistemática e um tratamento doentio aos prisioneiros de guerra e aos civis ucranianos detidos pelas autoridades da Federação Russa”. Um comportamento que, de acordo com Claudia Fontes, continua.

A ONU tem documentadas 129 execuções de prisioneiros de guerra ucranianos e outras 48 mortes ocorridas durante o período de detenção. São o resultado, segundo Claudia Fuentes, de tortura, negação de tratamento médico ou de condições desumanas de detenção.

Dados que a ONU recolheu ao entrevistar prisioneiros de guerra, sendo que mais de 95% deles referiu relatos deste género. Relatos que incluíram “violação, violação em grupo, espancamentos enquanto estavam despidos, agressões nos genitais, choques elétricos nos genitais e nos mamilos ou tratamento degradante de natureza sexual”.

A ONU ouviu “relatos consistentes de espancamentos severos com objetos como bastões, cintos pesados ou madeira, choques elétricos, ataques com cães e outras formas de tortura”.

Embora o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos também tenha ouvido relatos de abuso do outro lado, estes sofridos por prisioneiros russos, a escala é “fundamentalmente diferente”. Claudia Fuentes nota que cerca de metade dos prisioneiros russos ou de outros países relataram condições deficitárias durante a detenção.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa

Mais Lidas